
Caminhada de Lésbicas e Bissexuais aconteceu em São Paulo no último sábado (2), no âmbito da Parada LGBT / Foto: Carla Carniel
Misoginia e lesbofobia
O termo lesbocídio foi apresentado de forma inédita pela pesquisa, e assim como o feminicídio, o crime é motivado pela misoginia, sentimento de ódio destinado às mulheres, mas possui características diferentes.
Geralmente, casos de feminicídio acontecem em ambientes domésticos e o crime é praticado por homens que possuem algum grau de familiaridade com as vítimas; mais comumente, seus cônjuges. Já nos casos de lesbocídio, cerca de 83% das vítimas foram assassinadas por homens que não necessariamente possuíam parentesco com elas, mas que têm aversão a lésbicas, ou seja, foram motivados pela lesbofobia.
Militante do movimento de mulheres lésbicas há mais de 15 anos, Cinthia Abreu, uma das coordenadoras da Caminhada das Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, celebra a produção do dossiê. "Até hoje não tinha visto uma contribuição como essa, é importante porque nos dá visibilidade e mostra as formas como morremos e de como somos invisibilizadas”, diz.
Cinthia ressalta ainda que o dossiê é essencial não só para o movimento LGBT, mas para que a sociedade passe a considerar o lesbocídio como uma questão importante, principalmente com o avanço do conservadorismo.
“Estamos procurando dar mais visibilidade, mostrar que as mortes por lesbocídio existem e tem um requinte de crueldade muito grande. É desde decapitação a empalamentos e queimaduras. São crimes extremamente violentos e quando falamos sobre pautas LGBT, estamos falando sobre direitos humanos, políticas públicas e perda de direitos”, complementa.
Subnotificação por preconceito
Aproximadamente 34% dos crimes acontecem com mulheres na faixa-etária dos 20 aos 24 anos. Outra informação apontada pelo dossiê é que as lésbicas têm o dobro de chance de serem assassinadas em regiões interioranas, uma característica comum em todos os estados do Brasil.
O Dossiê organizado pelo NIS é a primeira pesquisa realizada especificamente com o objetivo de expor a situação alarmante de violência sob as quais mulheres lésbicas estão submetidas.
Devido à falta de dados oficiais e estudos padronizados, estima-se que o números de mortes por lesbocídio sejam ainda maiores. Além da subnotificação existente, Cinthia cita a dificuldade das mulheres lésbicas para denunciar episódios violentos, já que enfrentam preconceito cotidianamente na esfera familiar e no local de trabalho, por exemplo.
“É exatamente o processo do ódio, que inclusive falamos que só a palavra feminicídio não dá conta. É preciso falar que é um crime de ódio, é exterminar uma mulher apenas porque ela se relaciona com outra mulher”, pontua.
Saúde mental
Além de criar um espaço de memória coletiva das lésbicas que foram assassinadas, a pesquisa também apresenta registros feitos de 2014 a 2017 que indicam 33 suicídios cometidos por mulheres lésbicas entre 19 e 24 anos, faixa que concentra 69% dos casos.
Os suicídios também seguem em números crescentes: em 2014 foram dois; no ano seguinte, cinco; em 2016, seis; e, em 2017, o número aumentou para 19.
Na opinião de Cinthia, a lesbofobia é a principal responsável por levar essas mulheres a tirarem suas próprias vidas.
“A saúde mental dessas mulheres é comprometida por várias questões. O rompimento familiar é muito grande, outra questão é a pressão social porque não se pode admitir que é uma lésbica no trabalho, no ambiente escolar também não. O fato de ter que viver sua sexualidade condicionada a outras pessoas causa adoecimento mental”, reforça a ativista, ressaltando que o apoio familiar é um diferencial enorme e fortalece na luta contra a discriminação.
A quantidade de lésbicas em depressão é outro traço da lesbofobia na vida dessas mulheres. “Temos um processo muito grande de depressão e isolamento. Quando falamos de saúde lésbica, se fala no âmbito sexual e ginecológico, e não que seja menos importante, mas acaba-se não falando sobre o adoecimento mental. O suicídio entre as lésbicas é uma forma do lesbocídio nos atacar", ressalta Cinthia.
De acordo com o dossiê, que relata diversos casos de lesbocídio em detalhes, mulheres lésbicas não-feminilizadas sofrem um preconceito ainda maior nos ambientes públicos, e representaram 54% do número de mortes em 2017.
