Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Projetos de Lei da grilagem aprofundam racismo ambiental e dívidas sociais do Estado com os povos e comunidades tradicionais

  • 21 de maio de 2021
22 de abril de 2020. Dia em que se completaram 520 anos do que muitos ainda insistem em chamar de “descobrimento” do Brasil. Se o 22 de abril de 1500 foi perverso para os povos originários, o de 2020 não foi diferente. Naquela quarta-feira, ao redor de uma grande mesa, o presidente da República e seus ministros promoviam um show de horrores. Duas falas foram extremamente emblemáticas neste sentido: o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse “eu odeio Povos Indígenas”; e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, convocou os seus colegas a aproveitar as atenções públicas focadas na pandemia para “passar a boiada” na área ambiental.
Foto: Takumã Kuikuro/FotosPúblicas

Texto: Paulo Victor Melo | Especial para o JSB

22 de abril de 2020. Dia em que se completaram 520 anos do que muitos ainda insistem em chamar de “descobrimento” do Brasil. Se o 22 de abril de 1500 foi perverso para os povos originários, o de 2020 não foi diferente. Naquela quarta-feira, ao redor de uma grande mesa, o presidente da República e seus ministros promoviam um show de horrores. Duas falas foram extremamente emblemáticas neste sentido: o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse “eu odeio Povos Indígenas”; e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, convocou os seus colegas a aproveitar as atenções públicas focadas na pandemia para “passar a boiada” na área ambiental.

Um ano após aquela reunião ministerial, o cenário brasileiro demonstra que a boiada parece estar passando e tendo como principais alvos, justamente, os indígenas e outros Povos e Comunidades Tradicionais.

Algumas proposições legislativas recentes apontam nesta lamentável direção, a exemplo dos Projetos de Lei 510/2021 (Senado) e 2633/2020 (Câmara dos Deputados), que tentam mudar as atuais regras de regularização fundiária para legalizar e incentivar a grilagem em terras da União.

A partir destes projetos, conforme organizações da sociedade civil têm alertado, madeireiros e grileiros serão estimulados - visando ter a anistia de desmatamentos recentes e a possibilidade de recebimento dos  títulos de terra - a seguirem invadindo unidades de conservação, terras indígenas e desmatando mais áreas.

Um estudo do Instituto Socioambiental aponta para um crescimento exponencial da invasão de terras públicas e o consequente aumento do desmatamento entre 2018 e 2020, o que sinaliza para uma consolidação em caso de aprovação dos dois PL’s mencionados acima.

Apenas nas florestas públicas na Amazônia, conforme o estudo do ISA, houve um aumento de 98% no desmatamento, passando de 185 mil hectares para 367 mil hectares. Outro indicador de legitimação da grilagem caso os Projetos de Lei sejam aprovados é a já elevada taxa de cadastros irregulares em áreas protegidas. Somente em Unidades de Conservação de uso sustentável, como as Reservas Extrativistas, houve um aumento de 274% no registro de imóveis no Cadastro Ambiental Rural e um aumento de 243% no desmatamento.

Segundo publicação do ISA, esses números dimensionam “o chamado ‘efeito Bolsonaro’ sobre a política fundiária na Amazônia e a proteção das florestas, composto por uma mistura de desmonte da fiscalização ambiental, discursos contra a proteção dos povos da floresta e projetos de lei no Legislativo, que mesmo antes de aprovados animam os grileiros a agir sem medo de punição”.

Racismo ambiental

De acordo com Cris Faustino, do Instituto Terramar, iniciativas como os dois PL’s citados se sustentam e reforçam a perspectiva do racismo ambiental, visto que “estão vinculadas ao histórico de desconsideração dos direitos dos povos, de ganância e apropriação dos territórios, dos ecossistemas e da biodiversidade para o uso prioritário das empresas e dos projetos econômicos que, geralmente, são conduzidos, organizados e de pertencimento branco”.

Ao enfatizar que “esses processos se dão alijados da participação Povos e Comunidades Tradicionais afetados, são decididos a partir de pressupostos e ideias totalmente contrárias aos modos de vida, às cosmovisões, à forma como as comunidades ocupam o território”, Faustino chama a atenção para um conjunto de violências e privilégios que orientam a construção de legislações prejudiciais às populações que vivem nos territórios.

Num país caracterizado por profundas relações de desigualdade, cenário que se verifica também em nível de América Latina e Caribe, os Projetos de Lei de favorecimento da grilagem e o racismo ambiental se articulam com um conjunto de dívidas históricas do Estado brasileiro com os Povos e Comunidades Tradicionais.

