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Rede Jubileu Sul lança publicação e propõe reflexão ampla e crítica sobre religião e política

  • 29 de setembro de 2021

 

Lançamento do caderno de estudo “Religião e Política: vamos falar sobre isso?” reuniu a teóloga feminista, Nancy Cardoso, a Ìyá Sandrali de Òsún e o pastor Henrique Vieira para o debate sobre o tema.

 

 

Por Marcos Vinicius dos Santos*

“Como falar em um Estado verdadeiramente laico quando o atual Governo Federal tem como slogan ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos?’, como falar em um Estado verdadeiramente laico quando o presidente declara que indicará para a Suprema Corte do país alguém terrivelmente evangélico? Como falar em Estado verdadeiramente laico quando a bancada católica autodeclarada da Câmara dos Deputados é de 53,1% e a evangélica representa 21,2%, números que são maiores que os ínfimos 15,35% de mulheres na Câmera”, afirmou Sandra Quintela, articuladora do Jubileu Sul Brasil, ao abrir a roda de partilha sobre o tema.

O lançamento do caderno “Religião e Política: vamos falar sobre isso?” aconteceu na segunda-feira (27) em transmissão ao vivo para os canais no Youtube e Facebook da Rede Jubileu Sul e de organizações parceiras. Participaram da conversa a teóloga feminista Nancy Cardoso, a autoridade civilizatória da tradição de matriz africana e afrodiaspórica do Batuque do Rio Grande do Sul, Ìyá Sandrali de Òsún e o teólogo, professor, ator, escritor e poeta, Henrique Vieira.

 

 

Com frequência o debate sobre as interações entre religião e política é deixado de lado, no entanto, o tema está cada vez mais presente, tornando-se impossível ignorá-lo à medida que o fundamentalismo religioso avança e interfere nas decisões políticas e econômicas no país e impõe-se sobre outras visões de mundo, incentivando a intolerância, o machismo, o racismo, a misoginia e a violência de todo tipo contra mulheres e LGBTQIA+.

O cenário descrito por Quintela na abertura do debate é um retrato da realidade brasileira e deixa evidente que é muito difícil qualquer discussão política que exclua a religião de suas ponderações, como explicou Nancy Cardoso em sua contribuição. Teóloga e feminista, Nancy é responsável pelo texto final do caderno “Religião e Política: vamos falar sobre isso?” e apresentou a proposta da publicação como uma contribuição ampla e crítica sobre o tema.

“É importante a gente entender por que o fenômeno religioso e as religiosidades hoje estão em disputa, em um quadro bastante complicado de luta de classes no Brasil, no qual a ascensão de uma direita e de um ‘cristofascismo’ está entre nós. A gente teve esse cuidado de pensar a religião como graça e gravidade, sendo capaz de apontar o capitalismo como um parasita no cristianismo, para tentar entender esse projeto de poder se que se expressa nesse ‘cristofascismo’. E depois a gente termina com nosso compromisso com os corpos, a terra e os modos de crença dos povos da Terra”, explicou Nancy Cardoso.

Política e Religião não se discutem?

A pergunta fundamentou uma das provocações aos participantes durante o lançamento. Para a Ìyá Sandrali de Òsún é interessante notar que essa afirmação é utilizada como forma de afastar e negar a possibilidade de pluralidade do debate político, mantendo assim o domínio das decisões políticas nas mãos de homens brancos.

“Precisamos discutir política e religião, pois cada vez mais, nós observamos uma necessidade de se dar um giro, uma reviravolta. Durante o último processo eleitoral nós fomos capazes de verificar, mais uma vez, a grande necessidade de construir figuras públicas femininas e negras que sejam porta vozes das nossas demandas e que sejam terrivelmente defensoras da laicidade do Estado. Contudo, essa construção é árdua. Temos um país que é marcado por todos os tipos de conservadorismo, de resistência ao avanço das mulheres, dos negros, das negras e da falta de respeito aos povos originários. Daí a importância de discutirmos política religião em todas as atividades, como um mecanismo civilizatório de reafirmação da laicidade do Estado, no fortalecimento do combate aos discursos e práticas sexistas, racistas e homofóbicas”, respondeu Ìyá Sandrali de Òsún.

 

Para Sandrali  a representatividade política atual não será responsável pelas mudanças radicais que o Brasil e o povo brasileiro precisam, pois estão confortavelmente instalados no sistema excludente ao qual pertencem. A ialorixá também destacou que a fundação da sociedade brasileira foi pautada no binômio racismo e machismo.

Em concordância com Sandrali, o pastor Henrique Vieira lembrou que a individualização da religião, sem repercussão pública, é uma prática inserida pelos iluministas e, portanto, serve ao propósito de uma lógica colonizadora.

 “Na prática da vida, religião e política são expressões humanas e necessariamente se relacionam. O problema é quando a religião se torna um projeto de poder, o problema é quando a religião é capturada e sequestrada pelos fundamentalismos, produzindo extremismos. Tornando-se um instrumento de apropriação do Estado, para impor ao conjunto da sociedade uma determinada forma de ser, de crer e se comportar. Sim, é importante debater religião e política, porque o fundamentalismo religioso se apropria dos instrumentos do Estado e assim fere a laicidade e, necessariamente, ajuda a promover ambientes de violência”, afirmou o pastor.

A versão digital do caderno está disponível na biblioteca da Rede Jubileu Sul para livre acesso. As iniciativas da Rede Jubileu Sul, a partir do caderno “Religião e Política: vamos falar sobre isso?” integram as ações de Fortalecimento da Rede e contam com o apoio da União Europeia, além da da Cafod e da DKA.

