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Adeus, meninos do Rio

  • 11 de fevereiro de 2019

Dez garotos vítimas de incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo retratam a negligência com que as categorias de base são tratadas mesmo em clubes ricos do futebol nacional
Por Ponte 

Incêndio vitimou garotos entre 14 e 17 anos que atuavam nos times juvenis do Rubro Negro | Foto: Reprodução/Redes sociais


 

Eles vinham de lugares como Lagarto, em Sergipe, Além Paraíba, em Minas Gerais, Indaial, em Santa Catarina. Quase todos negros. Das falas que deixaram nas memórias dos parentes e das redes sociais, a palavra que mais se repete é sonho. Treinando na categoria de base de um dos maiores clubes do Brasil, os meninos do Ninho do Urubu sentiam que estavam prestes a realizar seus sonhos. Sonhos de poder comprar uma casa para a família, de conhecer o mundo, de serem reconhecidos, respeitados e tratados como gente por todos à sua volta. Sonhos de realização e ascensão social que, no Brasil, são reservados a alguns poucos meninos pobres pretos, os que conseguem passar nas imensas peneiras de furos minúsculos que povoam os mundos do esporte e da música.
Os dez meninos do Ninho do Urubu haviam tirado a sorte grande. Tinham passado por várias dessas peneiras e agora estavam "contrariando as estatísticas" — uma expressão de sabor sociológico que o hip hop abraçou nos anos 90, para falar dos jovens negros que conseguiam escapar da prisão ou da morte nas mãos do Estado. Que importava se o clube milionário onde treinavam havia preferido acomodá-los em um monte de contêineres? Eles estavam felizes apenas por estarem ali, vivendo o sonho. E viveram o sonho até o fim. Um fim que chegou cedo demais, na forma de um incêndio que consumiu o alojamento onde viviam, na madrugada de sexta-feira (8/2).
A 45 quilômetros do Ninho do Urubu, no Morro do Fallet, em Santa Teresa, havia um outro grupo de jovens. Como os meninos do Flamengo, os do Morro do Fallet também eram quase todos negros. Também viviam em acomodações precárias: uma das favelas que servem de casa a um quinto da população fluminense — a miséria que mora ao lado da opulência de uma das cidades mais ricas do Brasil, do mesmo jeito que a precariedade das categorias de base do futebol brasileiro convive com as contratações milionárias de seus craques. Ao contrário dos meninos do Flamengo, contudo, os jovens pretos de Santa Tereza não haviam tirado a sorte grande nem passado pelas peneiras da vida. Estavam dentro das estatísticas, vivendo a dura realidade da pobreza, que, no Brasil, tem cor e é preta. Alguns deles estavam no crime. No mesmo dia em que um incêndio matou os 10 meninos do Flamengo, pelo menos 13 dos jovens da favela foram mortos pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. O Estado afirma que houve confronto; os moradores, que ocorreu uma chacina. Já se sabe que a PM mentiu ao dizer encontrou os corpos dos jovens "em vias da comunidade": fotos tiradas por moradores mostram que pelo menos três desses meninos do Rio foram mortos dentro de uma casa.
Uns pelas balas, outros pelo fogo, os 13 jovens do Morro do Fallet e os 10 do Ninho do Urubu parecem ter sido vítimas da mesma causa mortis: a crença, nunca mencionada em voz alta, mas consumada a todo momento, de que meninos pretos não são assim tão gente.
Só essa crença, de que vidas negras no fundo não importam tanto, pode explicar como é possível exterminar 13 desses jovens com tanta facilidade, sob aplausos de alguns ou a indiferença de tantos. Eram meninos pretos, meninos pobres. Queriam o quê? Tratamento justo? Direito à defesa? Devido processo legal? Isso nunca foi para eles.
E só essa crença explica o que pode ter levado um clube milionário como o Flamengo a amontoar os jovens da sua categoria de base num alojamento clandestino, registrado na prefeitura como estacionamento, pelo qual o time já havia sido multado 30 vezes e que lembrava uma senzala. Eram meninos pretos, meninos pobres. Queriam o quê? Deviam se dar por felizes apenas por estar ali, vivendo uma vida de branco. Por que precisariam de algo melhor do que um monte de contêineres para dormir?
Tão diferentes e tão parecidos: meninos do Morro do Fallet e do Flamengo, uns que viviam um sonho, outros que tentavam acordar de um pesadelo. No final, são todos meninos negros do Rio — e do Brasil — que morreram antes do tempo, confirmando tristemente as estatísticas.