Campanha por Justiça Socioecológica

Neste sentido, no entendimento da Rede Jubileu Sul/Américas, torna-se fundamental a reivindicação da justiça socioambiental como o reconhecimento de relações injustas e desiguais, de caráter histórico e, portanto, com a existência e a obrigação de compensação das dívidas históricas, sociais e ecológicas.

É esse entendimento da justiça socioambiental como perspectiva de garantia dos direitos coletivos dos povos - em conjunto com os direitos dos seres não humanos - que baseia, por exemplo, a Campanha por Justiça Socioecológica, lançada em março deste ano e que tem como objetivo “contribuir com a mobilização social nas dinâmicas territoriais, potencializar as narrativas de resistência e as propostas que estamos construindo numa perspectiva decolonial, despatriarcalizada e antirracista”, conforme dito por Martha Flores, secretária-geral da Red Jubileo Sur Américas.

À época do lançamento da iniciativa, Flores ressaltou que “a Campanha tem o sentido de apontar como estamos vivendo sob um conceito de ambiente numa perspectiva unicamente material, em que se contabilizam os recursos da natureza, e reforçar processos de luta e de resistência frente ao modelo extrativista e seus impactos no nosso corpo-território. É uma forma de seguir avançando na conjunção de todas as lutas, de todas as resistências, de todos os saberes que temos na América Latina e no Caribe e também em nível global”.

Últimas notícias

Jardim Pantanal dá início à construção de cartografia social em parceria com Jubileu Sul e MLB

A Rede Jubileu Sul Brasil (JSB), em parceria com o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) , realizou uma roda de conversa…
Ler mais...

Mulheres da Pequena África marcam casas contra despejo e denunciam PLC 93 em ação de rua no Rio

O grito de alerta ecoou no centro do Rio de Janeiro na última sexta-feira, 22 de maio. Mulheres da Pequena África foram às ruas para…
Ler mais...

Moradia na Vila Dique: conquista para 71 famílias, mas luta continua para que ninguém fique para trás

O último sábado (16) foi de emoções contraditórias na Vila Dique, comunidade da zona norte de Porto Alegre (RS) duramente afetada pelas enchentes de maio…
Ler mais...

Projetos de Lei da grilagem aprofundam racismo ambiental e dívidas sociais do Estado com os povos e comunidades tradicionais

  • 21 de maio de 2021
22 de abril de 2020. Dia em que se completaram 520 anos do que muitos ainda insistem em chamar de “descobrimento” do Brasil. Se o 22 de abril de 1500 foi perverso para os povos originários, o de 2020 não foi diferente. Naquela quarta-feira, ao redor de uma grande mesa, o presidente da República e seus ministros promoviam um show de horrores. Duas falas foram extremamente emblemáticas neste sentido: o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse “eu odeio Povos Indígenas”; e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, convocou os seus colegas a aproveitar as atenções públicas focadas na pandemia para “passar a boiada” na área ambiental.
Foto: Takumã Kuikuro/FotosPúblicas

Texto: Paulo Victor Melo | Especial para o JSB

22 de abril de 2020. Dia em que se completaram 520 anos do que muitos ainda insistem em chamar de “descobrimento” do Brasil. Se o 22 de abril de 1500 foi perverso para os povos originários, o de 2020 não foi diferente. Naquela quarta-feira, ao redor de uma grande mesa, o presidente da República e seus ministros promoviam um show de horrores. Duas falas foram extremamente emblemáticas neste sentido: o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse “eu odeio Povos Indígenas”; e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, convocou os seus colegas a aproveitar as atenções públicas focadas na pandemia para “passar a boiada” na área ambiental.

Um ano após aquela reunião ministerial, o cenário brasileiro demonstra que a boiada parece estar passando e tendo como principais alvos, justamente, os indígenas e outros Povos e Comunidades Tradicionais.

Algumas proposições legislativas recentes apontam nesta lamentável direção, a exemplo dos Projetos de Lei 510/2021 (Senado) e 2633/2020 (Câmara dos Deputados), que tentam mudar as atuais regras de regularização fundiária para legalizar e incentivar a grilagem em terras da União.

A partir destes projetos, conforme organizações da sociedade civil têm alertado, madeireiros e grileiros serão estimulados - visando ter a anistia de desmatamentos recentes e a possibilidade de recebimento dos  títulos de terra - a seguirem invadindo unidades de conservação, terras indígenas e desmatando mais áreas.

