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“Mulheres em Ação” reúne lideranças para debater trabalho, violência, cuidado e resistência

  • 13 de agosto de 2026

Entre os dias 6 e 8 de agosto, a Rede Jubileu Sul Brasil realizou o encontro “Mulheres em Ação: reflexões e práticas nos territórios", em Xerém, Duque de Caxias (RJ). A atividade reuniu dezenas de mulheres de diferentes regiões do país para um espaço de formação, troca de experiências e fortalecimento da organização feminina nos territórios.

O encontro teve como eixo central a defesa das reparações – sociais, históricas e financeiras – e o protagonismo das mulheres na construção de alternativas ao sistema do capital. Ao longo de três dias, as participantes debateram conjuntura, mundo do trabalho, violência contra a mulher, educação popular e práticas de autocuidado.

Mística de abertura: a luta também é feita de acolhimento

O primeiro dia do encontro, coordenado por Gorete Gama, articuladora do Jubileu Sul no Rio de Janeiro, começou com uma mística de abertura conduzida por Beatriz e Sergina, que acolheu as participantes com abraços, apresentações e a certeza de que a luta também é feita de acolhimento, de autocuidado e de cuidado coletivo.

Em seguida, representantes de cada região do país trouxeram a realidade de seus territórios, os desafios e embates por direitos, como a moradia e o direito à cidade, e os enfrentamentos como a violência contra as mulheres. A partir do diálogo coletivo, a análise prosseguiu com a economista e educadora popular Sandra Quintela, que conectou os cenários locais à conjuntura nacional e internacional.

Sandra costurou as ligações entre a conjuntura dos territórios e o cenário internacional, destacando o tecnofeudalismo, a ascensão da extrema direita e a crise climática como expressões da crise do sistema capitalista. A privatização da água, a financeirização da natureza e a dificuldade de acesso à moradia para mulheres negras também foram temas centrais.

“A análise de conjuntura é uma prática antiga dos movimentos sociais. Estamos aqui dando continuidade a essa história. Não precisa de um grande especialista: é ler a realidade, do território para o global”, afirmou Sandra.

Evento promovido pela Rede Jubileu Sul Brasil reuniu mulheres de diferentes regiões do país para trocar experiências, fortalecer a organização coletiva e reafirmar o protagonismo feminino na luta por reparações e justiça social. Fotos: Flaviana Serafim

Segundo dia: sementes de açaí, incenso de breu branco e o debate sobre o mundo do trabalho

O segundo dia do encontro, coordenado por Thaís Matos, começou com uma mística conduzida por Sol Fontinele, indígena kokama e moradora da Comunidade Nova Vida, em Manaus (AM). Sementes de açaí, incenso de breu branco, terra, água e ar deram o tom da abertura. 

As participantes receberam a semente de uma das árvores mais simbólicas da Amazônia, compartilharam a defumação de breu branco e, ao final, jogaram as sementes na terra, que foram regadas – um gesto de esperança e conexão com a natureza.

Mística de abertura trouxe os elementos da natureza à roda de lideranças.

Em seguida, a manhã foi dedicada à roda de conversa “Mulheres e mundo do trabalho” , conduzida por Carolina de Mendonça Rodrigues Silva, da assessoria nacional de projetos da Rede Jubileu Sul Brasil. O fio condutor do diálogo foi a pergunta: “Quando foi a última vez que alguém cuidou de você? Quem foi essa pessoa?” – e as respostas revelaram que, na maioria das vezes, o cuidado vem de outras mulheres, mas raramente chega a elas mesmas.

A invisibilidade do trabalho de cuidado foi um dos centros da discussão. As participantes refletiram sobre o trabalho reprodutivo – o cuidado com a casa, com as crianças, com os idosos – que é majoritariamente realizado por mulheres, não é remunerado e é fundamental para a manutenção do capital. 

A provocação “O que aconteceria se todas as mulheres cruzassem os braços por um dia?” gerou um debate sobre a sobrecarga feminina e sua relação com o aumento da violência.

Encontro de mulheres sentadas em cadeiras plásticas formando um semicírculo numa sala clara com ventiladores no teto; uma palestrante está de pé ao centro, gesticulando, enquanto outra mulher sentada observa. No chão, entre as participantes, estão espalhadas camisetas coloridas de movimentos feministas e de direitos reprodutivos, como "Mulheres pela Democracia", "Trabalhadoras Sindinformal" e "Rede Nacional Feminista de Saúde".

