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Violência contra a mulher: o que a luta por moradia e feminismo comunitário têm a ver?

  • 1 de fevereiro de 2023

Ao mesmo tempo em que historicamente a violência perpassa o nosso cotidiano, também carregamos em nosso corpo memórias históricas de luta e de uma forte resistência

Por Polly Policarpo I Especial para o Jubileu Sul Brasil*

A violência contra as mulheres é percebida no cotidiano de nossas cidades, nos campos e quilombos. É percebida nas vivências das mulheres jovens, idosas e das meninas e crianças. São violências rotineiras que se tornam parte das teias de socialização e muitas vezes são percebidas erroneamente como naturais e parte da construção que temos de sociedade. Nos relatos de nossas mães, de nossas avós e bisavós, nas conversas de bar e no olhar silencioso trocado entre mulheres nas ruas: sabemos que a violência está presente.

As violências se demonstram nas marcas do corpo, na mente, no olhar cansado e abatido e na forma de expressão e mais ainda na limitação dos sentimentos, das vontades e dos afetos. As violências são tipificadas na lei Maria da Penha, como violência física, violência psicológica, violência moral, violência sexual e violência patrimonial.

Ao mesmo tempo em que historicamente a violência perpassa o nosso cotidiano, também carregamos em nosso corpo memórias históricas de luta e de uma forte resistência. Mulheres são expostas a situações de violência, na mesma proporção em que se organizam para enfrentar os abusos e desigualdades ao redor. Mulheres organizadas na luta também cotidiana, que trocam aprendizados, que trocam sabedorias ancestrais que partilham da cura, através das ervas medicinais, da alimentação e do afeto. Mulheres que juntas se acolhem e assim fortalecem sua autonomia para romper com relações abusivas e com a exploração.

Polly Policarpo, da equipe técnica da Ação Mulheres por reparação das dívidas sociais. Foto: Isabela Alves

Nós mulheres somos diversas e nosso corpo quando floresce na força coletiva, expressa a vivência emancipatória de se reconhecer: mulher. Somos mulheres negras, indígenas e quilombolas, somos mulheres lésbicas, bissexuais, trans e travestis, somos pansexuais e questionamos a binariedade imposta aos nossos corpos, somos não-bináries. Somos corpos diversos, gordos, magros, corpos com deficiências e plasticidades múltiplas. Somos uma diversidade de corpos que lutam por dignidade e justiça social. Reconhecemos e transformamos nossas vivências através da nossa sororidade¹.

A luta por justiça social, é uma luta por moradia digna, por acesso a saúde, educação, cultura e segurança alimentar. Não à toa a luta tem como protagonistas as mulheres. Lutam por seus filhos, por suas famílias, por seus companheiros e companheiras, com um senso de comunidade. E enquanto lutamos aprendemos a nos reconhecer, aprendemos a nos amar, mesmo com nossas marcas e dores. Entendemos que não devemos aceitar os abusos e as limitações que nos impõem.

A luta por moradia tem como protagonismo as mulheres, que se organizam para lidar com a violenta ausência do estado e das políticas públicas. Mulheres que questionam: onde se encontra a saúde, educação e lazer de qualidade? Mulheres que questionam a ocupação desenfreada e degradante das cidades e dos campos. Mulheres que criam novos significados para a arquitetura e organização dos espaços, mulheres que constroem espaços coletivos e comunitários. Mulheres que ressignificam o ato de ocupar a cidade. Mulheres que exigem e lutam por moradia digna, com acesso à cidade e às políticas públicas, que lutam por transporte público, iluminação e por uma casa onde descansar.

Mulheres juntas constroem um feminismo que não aceita se deturpar, nem capturar pelo capitalismo, mulheres que constroem no cotidiano e na prática coletiva o que é o feminismo comunitário. Mulheres que se comunicam e partilham informações e instrumentos de resistência às violências. Mulheres que partilham o cuidado com suas famílias e que partilham de momentos de autocuidado e de cura, mulheres que partilham de sabedorias ancestrais, que partilham dicas de prevenção a gravidez e as infecções sexualmente transmissíveis, mulheres que partilham o alimento do próprio prato e que amamentam os filhos uma das outras, com a sabedoria de que “é preciso uma aldeia para se educar uma criança”².

*Assessora técnica da Ação Mulheres por Reparação das Dívidas Sociais, na Rede Jubileu Sul Brasil. Psicólogue Social e Comunicadore Popular. Integrante da Rede Feminista de Saúde e da Frente Mineira Legaliza.

