Fórum de Mudanças Climáticas faz alerta sobre avanço da desertificação

Estudo aponta que os 7 biomas brasileiros sofrem os efeitos do desmatamento em excesso e megaprojetos

Seca Crateús – Ceará – Foto: Fernando Frazão

Por Marcos Vinicius dos Santos*

A desertificação avança sobre todos os sete biomas brasileiros. É o que apontam os participantes Encontro Nacional “Mudanças Climáticas e Processos de Desertificação nos Biomas do Brasil”, promovido pelo Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental (FMCJS) e entidades parceiras. O texto é um alerta para que a sociedade leve a sério as mudanças climáticas que estão ocorrendo no Brasil nesse momento, uma das principais preocupações que move a ação do FMCJS.

Segundo definição da Organização das Nações Unidas (ONU) a desertificação é o processo de empobrecimento e diminuição da umidade em solos arenosos, geralmente em regiões de clima seco, como o cerrado e a caatinga, porém essa definição não consegue mais dar conta da realidade brasileira, já que a degradação do meio ambiente causada pelo avanço desenfreado do agronegócio e mineração tem levado todos os biomas a sofrerem, gerando problemas ambientais, sociais e econômicos principalmente as populações mais vulneráveis.

Promover ações como o Encontro Nacional é um dos objetivos da atuação conjunta entre a Rede Jubileu Sul Brasil e o FMCJS. A parceria das duas instituições acontece a cerca de dez anos em diversas ações. Entre elas, o projeto de Ajuda a Terceiros, que recentemente foi concluído com a realização do Encontro Nacional.

“A parceria entre o Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Climática e a Rede Jubileu Sul já deve estar próxima há dez anos. Esse tempo, a gente chama de parceira de mão dupla, com as duas organizações atuando em projetos conjuntos”, explicou Clecir Maria Trombetta, secretária executiva do Fórum.

A criação de uma comissão com representantes de entidades para abrir um caminho de enfrentamento dos processos de desertificação é o principal objetivo do último projeto dessa ação conjunta. A construção coletiva entre entidades defensoras do meio ambiente e as populações afetadas pela degradação do meio ambiente, que durou cerca de um ano e meio, teve sua conclusão na exposição do Encontro Nacional, realizado virtualmente entre os dias 14 e 17 de setembro. Como fruto dessa articulação nacional nasceu a carta pública “Reflorestar mentes e corações para a Cura da Terra”, com dados robustos e depoimentos sobre o redução abrupta na diversidade dos biomas brasileiros.

“Normalmente quando a gente falava em área de desertificação, era comum pensar que isso é da caatinga ou do cerrado. Esse levantamento, em conjunto com os estudos, encontros e as exposições do pessoal de base tem colocado que isso tem se tornado muito comum em todos os biomas. É no Pantanal, no Cerrado, na Amazônia, na Mata Atlântica, nos Pampas e na Zona Costeira. Isso se dá por várias outras situações como, por exemplo, instalação de energia eólica e outros investimentos e megaprojetos que tem causado grande desequilíbrio para os biomas e nas matas nativas de cada de cada região”, afirmou Clecir Maria.

Encontro Nacional “Mudanças Climáticas e Processos de Desertificação nos Biomas do Brasil”

Segundo o estudo, o Cerrado perdeu nos últimos trinta anos 60% da área original. No Pantanal e nos Pampas a degradação está cada vez mais acentuada pelo avanço da agropecuária extensiva e pelo sobrepastoreio. Os Pampas já perderam quase 54% da vegetação original, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. Na Mata Atlântica, onde vive 62% da população brasileira e que abrange sete das nove principais bacias hidrográficas do país, 93% da mata original não existe mais. A Zona Costeira está ameaçada pela superpopulação e por atividades agrícolas, aquícolas, minerárias, industriais e imobiliárias.

Esses processos ameaçam o modo de vida das comunidades que convivem em harmonia com esses territórios desde a sua formação e tem agravado a desigualdade em todo o país. São sintomas comuns do processo de desertificação o assoreamento, destruição do habitat, erosão, escassez ou falta de água, desmatamento dos manguezais, poluição e contaminação da água e do solo, secagem de rios, lagos, lagoas, riachos e nascentes.

Com a denúncia, a expectativa do FMCJS é que toda a população se conscientize desses processos, pois os seus efeitos estão cada vez mais sendo sentidos e necessitam de combate diário, com ações de reconstrução em territórios que já não conseguirão se recuperar sozinhos.

 “Esse olhar, essa percepção, transmite-nos que todos nós devemos nos mobilizar e agir, para que esse processo de desertificação não se expanda mais. Precisamos ter ações concretas de contenção, de recuperação todos os dias”, concluiu a secretária executiva do FMCJS.

A ação de ajuda a terceiros pela qual a Rede Jubileu Sul Brasil deu suporte ao projeto de combate e conscientização sobre a desertificação é parte do projeto “Fortalecimiento de la Red Jubileo Sur / Américas en el logro del desarrollo y de la soberanía de los pueblos latinoamericanos y caribeños”. O apoio financeiro é direcionado às organizações membro da Rede JS/Américas que atuam em áreas estratégicas como a defesa dos direitos humanos, territoriais e socioambientais e conta com o cofinanciamento da União Europeia.

*Com supervisão de Jucelene Rocha

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