 

*Com supervisão de Jucelene Rocha

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Lançamento do caderno de estudo “Religião e Política: vamos falar sobre isso?” reuniu a teóloga feminista, Nancy Cardoso, a Ìyá Sandrali de Òsún e o pastor Henrique Vieira para o debate sobre o tema.

 

 

Por Marcos Vinicius dos Santos*

“Como falar em um Estado verdadeiramente laico quando o atual Governo Federal tem como slogan ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos?’, como falar em um Estado verdadeiramente laico quando o presidente declara que indicará para a Suprema Corte do país alguém terrivelmente evangélico? Como falar em Estado verdadeiramente laico quando a bancada católica autodeclarada da Câmara dos Deputados é de 53,1% e a evangélica representa 21,2%, números que são maiores que os ínfimos 15,35% de mulheres na Câmera”, afirmou Sandra Quintela, articuladora do Jubileu Sul Brasil, ao abrir a roda de partilha sobre o tema.

O lançamento do caderno “Religião e Política: vamos falar sobre isso?” aconteceu na segunda-feira (27) em transmissão ao vivo para os canais no Youtube e Facebook da Rede Jubileu Sul e de organizações parceiras. Participaram da conversa a teóloga feminista Nancy Cardoso, a autoridade civilizatória da tradição de matriz africana e afrodiaspórica do Batuque do Rio Grande do Sul, Ìyá Sandrali de Òsún e o teólogo, professor, ator, escritor e poeta, Henrique Vieira.

 

 

Com frequência o debate sobre as interações entre religião e política é deixado de lado, no entanto, o tema está cada vez mais presente, tornando-se impossível ignorá-lo à medida que o fundamentalismo religioso avança e interfere nas decisões políticas e econômicas no país e impõe-se sobre outras visões de mundo, incentivando a intolerância, o machismo, o racismo, a misoginia e a violência de todo tipo contra mulheres e LGBTQIA+.

O cenário descrito por Quintela na abertura do debate é um retrato da realidade brasileira e deixa evidente que é muito difícil qualquer discussão política que exclua a religião de suas ponderações, como explicou Nancy Cardoso em sua contribuição. Teóloga e feminista, Nancy é responsável pelo texto final do caderno “Religião e Política: vamos falar sobre isso?” e apresentou a proposta da publicação como uma contribuição ampla e crítica sobre o tema.

“É importante a gente entender por que o fenômeno religioso e as religiosidades hoje estão em disputa, em um quadro bastante complicado de luta de classes no Brasil, no qual a ascensão de uma direita e de um ‘cristofascismo’ está entre nós. A gente teve esse cuidado de pensar a religião como graça e gravidade, sendo capaz de apontar o capitalismo como um parasita no cristianismo, para tentar entender esse projeto de poder se que se expressa nesse ‘cristofascismo’. E depois a gente termina com nosso compromisso com os corpos, a terra e os modos de crença dos povos da Terra”, explicou Nancy Cardoso.

Política e Religião não se discutem?

A pergunta fundamentou uma das provocações aos participantes durante o lançamento. Para a Ìyá Sandrali de Òsún é interessante notar que essa afirmação é utilizada como forma de afastar e negar a possibilidade de pluralidade do debate político, mantendo assim o domínio das decisões políticas nas mãos de homens brancos.

“Precisamos discutir política e religião, pois cada vez mais, nós observamos uma necessidade de se dar um giro, uma reviravolta. Durante o último processo eleitoral nós fomos capazes de verificar, mais uma vez, a grande necessidade de construir figuras públicas femininas e negras que sejam porta vozes das nossas demandas e que sejam terrivelmente defensoras da laicidade do Estado. Contudo, essa construção é árdua. Temos um país que é marcado por todos os tipos de conservadorismo, de resistência ao avanço das mulheres, dos negros, das negras e da falta de respeito aos povos originários. Daí a importância de discutirmos política religião em todas as atividades, como um mecanismo civilizatório de reafirmação da laicidade do Estado, no fortalecimento do combate aos discursos e práticas sexistas, racistas e homofóbicas”, respondeu Ìyá Sandrali de Òsún.

 

Para Sandrali  a representatividade política atual não será responsável pelas mudanças radicais que o Brasil e o povo brasileiro precisam, pois estão confortavelmente instalados no sistema excludente ao qual pertencem. A ialorixá também destacou que a fundação da sociedade brasileira foi pautada no binômio racismo e machismo.

Em concordância com Sandrali, o pastor Henrique Vieira lembrou que a individualização da religião, sem repercussão pública, é uma prática inserida pelos iluministas e, portanto, serve ao propósito de uma lógica colonizadora.

 “Na prática da vida, religião e política são expressões humanas e necessariamente se relacionam. O problema é quando a religião se torna um projeto de poder, o problema é quando a religião é capturada e sequestrada pelos fundamentalismos, produzindo extremismos. Tornando-se um instrumento de apropriação do Estado, para impor ao conjunto da sociedade uma determinada forma de ser, de crer e se comportar. Sim, é importante debater religião e política, porque o fundamentalismo religioso se apropria dos instrumentos do Estado e assim fere a laicidade e, necessariamente, ajuda a promover ambientes de violência”, afirmou o pastor.

A versão digital do caderno está disponível na biblioteca da Rede Jubileu Sul para livre acesso. As iniciativas da Rede Jubileu Sul, a partir do caderno “Religião e Política: vamos falar sobre isso?” integram as ações de Fortalecimento da Rede e contam com o apoio da União Europeia, além da da Cafod e da DKA.

 

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