União entre os povos tradicionais marca Seminário sobre Financeirização da Natureza em São Paulo

Por Rogéria Araújo | Comunicação Jubileu Sul Brasil

Terra, autonomia, resistência, luta, militância, união. Do Vale do Ribeira, passando por Promissão, aos povos indígenas da região urbana e do interior de São Paulo, foram essas palavras que todos tiveram em comum durante o Seminário Regional “Financeirização da Natureza – O que é feito em nome do clima e do meio ambiente?”, realizado em na capital paulista, de 15 a 17 de julho. Um dos encaminhamentos do Seminário foi fazer uma carta conjunta demandando respeito e o cumprimento legal de consulta para os povos tradicionais e denunciando todas as violações que vêm sofrendo.

A militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Natália Pereira, veio da região de Promissão e saiu do seminário com a certeza de que o caminho é a união entre os povos e populações que vêm sendo afetados ou atingidos pelas ações do Estado que interferem na natureza e, em consequência, nos seus modos de vida.
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“O Seminário contribuiu em mais conhecimentos e alianças com outros movimentos sociais. Hoje a gente está vendo a dificuldade de cada um . A avaliação que estamos fazendo é que estamos nas mesmas dificuldades. Se for ver é um ponto de obstáculos que todos passam só mudam os povos, indígenas, quilombolas, caiçaras. É um ponto em comum que acabou nos unindo e trazendo mais força pra nós e vontade de lutar e conseguir nossos direitos. Claro, essa luta não é de agora. Mas esses momentos nos fortalecem”, disse.

Muitos dos temas abordados no Seminário chamaram a atenção da militante, sobretudo a apresentação do defensor público Wagner Giron. “Foi muito bonito o trabalho dele, ele vê o povo trabalhador, ele vê a dificuldade , ele consegue ver o sofrimento. O tema que o Ivo [Poletto] trouxe também foi muito bom , abriu muito a mente da gente, sobre a questão da natureza, de como ela pode ser comercializada, são informações que geralmente não nos chegam”, afirmou.

Da comunidade Quilombo Piriri, do Vale do Ribeira, em Iporanga (SP) veio Josiane Santos. Pela primeira vez, a quilombola participou de um encontro com outros movimentos. Disse saber da luta dos povos indígenas, mas não imaginou que seria tão mais grave do que pensava.
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“Temos muito em comum. Não via a luta dos índios como eu vi hoje.  O que trouxe de bom pra mim, para minha comunidade, foi o espírito de luta. Me deu força para lutar cada vez mais pelos nossos direitos e os direitos de outras pessoas, tentando fazer um grupo forte para fazer com que esses governos e autoridades olhem para gente que somos esquecidos”, enfatizou.

A situação dos pescadores não difere das outras. Guillermo Denaro, integrante da rede Jubileu Sul Brasil e da organização Associação Amor Castelhano, de Ilhabela, no litoral de São Paulo, falou sobre os problemas que estão afetando os pescadores caiçaras. Empreendimentos petrolíferos estão afastando os peixes e interferindo na vida marinha. É o caso das baleias que estão aparecendo no litoral, onde não apareciam antes.

Como realizadora do encontro, a rede Jubileu Sul Brasil esteve representada por Rosilene Wansetto. Para ela, o Seminário foi uma experiência muito rica. Reunir num mesmo espaço lideranças e movimentos em torno de um tema tão urgente como a financeirização da natureza só vem para concretizar o trabalho que vem sendo feito há muitos anos.
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“Foi uma oportunidade de reunir várias populações que vivem em territórios ameaçados ou atingidos por várias situações. Criar essas conexões com essas populações e com o nosso trabalho, fortalece o que a rede já desenvolve com essa preocupação com as comunidades nos territórios”

Os frutos que saem deste evento, completa, ajuda a construir algo bem concreto nesse campo da financeirização e mudanças climáticas pois até então havia essa conexão tão próxima na região de São Paulo. “Tem lutas acontecendo, mas de forma isolada. O Seminário contribuiu nesse caminho de unificar essas lutas”, disse.

Para Ivo Poletto, do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, a oportunidade de trabalhar diretamente com as pessoas atingidas por essas questões climáticas aproxima mais o seminário de seus objetivos. “Me senti realmente num seminário dialogando com aqueles que são nossos parceiros principais porque são com eles que vamos poder enfrentar as causas das mudanças climáticas e também trabalhar as alternativas”, afirmou.

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O Seminário foi uma realização da rede Jubileu Sul Brasil e do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social. Contou com apoio da Misereor, CAFOD e FASTNOPFER.

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