Mundo do trabalho: debate sobre a invisibilidade do trabalho de cuidado e a sobrecarga das múltiplas jornadas femininas

Em grupos, as mulheres discutiram questões como: “Quem cuida das crianças e dos idosos na nossa comunidade? Quem cuida de quem cuida? Como seria uma comunidade onde o cuidado fosse responsabilidade de todos e do Estado?” As apresentações revelaram a potência da organização coletiva e a necessidade de políticas públicas que valorizem o cuidado.

A roda foi finalizada com a exibição do vídeo “Mulheres e o mundo do trabalho” , lançado há 20 anos pelo Instituto PACS, seguido de um bate-papo com Sandra Quintela. O vídeo segue atual ao refletir sobre a desigualdade entre mulheres e homens no universo do trabalho e na vida cotidiana.

Violência contra as mulheres e a luta por moradia

Ainda no segundo dia, à tarde, a advogada Taiana Sobrinho conduziu a roda de conversa “Violência contra as mulheres” . A pergunta inicial – “O que é violência contra a mulher?” – mobilizou relatos sobre violência física, psicológica, sobrecarga de trabalho e até mesmo o episódio do “7 a 1” como símbolo de uma violência simbólica.

As mulheres compartilharam histórias de violência vividas em seus territórios, e Taiana estabeleceu a relação entre violência e moradia, destacando como os despejos e a falta de políticas habitacionais aprofundam a vulnerabilidade feminina.

Sandra trouxe a discussão sobre o patriarcado e a competição entre mulheres, além do preconceito em torno do feminismo. A roda também abordou a violência sexual, as dificuldades de fala que as mulheres enfrentam em espaços de movimento e ocupação, e a importância da educação de gênero com meninos.

Oficina de autocuidado: um gesto de resistência

Encerrando o segundo dia, Beatriz e Sergina, de Minas Gerais, conduziram uma oficina de autocuidado, com meditação, automassagem nas mãos e escalda-pés. As participantes aprenderam sobre medicina integrativa, receberam dicas de saúde e foram presenteadas com lembrancinhas e mensagens do oráculo das flores.

A oficina reforçou a importância de cuidar de quem cuida – um ato político de resistência em meio à sobrecarga imposta às mulheres.

Encontro de mulheres sentadas em cadeiras plásticas formando um grande círculo numa sala ampla com ventiladores no teto. No centro do espaço, tapetes coloridos e vasos com plantas ornamentais dividem o ambiente, enquanto duas participantes estão de pé conduzindo a roda de conversa.

Medicina integrativa para o autocuidado, com escalda-pés, relaxamento e massagem, entre outras técnicas.

Educação popular: práticas de liberdade

No terceiro e último dia, coordenado por Beatriz, a roda de conversa sobre educação popular foi conduzida por Gorete Gama. A pergunta inicial – “O que é educação popular?” – abriu um debate sobre troca, afeto, coletividade e resistência.

As participantes destacaram a importância de Paulo Freire, a necessidade de ler a realidade, a circularidade do conhecimento e o respeito a todas as formas de vida. Gorete falou sobre sua trajetória e sobre a importância de considerar o outro por inteiro, valorizando as experiências de luta que cada mulher traz consigo.

Luana França, do MST, compartilhou a experiência do movimento com a educação, destacando as cirandas infantis como espaços onde as crianças também são protagonistas das lutas. Ela explicou que o MST criou sua própria pedagogia, comprometida com a educação dos povos do campo, das águas, das florestas e das cidades, e citou o método cubano “Sim, eu posso”, que já alfabetizou milhões de pessoas em diversos países.

“Educação é ato político e de resistência. É um espaço antagônico ao espaço que o capital nos coloca”, afirmou Luana.

Roda de educação popular com mulheres sentadas em cadeiras plásticas formando um círculo amplo numa sala clara. No centro do chão, camisetas coloridas de movimentos sociais estão estendidas sobre o piso branco, enquanto as participantes se escutam atentas durante o encontro.

Educação popular encerrou a série de debates.

O evento foi encerrado com uma mística final conduzida por Gorete e com os encaminhamentos por Sandra. As mulheres saíram fortalecidas, com a certeza de que a luta por reparações – sociais, históricas e financeiras – é uma luta feminina, coletiva e cotidiana.

