Entre os dias 6 e 8 de agosto, a Rede Jubileu Sul Brasil realizou o encontro “Mulheres em Ação: reflexões e práticas nos territórios", em Xerém, Duque de Caxias (RJ). A atividade reuniu dezenas de mulheres de diferentes regiões do país para um espaço de formação, troca de experiências e fortalecimento da organização feminina nos territórios.
O encontro teve como eixo central a defesa das reparações – sociais, históricas e financeiras – e o protagonismo das mulheres na construção de alternativas ao sistema do capital. Ao longo de três dias, as participantes debateram conjuntura, mundo do trabalho, violência contra a mulher, educação popular e práticas de autocuidado.
Mística de abertura: a luta também é feita de acolhimento
O primeiro dia do encontro, coordenado por Gorete Gama, articuladora do Jubileu Sul no Rio de Janeiro, começou com uma mística de abertura conduzida por Beatriz e Sergina, que acolheu as participantes com abraços, apresentações e a certeza de que a luta também é feita de acolhimento, de autocuidado e de cuidado coletivo.
Em seguida, representantes de cada região do país trouxeram a realidade de seus territórios, os desafios e embates por direitos, como a moradia e o direito à cidade, e os enfrentamentos como a violência contra as mulheres. A partir do diálogo coletivo, a análise prosseguiu com a economista e educadora popular Sandra Quintela, que conectou os cenários locais à conjuntura nacional e internacional.
Sandra costurou as ligações entre a conjuntura dos territórios e o cenário internacional, destacando o tecnofeudalismo, a ascensão da extrema direita e a crise climática como expressões da crise do sistema capitalista. A privatização da água, a financeirização da natureza e a dificuldade de acesso à moradia para mulheres negras também foram temas centrais.
“A análise de conjuntura é uma prática antiga dos movimentos sociais. Estamos aqui dando continuidade a essa história. Não precisa de um grande especialista: é ler a realidade, do território para o global”, afirmou Sandra.

Evento promovido pela Rede Jubileu Sul Brasil reuniu mulheres de diferentes regiões do país para trocar experiências, fortalecer a organização coletiva e reafirmar o protagonismo feminino na luta por reparações e justiça social. Fotos: Flaviana Serafim
Segundo dia: sementes de açaí, incenso de breu branco e o debate sobre o mundo do trabalho
O segundo dia do encontro, coordenado por Thaís Matos, começou com uma mística conduzida por Sol Fontinele, indígena kokama e moradora da Comunidade Nova Vida, em Manaus (AM). Sementes de açaí, incenso de breu branco, terra, água e ar deram o tom da abertura.
As participantes receberam a semente de uma das árvores mais simbólicas da Amazônia, compartilharam a defumação de breu branco e, ao final, jogaram as sementes na terra, que foram regadas – um gesto de esperança e conexão com a natureza.
Em seguida, a manhã foi dedicada à roda de conversa “Mulheres e mundo do trabalho” , conduzida por Carolina de Mendonça Rodrigues Silva, da assessoria nacional de projetos da Rede Jubileu Sul Brasil. O fio condutor do diálogo foi a pergunta: “Quando foi a última vez que alguém cuidou de você? Quem foi essa pessoa?” – e as respostas revelaram que, na maioria das vezes, o cuidado vem de outras mulheres, mas raramente chega a elas mesmas.
A invisibilidade do trabalho de cuidado foi um dos centros da discussão. As participantes refletiram sobre o trabalho reprodutivo – o cuidado com a casa, com as crianças, com os idosos – que é majoritariamente realizado por mulheres, não é remunerado e é fundamental para a manutenção do capital.
A provocação “O que aconteceria se todas as mulheres cruzassem os braços por um dia?” gerou um debate sobre a sobrecarga feminina e sua relação com o aumento da violência.
Em grupos, as mulheres discutiram questões como: “Quem cuida das crianças e dos idosos na nossa comunidade? Quem cuida de quem cuida? Como seria uma comunidade onde o cuidado fosse responsabilidade de todos e do Estado?” As apresentações revelaram a potência da organização coletiva e a necessidade de políticas públicas que valorizem o cuidado.
A roda foi finalizada com a exibição do vídeo “Mulheres e o mundo do trabalho” , lançado há 20 anos pelo Instituto PACS, seguido de um bate-papo com Sandra Quintela. O vídeo segue atual ao refletir sobre a desigualdade entre mulheres e homens no universo do trabalho e na vida cotidiana.
Violência contra as mulheres e a luta por moradia
Ainda no segundo dia, à tarde, a advogada Taiana Sobrinho conduziu a roda de conversa “Violência contra as mulheres” . A pergunta inicial – “O que é violência contra a mulher?” – mobilizou relatos sobre violência física, psicológica, sobrecarga de trabalho e até mesmo o episódio do “7 a 1” como símbolo de uma violência simbólica.
As mulheres compartilharam histórias de violência vividas em seus territórios, e Taiana estabeleceu a relação entre violência e moradia, destacando como os despejos e a falta de políticas habitacionais aprofundam a vulnerabilidade feminina.
