Paulo Guedes é o ícone da “economia que mata”

Doação de marmitas em Londrina (PR). Foto: Igor de Nadai | MST-PR/FotosPúblicas

Roberto Malvezzi (Gogó)*

Se existe alguma virtude no atual governo é que ele é absolutamente transparente nos seus propósitos, ainda que seja uma perversa transparência. Como diz Jesus sobre os mercenários em uma de suas falas: “O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10,10).

Bolsonaro avisou na campanha que viria para destruir (voltar 50 anos na história) e que gostaria de ver mortos ao menos os 30 mil que a “ditadura torturou, mas não matou”. Esse propósito se materializa com os fatos, como os 400 mil mortos pela Covid19, mas também a fala expressa do ministro Paulo Guedes: “De acordo com o ministro, não foi a pandemia que tirou a capacidade de atendimento do setor público, mas sim ‘o avanço na medicina’ e ‘o direito à vida’ (Globo Economia). O ministro não tem pudores de dizer que a vida de muitas pessoas é um problema para a concepção que ele tem economia.  

Para o ministro as únicas vidas que valem é a dos mercadores. O resto das vidas têm que ser sacrificadas no altar dos deuses do mercado. Pensadores como Jung Mo Sung e Franz Hincklammert já devassaram a alma sanguinária e sacrificial desses deuses. Mas, esses deuses têm uma característica pavorosa, isto é, são insaciáveis.

Mas, assim como Bolsonaro não fala sozinho, mas tem milhões de pessoas ainda sustentando suas práticas e seu discurso, Paulo Guedes também não fala sozinho. Ele é o ícone da “economia que mata” segundo o dizer do Papa Francisco: “Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”. (FRANCISCO, Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 09-07-2015).

Além de Guedes, agora a Câmara dos Deputados deleta a licença ambiental e quer instalar a grilagem aberta nas terras públicas. Bolsonaro não está só, ele é o ícone dessa direita extrema e implacável.

A mídia corporativa brasileira já nem fala em mercado, mas na Faria Lima. Além do personagem histórico, o que é a Faria Lima? Uma avenida em São Paulo, que junto com a Paulista, a Rebouças e a Nove de Julho fazem o quadrado dos Jardins na capital paulista. Isso quer dizer que Paulo Guedes representa uma avenida no Brasil, os mercadores da Faria Lima, onde estão estabelecidos os escritórios do mundo financeiro e as startups. É o Brasil pensado para uma avenida.

Podemos acusar Bolsonaro, Guedes e Sales de tudo, menos de que são enganosos em seus propósitos e em suas práticas. Eles são convictos no processo de destruição que promovem. Dizem abertamente a quem servem e o que fazem. E fazem. 

* Músico e escritor católico. graduado em Estudos Sociais e em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena e em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo. Foi coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) por seis anos. Reside em Juazeiro (BA) e atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

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