Um estudo do Instituto Socioambiental aponta para um crescimento exponencial da invasão de terras públicas e o consequente aumento do desmatamento entre 2018 e 2020, o que sinaliza para uma consolidação em caso de aprovação dos dois PL’s mencionados acima.

Apenas nas florestas públicas na Amazônia, conforme o estudo do ISA, houve um aumento de 98% no desmatamento, passando de 185 mil hectares para 367 mil hectares. Outro indicador de legitimação da grilagem caso os Projetos de Lei sejam aprovados é a já elevada taxa de cadastros irregulares em áreas protegidas. Somente em Unidades de Conservação de uso sustentável, como as Reservas Extrativistas, houve um aumento de 274% no registro de imóveis no Cadastro Ambiental Rural e um aumento de 243% no desmatamento.

Segundo publicação do ISA, esses números dimensionam “o chamado ‘efeito Bolsonaro’ sobre a política fundiária na Amazônia e a proteção das florestas, composto por uma mistura de desmonte da fiscalização ambiental, discursos contra a proteção dos povos da floresta e projetos de lei no Legislativo, que mesmo antes de aprovados animam os grileiros a agir sem medo de punição”.

Racismo ambiental

De acordo com Cris Faustino, do Instituto Terramar, iniciativas como os dois PL’s citados se sustentam e reforçam a perspectiva do racismo ambiental, visto que “estão vinculadas ao histórico de desconsideração dos direitos dos povos, de ganância e apropriação dos territórios, dos ecossistemas e da biodiversidade para o uso prioritário das empresas e dos projetos econômicos que, geralmente, são conduzidos, organizados e de pertencimento branco”.

Ao enfatizar que “esses processos se dão alijados da participação Povos e Comunidades Tradicionais afetados, são decididos a partir de pressupostos e ideias totalmente contrárias aos modos de vida, às cosmovisões, à forma como as comunidades ocupam o território”, Faustino chama a atenção para um conjunto de violências e privilégios que orientam a construção de legislações prejudiciais às populações que vivem nos territórios.

Num país caracterizado por profundas relações de desigualdade, cenário que se verifica também em nível de América Latina e Caribe, os Projetos de Lei de favorecimento da grilagem e o racismo ambiental se articulam com um conjunto de dívidas históricas do Estado brasileiro com os Povos e Comunidades Tradicionais.

Campanha por Justiça Socioecológica

Neste sentido, no entendimento da Rede Jubileu Sul/Américas, torna-se fundamental a reivindicação da justiça socioambiental como o reconhecimento de relações injustas e desiguais, de caráter histórico e, portanto, com a existência e a obrigação de compensação das dívidas históricas, sociais e ecológicas.

É esse entendimento da justiça socioambiental como perspectiva de garantia dos direitos coletivos dos povos - em conjunto com os direitos dos seres não humanos - que baseia, por exemplo, a Campanha por Justiça Socioecológica, lançada em março deste ano e que tem como objetivo “contribuir com a mobilização social nas dinâmicas territoriais, potencializar as narrativas de resistência e as propostas que estamos construindo numa perspectiva decolonial, despatriarcalizada e antirracista”, conforme dito por Martha Flores, secretária-geral da Red Jubileo Sur Américas.

À época do lançamento da iniciativa, Flores ressaltou que “a Campanha tem o sentido de apontar como estamos vivendo sob um conceito de ambiente numa perspectiva unicamente material, em que se contabilizam os recursos da natureza, e reforçar processos de luta e de resistência frente ao modelo extrativista e seus impactos no nosso corpo-território. É uma forma de seguir avançando na conjunção de todas as lutas, de todas as resistências, de todos os saberes que temos na América Latina e no Caribe e também em nível global”.

Últimas notícias

Jardim Pantanal dá início à construção de cartografia social em parceria com Jubileu Sul e MLB

A Rede Jubileu Sul Brasil (JSB), em parceria com o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) , realizou uma roda de conversa…
Ler mais...

Mulheres da Pequena África marcam casas contra despejo e denunciam PLC 93 em ação de rua no Rio

O grito de alerta ecoou no centro do Rio de Janeiro na última sexta-feira, 22 de maio. Mulheres da Pequena África foram às ruas para…
Ler mais...

Moradia na Vila Dique: conquista para 71 famílias, mas luta continua para que ninguém fique para trás

O último sábado (16) foi de emoções contraditórias na Vila Dique, comunidade da zona norte de Porto Alegre (RS) duramente afetada pelas enchentes de maio…
Ler mais...