O encontro é parte do projeto "Resistência e defesa de direitos frente ao sobre-endividamento público", realizado pelo JSB por meio do Termo de Fomento nº 984635/2025, firmado com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Por Flaviana Serafim - Jubileu Sul Brasil

Confira o álbum do evento
Mulheres em Ação: reflexões e práticas nos territórios

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O encontro teve como eixo central a defesa das reparações – sociais, históricas e financeiras – e o protagonismo das mulheres na construção de alternativas ao sistema do capital. Ao longo de três dias, as participantes debateram conjuntura, mundo do trabalho, violência contra a mulher, educação popular e práticas de autocuidado.

Mística de abertura: a luta também é feita de acolhimento

O primeiro dia do encontro, coordenado por Gorete Gama, articuladora do Jubileu Sul no Rio de Janeiro, começou com uma mística de abertura conduzida por Beatriz e Sergina, que acolheu as participantes com abraços, apresentações e a certeza de que a luta também é feita de acolhimento, de autocuidado e de cuidado coletivo.

Em seguida, representantes de cada região do país trouxeram a realidade de seus territórios, os desafios e embates por direitos, como a moradia e o direito à cidade, e os enfrentamentos como a violência contra as mulheres. A partir do diálogo coletivo, a análise prosseguiu com a economista e educadora popular Sandra Quintela, que conectou os cenários locais à conjuntura nacional e internacional.

Sandra costurou as ligações entre a conjuntura dos territórios e o cenário internacional, destacando o tecnofeudalismo, a ascensão da extrema direita e a crise climática como expressões da crise do sistema capitalista. A privatização da água, a financeirização da natureza e a dificuldade de acesso à moradia para mulheres negras também foram temas centrais.

“A análise de conjuntura é uma prática antiga dos movimentos sociais. Estamos aqui dando continuidade a essa história. Não precisa de um grande especialista: é ler a realidade, do território para o global”, afirmou Sandra.

Evento promovido pela Rede Jubileu Sul Brasil reuniu mulheres de diferentes regiões do país para trocar experiências, fortalecer a organização coletiva e reafirmar o protagonismo feminino na luta por reparações e justiça social. Fotos: Flaviana Serafim

Segundo dia: sementes de açaí, incenso de breu branco e o debate sobre o mundo do trabalho

O segundo dia do encontro, coordenado por Thaís Matos, começou com uma mística conduzida por Sol Fontinele, indígena kokama e moradora da Comunidade Nova Vida, em Manaus (AM). Sementes de açaí, incenso de breu branco, terra, água e ar deram o tom da abertura. 

As participantes receberam a semente de uma das árvores mais simbólicas da Amazônia, compartilharam a defumação de breu branco e, ao final, jogaram as sementes na terra, que foram regadas – um gesto de esperança e conexão com a natureza.

Mística de abertura trouxe os elementos da natureza à roda de lideranças.

Em seguida, a manhã foi dedicada à roda de conversa “Mulheres e mundo do trabalho” , conduzida por Carolina de Mendonça Rodrigues Silva, da assessoria nacional de projetos da Rede Jubileu Sul Brasil. O fio condutor do diálogo foi a pergunta: “Quando foi a última vez que alguém cuidou de você? Quem foi essa pessoa?” – e as respostas revelaram que, na maioria das vezes, o cuidado vem de outras mulheres, mas raramente chega a elas mesmas.

A invisibilidade do trabalho de cuidado foi um dos centros da discussão. As participantes refletiram sobre o trabalho reprodutivo – o cuidado com a casa, com as crianças, com os idosos – que é majoritariamente realizado por mulheres, não é remunerado e é fundamental para a manutenção do capital. 

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Roda de educação popular com mulheres sentadas em cadeiras plásticas formando um círculo amplo numa sala clara. No centro do chão, camisetas coloridas de movimentos sociais estão estendidas sobre o piso branco, enquanto as participantes se escutam atentas durante o encontro.

Educação popular encerrou a série de debates.

O evento foi encerrado com uma mística final conduzida por Gorete e com os encaminhamentos por Sandra. As mulheres saíram fortalecidas, com a certeza de que a luta por reparações – sociais, históricas e financeiras – é uma luta feminina, coletiva e cotidiana.

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