Para esconder o caos em seu governo, Bolsonaro mente

Foto: Comunicação MTST-SP | Arte: Talita Ai Lô

Mentir: proferir como verdadeiro o que é falso. Ser causa de engano. Ocultar uma verdade. Deixar de ser verdadeiro. Estes são alguns significados apresentados pelo Michaelis, dicionário da língua portuguesa, para o verbo que acompanha a rotina política no Brasil, como nunca antes na história da democracia do país. Não há dúvidas, Bolsonaro mentiu e mente!

O discurso na 76ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, na terça-feira (21), tornou-se um momento emblemático da confirmação de que temos um presidente que está disposto a tudo para se perpetuar no poder e ele não está sozinho e nem a passeio nessa empreitada. A estratégia é a mesma empregada pela direita internacional: desmoralizar os espaços multilaterais. Vimos isso com relação à Organização Mundial de Saúde (OMS), no início da pandemia.  Ao tripudiar as normas da ONU, como o uso de máscara e vacina, Bolsonaro faz coro a essa estratégia. 

O que revela a passagem conturbada e vexatória da comitiva brasileira em Nova York, com protestos, jantares na calçada, acompanhados por gestos obscenos e desrespeitosos do Ministro da Saúde? Além da repercussão expressiva desses fatos, a cobertura midiática nacional e internacional tratou de desmentir uma a uma as mentiras proferidas no discurso presidencial no maior e mais importante espaço diplomático mundial.

Mas o que estaria na base de tamanha falta de honestidade e escrúpulos?  Por que levar para a plenária da ONU o escracho, a mentira? O DNA do bolsonarismo não estaria apenas apresentado ao mundo seu modus operandi marcado pela ridicularizarão, pela desmoralização das instituições e da democracia?

Se por um lado temos o bolsonarismo invadindo Nova York e setores do agronegócio e do mercado financeiro no comando da política econômica do Brasil, por outro temos a sociedade civil organizada denunciando a carestia, a perda de salário real, a volta da fome e do fogão a lenha – como solução possível para preparar o feijão com arroz de cada dia – o desemprego e os despejos que fazem crescer vertiginosamente o número de pessoas que vivem em habitações precárias ou em situação de rua.

Para denunciar o aprofundamento da pobreza no Brasil, dois dias após o repugnante discurso presidencial na Assembleia da ONU, manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Frente Povo Sem Medo ocuparam o maior centro econômico da América Latina: a sede da Bolsa de Valores, na região central de São Paulo. A iniciativa foi uma denúncia da ausência de políticas sociais do governo Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes. “Sua ação financia nossa miséria”, denunciava um dos cartazes.

O cenário é grave. Não temos nenhum plano econômico ou político que indique uma saída. Reviveremos no Brasil o aprofundamento da barbárie típica dos períodos que antecederam as grandes convulsões sociais da humanidade no início do século XX? Enquanto isso, parte significativa da esquerda vai devotar-se a responder agendas de caráter eleitoral?

Este ambiente povoado por tensões de todo tipo torna também perigoso o futuro do país, partidos e lideranças políticas já se ajeitam em busca de um cantinho para chamar de seu nas eleições de 2022. Há quem já cogite negociar com setores golpistas! 

Vamos continuar naufragando até as eleições? Vamos esperar as urnas serem destruídas? O diálogo é fundamental, mas não dá pra fazer salada com todos os ingredientes. Os sinais de fragmentação e desorientação política partidária da esquerda indicam que ainda há um longo caminho a ser percorrido até a superação desse momento crítico. Não há liga por parte de quem lidera os movimentos políticos com quem está cozinhando com fogo de lenha e acorda sem saber se terá naquele dia uma refeição ou como vai pagar o aluguel e as contas do mês. É dessas respostas que a população brasileira precisa. A necessidade do salto estratégico está colocado, ir para além da pequena política como já nos alertava Grasmci, necessitamos do inesperado para o bem coletivo!

As iniciativas que temos feito, ocupando as ruas e as redes sociais, desestabilizaram o governo, mas o cenário ao nosso redor não é animador. Olhar para os lados não está fácil, no entanto, a história tem seu movimento contínuo. A celebração do centenário de Paulo Freire reacende o esperançar de quem está no front da luta por democracia, contra Bolsonaro e na resistência à perpetuação do bolsonarismo.

Acreditar nas pequenas coisas nunca foi tão importante! Apostar nas ações dos territórios, na certeza de que a mudança das estruturas do sistema político-financeiro e um projeto popular para o Brasil não chegarão via Congresso Nacional. Apesar da pandemia, com a vacina e os cuidados sanitários, é preciso estar junto, ocupar, somar esforços com alegria e confiança na base, na rua. “Num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário”, indica o mestre Paulo Freire. Sigamos em revolução!

Não devemos! Não pagamos!

Somos os povos, os credores!

Rede Jubileu Sul Brasil, 28 de setembro de 2021

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