Justiça socioecológica deve ser antipatriarcal, antirracista e anticapitalista

Evento online marcou lançamento da Campanha sobre Justiça Socioecológica, da Rede Jubileu Sul/Américas

Vozes de diversos territórios tradicionais. Sons que remetem à ancestralidade cultural dos povos originários. Poesias que inspiram a luta por direitos. Cores que expressam a diversidade das trajetórias de organizações populares da América Latina e do Caribe. Foi com todos esses símbolos, e com uma metodologia que proporcionou uma espécie de diálogos mediados pela tecnologia, que a Rede Jubileu Sul/Américas lançou, nesta segunda (22/03), a Campanha por Justiça Socioecológica (confira o vídeo).

Com a destreza de uma tecelã, que junta diferentes fios em um único corpo harmônico, a equatoriana Ivonne Yanez, da Acción Ecológica, bordando o conjunto das intervenções, ressaltou que a pandemia de Covid-19 demonstra, por si própria, a necessidade da campanha.

“A pandemia é um fato ecológico, não é somente de saúde pública, já que, como sabemos, todas as enfermidades virais recentes estão relacionadas à expansão da urbanização selvagem, do monocultivo e da devastação ambiental para mineração, petróleo e outras atividades destrutivas”, disse.

Ivonne lembrou ainda que a campanha é lançada publicamente no Dia Mundial da Água, um dos pilares fundamentais do debate sobre justiça socioecológica. Vale mencionar, como exemplo, que enquanto 2 bilhões de pessoas vivem com escassez de água, quatro corporações empresariais (Nestlé, Danone, Coca-Cola e Pepsi-Cola) concentram mais de 50% da indústria de água em todo o mundo.

Denunciar esse modelo que se sustenta na exploração da água e todo o ecossistema e, ao mesmo tempo, anunciar um outro modelo possível e necessário, são objetivos essenciais da campanha, conforme afirmou Martha Flores, da Nicarágua,

“A campanha tem o sentido de apontar como estamos vivendo sob um conceito de ambiente numa perspectiva unicamente material, em que se contabilizam os recursos da natureza, e reforçar processos de luta e de resistência frente ao modelo extrativista e seus impactos no nosso corpo-território. É uma forma de seguir avançando na conjunção de todas as lutas, de todas as resistências, de todos os saberes que temos na América Latina e no Caribe e também em nível global”, enfatizou Flores.

Secretária Geral da Rede Jubileu Sul/Américas, Martha Flores destacou também que a campanha busca “contribuir com a mobilização social nas dinâmicas territoriais, potencializar as narrativas de resistência e as propostas que estamos construindo numa perspectiva decolonial, despatriarcalizada e antirracista”.

Diálogos

No primeiro bloco de diálogos da atividade, Camille Chalmers e Aurora Donoso compartilharam as experiências das suas organizações – e a contribuição do Jubileu Sul/Américas– nas mobilizações internacionais em relação ao tema da dívida pública

Integrante da Plataforma para un Desarrollo Alternativo, Camille manifestou que o seu país, Haiti, “é emblemático não apenas no genocídio indígena promovido pelo colonialismo, mas na brutalidade da dívida como instrumento de dominação”.

Camille faz ainda o alerta de que “não se deve reduzir a luta contra a dívida à dimensão financeira. Essa é uma dimensão importante, porém não é a única”. Para ele, é preciso “colocar luz sobre todo o conjunto de intercâmbios entre Norte e Sul que tem promovido empobrecimento, genocídio, devastação ambiental e destruição de civilizações”.

Com a pandemia, segundo Camille, “as forças imperialistas se aproveitaram da Covid para agravar a situação, reforçar a dominação e colocar os povos em uma situação cada vez mais dolorosa. Por isso, mais do que nunca, a anulação imediata da dívida é fundamental”.