¹Sororidade: União de mulheres que compartilham os mesmos ideais e propósitos, normalmente de teor feminista, sendo caracterizada pelo apoio mútuo evidenciado entre essas mulheres.
² Provérbio africano.

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Por Polly Policarpo I Especial para o Jubileu Sul Brasil*

A violência contra as mulheres é percebida no cotidiano de nossas cidades, nos campos e quilombos. É percebida nas vivências das mulheres jovens, idosas e das meninas e crianças. São violências rotineiras que se tornam parte das teias de socialização e muitas vezes são percebidas erroneamente como naturais e parte da construção que temos de sociedade. Nos relatos de nossas mães, de nossas avós e bisavós, nas conversas de bar e no olhar silencioso trocado entre mulheres nas ruas: sabemos que a violência está presente.

As violências se demonstram nas marcas do corpo, na mente, no olhar cansado e abatido e na forma de expressão e mais ainda na limitação dos sentimentos, das vontades e dos afetos. As violências são tipificadas na lei Maria da Penha, como violência física, violência psicológica, violência moral, violência sexual e violência patrimonial.

Ao mesmo tempo em que historicamente a violência perpassa o nosso cotidiano, também carregamos em nosso corpo memórias históricas de luta e de uma forte resistência. Mulheres são expostas a situações de violência, na mesma proporção em que se organizam para enfrentar os abusos e desigualdades ao redor. Mulheres organizadas na luta também cotidiana, que trocam aprendizados, que trocam sabedorias ancestrais que partilham da cura, através das ervas medicinais, da alimentação e do afeto. Mulheres que juntas se acolhem e assim fortalecem sua autonomia para romper com relações abusivas e com a exploração.

Polly Policarpo, da equipe técnica da Ação Mulheres por reparação das dívidas sociais. Foto: Isabela Alves

Nós mulheres somos diversas e nosso corpo quando floresce na força coletiva, expressa a vivência emancipatória de se reconhecer: mulher. Somos mulheres negras, indígenas e quilombolas, somos mulheres lésbicas, bissexuais, trans e travestis, somos pansexuais e questionamos a binariedade imposta aos nossos corpos, somos não-bináries. Somos corpos diversos, gordos, magros, corpos com deficiências e plasticidades múltiplas. Somos uma diversidade de corpos que lutam por dignidade e justiça social. Reconhecemos e transformamos nossas vivências através da nossa sororidade¹.

A luta por justiça social, é uma luta por moradia digna, por acesso a saúde, educação, cultura e segurança alimentar. Não à toa a luta tem como protagonistas as mulheres. Lutam por seus filhos, por suas famílias, por seus companheiros e companheiras, com um senso de comunidade. E enquanto lutamos aprendemos a nos reconhecer, aprendemos a nos amar, mesmo com nossas marcas e dores. Entendemos que não devemos aceitar os abusos e as limitações que nos impõem.

A luta por moradia tem como protagonismo as mulheres, que se organizam para lidar com a violenta ausência do estado e das políticas públicas. Mulheres que questionam: onde se encontra a saúde, educação e lazer de qualidade? Mulheres que questionam a ocupação desenfreada e degradante das cidades e dos campos. Mulheres que criam novos significados para a arquitetura e organização dos espaços, mulheres que constroem espaços coletivos e comunitários. Mulheres que ressignificam o ato de ocupar a cidade. Mulheres que exigem e lutam por moradia digna, com acesso à cidade e às políticas públicas, que lutam por transporte público, iluminação e por uma casa onde descansar.

Mulheres juntas constroem um feminismo que não aceita se deturpar, nem capturar pelo capitalismo, mulheres que constroem no cotidiano e na prática coletiva o que é o feminismo comunitário. Mulheres que se comunicam e partilham informações e instrumentos de resistência às violências. Mulheres que partilham o cuidado com suas famílias e que partilham de momentos de autocuidado e de cura, mulheres que partilham de sabedorias ancestrais, que partilham dicas de prevenção a gravidez e as infecções sexualmente transmissíveis, mulheres que partilham o alimento do próprio prato e que amamentam os filhos uma das outras, com a sabedoria de que “é preciso uma aldeia para se educar uma criança”².

*Assessora técnica da Ação Mulheres por Reparação das Dívidas Sociais, na Rede Jubileu Sul Brasil. Psicólogue Social e Comunicadore Popular. Integrante da Rede Feminista de Saúde e da Frente Mineira Legaliza.

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