Sandra trouxe a discussão sobre o patriarcado e a competição entre mulheres, além do preconceito em torno do feminismo. A roda também abordou a violência sexual, as dificuldades de fala que as mulheres enfrentam em espaços de movimento e ocupação, e a importância da educação de gênero com meninos.
Oficina de autocuidado: um gesto de resistência
Encerrando o segundo dia, Beatriz e Sergina, de Minas Gerais, conduziram uma oficina de autocuidado, com meditação, automassagem nas mãos e escalda-pés. As participantes aprenderam sobre medicina integrativa, receberam dicas de saúde e foram presenteadas com lembrancinhas e mensagens do oráculo das flores.
A oficina reforçou a importância de cuidar de quem cuida – um ato político de resistência em meio à sobrecarga imposta às mulheres.
Educação popular: práticas de liberdade
No terceiro e último dia, coordenado por Beatriz, a roda de conversa sobre educação popular foi conduzida por Gorete Gama. A pergunta inicial – “O que é educação popular?” – abriu um debate sobre troca, afeto, coletividade e resistência.
As participantes destacaram a importância de Paulo Freire, a necessidade de ler a realidade, a circularidade do conhecimento e o respeito a todas as formas de vida. Gorete falou sobre sua trajetória e sobre a importância de considerar o outro por inteiro, valorizando as experiências de luta que cada mulher traz consigo.
Luana França, do MST, compartilhou a experiência do movimento com a educação, destacando as cirandas infantis como espaços onde as crianças também são protagonistas das lutas. Ela explicou que o MST criou sua própria pedagogia, comprometida com a educação dos povos do campo, das águas, das florestas e das cidades, e citou o método cubano “Sim, eu posso”, que já alfabetizou milhões de pessoas em diversos países.
“Educação é ato político e de resistência. É um espaço antagônico ao espaço que o capital nos coloca”, afirmou Luana.
O evento foi encerrado com uma mística final conduzida por Gorete e com os encaminhamentos liderados por Sandra Quintela. As mulheres saíram fortalecidas, com a certeza de que a luta por reparações – sociais, históricas e financeiras – é uma luta feminina, coletiva e cotidiana.
O encontro é parte do projeto "Resistência e defesa de direitos frente ao sobre-endividamento público", realizado pelo JSB por meio do Termo de Fomento nº 984635/2025, firmado com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
Por Flaviana Serafim - Jubileu Sul Brasil
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Entre os dias 6 e 8 de agosto, a Rede Jubileu Sul Brasil realizou o encontro “Mulheres em Ação: reflexões e práticas nos territórios", em Xerém, Duque de Caxias (RJ). A atividade reuniu dezenas de mulheres de diferentes regiões do país para um espaço de formação, troca de experiências e fortalecimento da organização feminina nos territórios.
O encontro teve como eixo central a defesa das reparações – sociais, históricas e financeiras – e o protagonismo das mulheres na construção de alternativas ao sistema do capital. Ao longo de três dias, as participantes debateram conjuntura, mundo do trabalho, violência contra a mulher, educação popular e práticas de autocuidado.
Mística de abertura: a luta também é feita de acolhimento
O primeiro dia do encontro, coordenado por Gorete Gama, articuladora do Jubileu Sul no Rio de Janeiro, começou com uma mística de abertura conduzida por Beatriz e Sergina, que acolheu as participantes com abraços, apresentações e a certeza de que a luta também é feita de acolhimento, de autocuidado e de cuidado coletivo.
Em seguida, representantes de cada região do país trouxeram a realidade de seus territórios, os desafios e embates por direitos, como a moradia e o direito à cidade, e os enfrentamentos como a violência contra as mulheres. A partir do diálogo coletivo, a análise prosseguiu com a economista e educadora popular Sandra Quintela, que conectou os cenários locais à conjuntura nacional e internacional.
Sandra costurou as ligações entre a conjuntura dos territórios e o cenário internacional, destacando o tecnofeudalismo, a ascensão da extrema direita e a crise climática como expressões da crise do sistema capitalista. A privatização da água, a financeirização da natureza e a dificuldade de acesso à moradia para mulheres negras também foram temas centrais.
“A análise de conjuntura é uma prática antiga dos movimentos sociais. Estamos aqui dando continuidade a essa história. Não precisa de um grande especialista: é ler a realidade, do território para o global”, afirmou Sandra.

Evento promovido pela Rede Jubileu Sul Brasil reuniu mulheres de diferentes regiões do país para trocar experiências, fortalecer a organização coletiva e reafirmar o protagonismo feminino na luta por reparações e justiça social. Fotos: Flaviana Serafim
Segundo dia: sementes de açaí, incenso de breu branco e o debate sobre o mundo do trabalho
O segundo dia do encontro, coordenado por Thaís Matos, começou com uma mística conduzida por Sol Fontinele, indígena kokama e moradora da Comunidade Nova Vida, em Manaus (AM). Sementes de açaí, incenso de breu branco, terra, água e ar deram o tom da abertura.
