Luta pelo direito à vida e renda marcam o Dia Internacional da Mulher

Sobrecarga de trabalhos domésticos e o aumento dos casos de feminicídio foram lembrados como fatores que aprofundaram as desigualdades no último ano

O último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, foi mais um dia de lutas em torno da caminhada delas em busca de igualdade em todos os setores da sociedade. Coletivos de todo o país se manifestaram, buscando discutir as principais formas de combater as injustiças de gênero, ainda mais aprofundadas com a crise causada pela pandemia de Covid-19.

Presente na cidade de São José dos Campos desde o final da década de 90, o Centro Dandara de Promotoras Populares esteve na Delegacia da Mulher (DDM) protocolando ofício para agendar uma conversa com a delegada. Entre as principais reivindicações da organização está a necessidade de manter a DDM funcionando por 24h.

Desde a criação da Lei Maria da Penha, em 2010, um dos principais recursos para romper o ciclo da violência antes que o pior aconteça é a medida protetiva, que pode ser solicitada no momento da denúncia. O funcionamento em períodos restritos, e até mesmo a falta de atendimento presencial durante a pandemia, tem se mostrado muito danoso às vítimas.

Marcela de Andrade, representante do Centro Dandara, falou sobre essa importância da data para fortalecer ainda mais as mulheres na busca pelo direito à vida:

“É mais um dia de luta para dar visibilidade à necessidade de políticas públicas específicas para as mulheres. Não podemos esmorecer, somos as vozes de muitas invisíveis, com o entendimento que todas estamos vulneráveis. Nem flores, nem dores. Respeito!”.

Ao todo existem apenas 400 delegacias especializadas no acolhimento de mulheres no Brasil, somente 374 municípios contam com ao menos uma delas, ou seja, apenas 7% das cidades brasileiras. Somente 15% delas funcionam por 24h, restringindo ainda mais o auxílio à mulher vítima de violência, já que 40% dos casos de feminicídio acontecem à noite, apontam dados levantados pela Revista AzMina.

Entre as vítimas de violência, as mulheres de regiões periféricas do capitalismo e com renda mais baixa são as mais vulneráveis, como explicou Marcela.

“A falta de transversalidade das políticas públicas acarreta maior exposição e agravamento das vulnerabilidades locais, que se intensificam à medida que a pandemia avança. A situação socioeconômica das mulheres é diretamente afetada nesse agravamento da crise epidemiológica, levando à necessidade de atuação ainda mais permanente visto que os casos de violência doméstica e os casos de feminicídios estão cada vez mais acentuados”, afirma.

A Pastoral Operária também se reuniu para celebrar e também refletir sobre os direitos das mulheres aqui no Brasil. Com o tema “8 de março – mulheres trabalhadoras: lutemos por direitos e nossa dignidade!”, a semana do Dia Internacional da Mulher foi aberta com uma transmissão ao vivo no dia 7 de Março. O objetivo era celebrar as conquistas, homenagear todas as mulheres que estão lutando por seus direitos.

No dia 09 de março foi realizada outra reunião online, dessa vez tendo como tema os efeitos do sistema capitalista sobre a vida das mulheres. Mediada por Mônica Fidélis da Pastoral Operária Nacional, o debate contou com as convidadas Sandra Quintela, economista e articuladora da Rede Jubileu Sul, e também Clarice Del Medico, militante da Pastoral Operária, professora e também sindicalista.

Os principais assuntos para a discussão foram levantados Mônica. “Queremos dialogar sobre as questões de gênero e as desigualdades produzidas entre homens e mulheres, especialmente as produzidas e reproduzidas pela sociedade capitalista. Uma série de fatores, que dificultam e se materializam em diversos níveis, no mundo do trabalho. A divisão interna do trabalho doméstico. Possibilidades de emprego, diferença na remuneração salarial entre mulheres e homens, inserção entre trabalhos informais e precarização entre outros desafios e dificuldades que as mulheres passam no mercado de trabalho nesse sistema capitalista”, disse.

Sandra Quintela, concluiu uma análise sobre a estrutura capitalista, que exclui tudo aquilo que é diferente do homem branco capitalista. “O capitalismo está alicerçado no patriarcado. O patriarcado é anterior ao capitalismo, e ele desenha uma sociedade onde não há lugar para as mulheres, onde não há voz para as mulheres, onde não há visão do mundo com as mulheres. Então o que a gente vê é que o capitalismo é um sistema cruel com os trabalhadores e trabalhadoras, mas em particular com as mulheres, porque invisibiliza sistematicamente o trabalho das mulheres. E essa forma de existir no mundo é incompatível com o sistema que uniformiza todos esses corpos todos no corpo masculino”. 

A falta de políticas públicas específicas para mulheres tem dificultado o acesso a emprego e renda em toda a América Latina. Segundo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) a pandemia trouxe um retrocesso de 10 anos na participação das mulheres no mercado de trabalho na América Latina.

Além do aumento do desemprego, o relatório aponta que o trabalho com as tarefas domésticas triplicou para as mulheres em relação aos homens. O que mostra uma sobrecarga, já que elas ainda representam uma maioria absoluta de 73% dos trabalhadores na linha de frente do combate à pandemia.

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