Pastoral Operária desenvolve ação para evidenciar desigualdades e garantir justiça social no mundo do trabalho

Por Paulo Victor Melo | Especial para o JSB

Um país com cada vez mais pessoas desempregadas, desalentadas, famintas, onde cada vez mais pessoas se encontram em situação de insegurança alimentar.

Esse é o Brasil de 2021, que observa a pandemia de Covid-19 aprofundar todo o cenário de desigualdades e de dívidas sociais, culturais e ambientais contra os grupos mais vulnerabilizados.

Esse é o Brasil de 2021, que mesmo durante a crise sanitária ocasionada pelo coronavírus passa a ter 11 novos bilionários enquanto 12,85% da sua população (sobre)vive com menos de R$ 246 por mês.

São, de acordo com índices da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua, realizada pelo IBGE, 14,3% milhões de brasileiras e brasileiros desempregados/as; 40% dos trabalhadores e trabalhadoras estão na informalidade; e quase 6 de milhões de pessoas “desalentadas”, ou seja, estão desempregadas, mas não buscam mais trabalho porque não veem nem mesmo possibilidade de conseguir.

Quando analisados os componentes de gênero e raça, escancara-se que o cenário é ainda mais difícil para as mulheres trabalhadoras e, sobretudo, para as mulheres negras. Alguns dados de órgãos de pesquisa que apontam nesta direção: as mulheres ganham em média 22% menos que os homens; a remuneração média por hora das mulheres negras é R$ 10,95, enquanto a dos homens brancos é de R$ 20,79; apenas 45,8% das mulheres estão empregadas ou em busca de emprego. Mais da metade das mulheres está fora do mercado de trabalho; o índice de desemprego entre as mulheres é de 16,8%; entre as mulheres negras, o índice de desemprego é de 19,8%; apenas em 2020, 5,7 milhões de mulheres perderam o emprego; 3 milhões de mulheres que estavam na informalidade perderam o trabalho e a renda em 2020.

É buscando incidir sobre este contexto que a Pastoral Operária (PO) – em parceria com a Rede Jubileu Sul Brasil e a Rede Jubileu Sul/Américas desenvolve a ação “Promoção da justiça no mundo do trabalho”, que tem como principais objetivos contribuir para a defesa do trabalho e soberania dos povos e promover impacto social nos territórios afetados pelas dívidas sociais em que a Pastoral atua.

No entendimento de Mônica Fidelis, da coordenação nacional da Pastoral Operária, neste contexto de agravamento da pandemia e de avanço da necropolítica promovida pelo governo federal, a ação se torna fundamental ao estabelecer um diálogo nas comunidades e/ou territórios.

“Estamos numa crise sanitária, no mundo do trabalho, na política, na economia e uma crise ética. Nossa população, principalmente as parcelas mais vulneráveis, estão cada dia mais desalentadas, o fascismo cresce assustadoramente, e essa nova configuração no mundo do trabalho faz da classe trabalhadora o novo proletariado de serviços. A consciência de classe, educação e o conhecimento crítico da realidade são essenciais para o enfrentamento e mudança social”, acredita.

Previsto para acontecer até junho de 2022 e com um conjunto de iniciativas de comunicação, formação e educação popular, a ação – que foi elaborada antes da pandemia – passou por reformulações, como cumprimento das medidas de distanciamento físico necessárias à prevenção contra a Covid-19.

“O projeto tem como ação principal a formação dos nossos militantes e parceiros. Com a pandemia, tivemos uma adequação e realocação de recurso. Programamos um seminário nacional presencial, mas será realizado de modo virtual. Com isso, realocamos parte dos recursos destinados a passagens e infraestrutura para compra de cestas básicas, destinadas a pessoas/famílias em condições de vulnerabilidade social acompanhadas pela PO nas bases. As cestas básicas serão distribuídas em todo o Brasil, sendo aproximadamente 400 cestas, nas quais devem conter alimentos, produtos de higiene pessoal, máscara e álcool em gel”, explicou Mônica.

Além dessas mudanças, que sinalizam o compromisso da Pastoral Operária em contribuir diretamente com o enfrentamento da realidade de violações de direitos, no âmbito do projeto já foi concluída a atualização do site da entidade, garantindo mais interatividade e disponibilização de informações, e feita a assinatura de uma plataforma virtual para a realização de eventos (seminário, roda de conversa e curso sobre realidade brasileira).

Mônica conta que “o envio das cartilhas pelos Correios para as bases ainda não foi realizado, nem as visitas aos territórios, devido ao prolongamento da pandemia. Deste modo, o envio do material será em dezembro e as visitas iniciarão em fevereiro.  O site recebeu um novo layout com campos regionalizados, nos quais se pretende divulgar as ações das rodas de conversa e cursos nos locais, além de uma seção para recebermos denúncias de violações de direitos do trabalho”.

Está em elaboração também, como parte das ações do projeto, uma cartilha sobre dívida pública, privatizações e precarização do trabalho, que servirá de subsídio para as atividades de formação.

“Desde que iniciei minha militância na PO escutava essa expressão ‘ser fermento na massa’. Penso que é isso que o projeto propõe, queremos através dessas ações promover um espaço de diálogo que ajude a desenvolver e/ou fortalecer a consciência de classe das forças sociais mais populares, de modo a incidir nas forças políticas para mudar o cenário de caos político e social que vivemos”, avalia Mônica.

A ação “Promoção da justiça no mundo do trabalho” é financiada com recursos da União Europeia por meio da Ajuda a Terceiros, no âmbito da ação Fortalecimiento de la Red Jubileo Sur / Américas en el logro del desarrollo y de la soberanía de los pueblos latinoamericanos y caribeños.

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