 

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Eles vinham de lugares como Lagarto, em Sergipe, Além Paraíba, em Minas Gerais, Indaial, em Santa Catarina. Quase todos negros. Das falas que deixaram nas memórias dos parentes e das redes sociais, a palavra que mais se repete é sonho. Treinando na categoria de base de um dos maiores clubes do Brasil, os meninos do Ninho do Urubu sentiam que estavam prestes a realizar seus sonhos. Sonhos de poder comprar uma casa para a família, de conhecer o mundo, de serem reconhecidos, respeitados e tratados como gente por todos à sua volta. Sonhos de realização e ascensão social que, no Brasil, são reservados a alguns poucos meninos pobres pretos, os que conseguem passar nas imensas peneiras de furos minúsculos que povoam os mundos do esporte e da música.
Os dez meninos do Ninho do Urubu haviam tirado a sorte grande. Tinham passado por várias dessas peneiras e agora estavam "contrariando as estatísticas" — uma expressão de sabor sociológico que o hip hop abraçou nos anos 90, para falar dos jovens negros que conseguiam escapar da prisão ou da morte nas mãos do Estado. Que importava se o clube milionário onde treinavam havia preferido acomodá-los em um monte de contêineres? Eles estavam felizes apenas por estarem ali, vivendo o sonho. E viveram o sonho até o fim. Um fim que chegou cedo demais, na forma de um incêndio que consumiu o alojamento onde viviam, na madrugada de sexta-feira (8/2).
A 45 quilômetros do Ninho do Urubu, no Morro do Fallet, em Santa Teresa, havia um outro grupo de jovens. Como os meninos do Flamengo, os do Morro do Fallet também eram quase todos negros. Também viviam em acomodações precárias: uma das favelas que servem de casa a um quinto da população fluminense — a miséria que mora ao lado da opulência de uma das cidades mais ricas do Brasil, do mesmo jeito que a precariedade das categorias de base do futebol brasileiro convive com as contratações milionárias de seus craques. Ao contrário dos meninos do Flamengo, contudo, os jovens pretos de Santa Tereza não haviam tirado a sorte grande nem passado pelas peneiras da vida. Estavam dentro das estatísticas, vivendo a dura realidade da pobreza, que, no Brasil, tem cor e é preta. Alguns deles estavam no crime. No mesmo dia em que um incêndio matou os 10 meninos do Flamengo, pelo menos 13 dos jovens da favela foram mortos pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. O Estado afirma que houve confronto; os moradores, que ocorreu uma chacina. Já se sabe que a PM mentiu ao dizer encontrou os corpos dos jovens "em vias da comunidade": fotos tiradas por moradores mostram que pelo menos três desses meninos do Rio foram mortos dentro de uma casa.
Uns pelas balas, outros pelo fogo, os 13 jovens do Morro do Fallet e os 10 do Ninho do Urubu parecem ter sido vítimas da mesma causa mortis: a crença, nunca mencionada em voz alta, mas consumada a todo momento, de que meninos pretos não são assim tão gente.
Só essa crença, de que vidas negras no fundo não importam tanto, pode explicar como é possível exterminar 13 desses jovens com tanta facilidade, sob aplausos de alguns ou a indiferença de tantos. Eram meninos pretos, meninos pobres. Queriam o quê? Tratamento justo? Direito à defesa? Devido processo legal? Isso nunca foi para eles.
E só essa crença explica o que pode ter levado um clube milionário como o Flamengo a amontoar os jovens da sua categoria de base num alojamento clandestino, registrado na prefeitura como estacionamento, pelo qual o time já havia sido multado 30 vezes e que lembrava uma senzala. Eram meninos pretos, meninos pobres. Queriam o quê? Deviam se dar por felizes apenas por estar ali, vivendo uma vida de branco. Por que precisariam de algo melhor do que um monte de contêineres para dormir?
Tão diferentes e tão parecidos: meninos do Morro do Fallet e do Flamengo, uns que viviam um sonho, outros que tentavam acordar de um pesadelo. No final, são todos meninos negros do Rio — e do Brasil — que morreram antes do tempo, confirmando tristemente as estatísticas.

 

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