Já a equatoriana Aurora Donoso, da Acción Ecológica, elencou uma série de iniciativas que evidenciam a perspectiva radical da Rede ao pautar a questão da dívida histórica, ecológica e social, em que os povos tradicionais são credores e não devedores. “Mobilizações, ações internacionais, tribunais sobre a dívida, assembleia de credores, reuniões para propostas alternativas, debate sobre soberania financeira. Ao longo do tempo, o Jubileu contribuiu para criar uma maior consciência sobre os impactos da dívida nos povos, nos territórios e na natureza, causada por um modelo de desenvolvimento extrativista, agroindustrial, de megaempreendimentos, capitalista, patriarcal e racista”, citou.

Nahun Lalin e Joilson Costa protagonizaram o segundo bloco de diálogos. Membro da Organización Fraternal Negra Hondureña (OFRANEH), Nahun foi veemente: “falar de justiça socioecológica é dizer que devemos todos ter acesso e direitos e lutar contra os que exploram a natureza e nos criminalizam, nos sequestram e nos assassinam”.

Coordenador da Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil, Joilson José Costa salientou que afirmar a justiça socioecológica enquanto princípio de luta coletiva é “se opor a todas as falsas soluções para a problemática socioambiental e se colocar na defesa dos direitos das populações locais”. Como experiência plural neste sentido, Joilson mencionou a Articulação pelos Direitos da Mãe Natureza, criada em 22 de abril do ano passado.

No terceiro e último bloco de diálogo, dois representantes de juventudes que estão em permanente mobilização por direitos: Carlos Otzoy e Jesse Mas.

Da Asociación Nacional de Pobladores de Áreas Marginales, Carlos assinalou como um dos desafios principais “fazer escutar a voz dos jovens que são criminalizados e reprimidos nas lutas pela defesa dos nossos territórios”.

Jesse, da Marcha Mundial de Mulheres Macronorte Peru, exprimiu que, para garantir justiça socioecológica é preciso “mudar o paradigma de vida patriarcal, colonialista, capitalista, racista e fundamentalista que tem condenado a Pachamama e as mulheres à violência e ao sofrimento”.

Depoimentos

As rodas de diálogos foram entrelaçadas e conectadas com depoimentos enviados por integrantes de movimentos sociais e organizações populares de diversos países da América Latina e do Caribe.

Como retalhos coloridos que se encontram numa colcha, as perspectivas apresentadas sobre justiça socioecológica convergem tanto na crítica ao modelo capitalista de exploração socioambiental quanto na necessária produção coletiva de outros modos de vida e relação com a natureza. Abaixo, trechos dos depoimentos em que se buscou caracterizar a Justiça Socioecológica.

“Tem a ver com a construção de viver em um ambiente saudável, com condições de equidade e democracia social. É responsabilidade dos estados protege-la, promove-la, respeitá-la e garanti-la, de modo que se assegure a sustentabilidade e o cuidado com o meio ambiente” – Eduardo Caballero, AUGE, México.

“É a expressão da garantia de relações sociais de produção que sustentem a dignidade, soberania e integralidade da vida humana e de outras formas de existência na natureza”, Jesús Figueredo, Centro Martin Luther King, Cuba.

“Requer uma transformação das culturas políticas implica realmente recuperarmos o futuro e fazer de novo a vida possível para todos e todas” – Andrea Echeverri, Censat Água Viva, Colômbia

“Diz respeito às relações sociais que estabelecemos com os territórios que habitamos, em que também deve haver justiça, equilíbrio e relações justas e cuidadosas que valorizem o território e a natureza” – Mariana Praça, Instituto PACS, Brasil.

“É a luta constante e permanente que temos os povos do Sul Global para defender os direitos da natureza. É reclamar que merecemos outras relações com a natureza” – Yader Villanueva, INTIPACHAMAMA, Nicarágua.

“É um ponto importante no sentido do acesso à água, à saúde, ao saneamento ambiental, às sementes, a ter ares limpos. É lutar para demonstrar os direitos que a natureza tem” – Zulma Larín, RACDES, El Salvador.

Assista ao spot da campanha em português:

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