As participantes receberam a semente de uma das árvores mais simbólicas da Amazônia, compartilharam a defumação de breu branco e, ao final, jogaram as sementes na terra, que foram regadas – um gesto de esperança e conexão com a natureza.
Em seguida, a manhã foi dedicada à roda de conversa “Mulheres e mundo do trabalho” , conduzida por Carolina de Mendonça Rodrigues Silva, da assessoria nacional de projetos da Rede Jubileu Sul Brasil. O fio condutor do diálogo foi a pergunta: “Quando foi a última vez que alguém cuidou de você? Quem foi essa pessoa?” – e as respostas revelaram que, na maioria das vezes, o cuidado vem de outras mulheres, mas raramente chega a elas mesmas.
A invisibilidade do trabalho de cuidado foi um dos centros da discussão. As participantes refletiram sobre o trabalho reprodutivo – o cuidado com a casa, com as crianças, com os idosos – que é majoritariamente realizado por mulheres, não é remunerado e é fundamental para a manutenção do capital.
A provocação “O que aconteceria se todas as mulheres cruzassem os braços por um dia?” gerou um debate sobre a sobrecarga feminina e sua relação com o aumento da violência.
Em grupos, as mulheres discutiram questões como: “Quem cuida das crianças e dos idosos na nossa comunidade? Quem cuida de quem cuida? Como seria uma comunidade onde o cuidado fosse responsabilidade de todos e do Estado?” As apresentações revelaram a potência da organização coletiva e a necessidade de políticas públicas que valorizem o cuidado.
A roda foi finalizada com a exibição do vídeo “Mulheres e o mundo do trabalho” , lançado há 20 anos pelo Instituto PACS, seguido de um bate-papo com Sandra Quintela. O vídeo segue atual ao refletir sobre a desigualdade entre mulheres e homens no universo do trabalho e na vida cotidiana.
Violência contra as mulheres e a luta por moradia
Ainda no segundo dia, à tarde, a advogada Taiana Sobrinho conduziu a roda de conversa “Violência contra as mulheres” . A pergunta inicial – “O que é violência contra a mulher?” – mobilizou relatos sobre violência física, psicológica, sobrecarga de trabalho e até mesmo o episódio do “7 a 1” como símbolo de uma violência simbólica.
As mulheres compartilharam histórias de violência vividas em seus territórios, e Taiana estabeleceu a relação entre violência e moradia, destacando como os despejos e a falta de políticas habitacionais aprofundam a vulnerabilidade feminina.
Sandra trouxe a discussão sobre o patriarcado e a competição entre mulheres, além do preconceito em torno do feminismo. A roda também abordou a violência sexual, as dificuldades de fala que as mulheres enfrentam em espaços de movimento e ocupação, e a importância da educação de gênero com meninos.
Oficina de autocuidado: um gesto de resistência
Encerrando o segundo dia, Beatriz e Sergina, de Minas Gerais, conduziram uma oficina de autocuidado, com meditação, automassagem nas mãos e escalda-pés. As participantes aprenderam sobre medicina integrativa, receberam dicas de saúde e foram presenteadas com lembrancinhas e mensagens do oráculo das flores.
A oficina reforçou a importância de cuidar de quem cuida – um ato político de resistência em meio à sobrecarga imposta às mulheres.
Educação popular: práticas de liberdade
No terceiro e último dia, coordenado por Beatriz, a roda de conversa sobre educação popular foi conduzida por Gorete Gama. A pergunta inicial – “O que é educação popular?” – abriu um debate sobre troca, afeto, coletividade e resistência.
As participantes destacaram a importância de Paulo Freire, a necessidade de ler a realidade, a circularidade do conhecimento e o respeito a todas as formas de vida. Gorete falou sobre sua trajetória e sobre a importância de considerar o outro por inteiro, valorizando as experiências de luta que cada mulher traz consigo.
Luana França, do MST, compartilhou a experiência do movimento com a educação, destacando as cirandas infantis como espaços onde as crianças também são protagonistas das lutas. Ela explicou que o MST criou sua própria pedagogia, comprometida com a educação dos povos do campo, das águas, das florestas e das cidades, e citou o método cubano “Sim, eu posso”, que já alfabetizou milhões de pessoas em diversos países.
“Educação é ato político e de resistência. É um espaço antagônico ao espaço que o capital nos coloca”, afirmou Luana.
O evento foi encerrado com uma mística final conduzida por Gorete e com os encaminhamentos liderados por Sandra Quintela. As mulheres saíram fortalecidas, com a certeza de que a luta por reparações – sociais, históricas e financeiras – é uma luta feminina, coletiva e cotidiana.
O encontro é parte do projeto "Resistência e defesa de direitos frente ao sobre-endividamento público", realizado pelo JSB por meio do Termo de Fomento nº 984635/2025, firmado com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
Por Flaviana Serafim - Jubileu Sul Brasil
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