Edição: Diego Sartorato
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Caminhada de Lésbicas e Bissexuais aconteceu em São Paulo no último sábado (2), no âmbito da Parada LGBT / Foto: Carla Carniel
Misoginia e lesbofobia
O termo lesbocídio foi apresentado de forma inédita pela pesquisa, e assim como o feminicídio, o crime é motivado pela misoginia, sentimento de ódio destinado às mulheres, mas possui características diferentes.
Geralmente, casos de feminicídio acontecem em ambientes domésticos e o crime é praticado por homens que possuem algum grau de familiaridade com as vítimas; mais comumente, seus cônjuges. Já nos casos de lesbocídio, cerca de 83% das vítimas foram assassinadas por homens que não necessariamente possuíam parentesco com elas, mas que têm aversão a lésbicas, ou seja, foram motivados pela lesbofobia.
Militante do movimento de mulheres lésbicas há mais de 15 anos, Cinthia Abreu, uma das coordenadoras da Caminhada das Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, celebra a produção do dossiê. "Até hoje não tinha visto uma contribuição como essa, é importante porque nos dá visibilidade e mostra as formas como morremos e de como somos invisibilizadas”, diz.
Cinthia ressalta ainda que o dossiê é essencial não só para o movimento LGBT, mas para que a sociedade passe a considerar o lesbocídio como uma questão importante, principalmente com o avanço do conservadorismo.
“Estamos procurando dar mais visibilidade, mostrar que as mortes por lesbocídio existem e tem um requinte de crueldade muito grande. É desde decapitação a empalamentos e queimaduras. São crimes extremamente violentos e quando falamos sobre pautas LGBT, estamos falando sobre direitos humanos, políticas públicas e perda de direitos”, complementa.
Subnotificação por preconceito
Aproximadamente 34% dos crimes acontecem com mulheres na faixa-etária dos 20 aos 24 anos. Outra informação apontada pelo dossiê é que as lésbicas têm o dobro de chance de serem assassinadas em regiões interioranas, uma característica comum em todos os estados do Brasil.
O Dossiê organizado pelo NIS é a primeira pesquisa realizada especificamente com o objetivo de expor a situação alarmante de violência sob as quais mulheres lésbicas estão submetidas.
Devido à falta de dados oficiais e estudos padronizados, estima-se que o números de mortes por lesbocídio sejam ainda maiores. Além da subnotificação existente, Cinthia cita a dificuldade das mulheres lésbicas para denunciar episódios violentos, já que enfrentam preconceito cotidianamente na esfera familiar e no local de trabalho, por exemplo.
“É exatamente o processo do ódio, que inclusive falamos que só a palavra feminicídio não dá conta. É preciso falar que é um crime de ódio, é exterminar uma mulher apenas porque ela se relaciona com outra mulher”, pontua.
Saúde mental
Além de criar um espaço de memória coletiva das lésbicas que foram assassinadas, a pesquisa também apresenta registros feitos de 2014 a 2017 que indicam 33 suicídios cometidos por mulheres lésbicas entre 19 e 24 anos, faixa que concentra 69% dos casos.
Os suicídios também seguem em números crescentes: em 2014 foram dois; no ano seguinte, cinco; em 2016, seis; e, em 2017, o número aumentou para 19.
Na opinião de Cinthia, a lesbofobia é a principal responsável por levar essas mulheres a tirarem suas próprias vidas.
“A saúde mental dessas mulheres é comprometida por várias questões. O rompimento familiar é muito grande, outra questão é a pressão social porque não se pode admitir que é uma lésbica no trabalho, no ambiente escolar também não. O fato de ter que viver sua sexualidade condicionada a outras pessoas causa adoecimento mental”, reforça a ativista, ressaltando que o apoio familiar é um diferencial enorme e fortalece na luta contra a discriminação.
A quantidade de lésbicas em depressão é outro traço da lesbofobia na vida dessas mulheres. “Temos um processo muito grande de depressão e isolamento. Quando falamos de saúde lésbica, se fala no âmbito sexual e ginecológico, e não que seja menos importante, mas acaba-se não falando sobre o adoecimento mental. O suicídio entre as lésbicas é uma forma do lesbocídio nos atacar", ressalta Cinthia.
De acordo com o dossiê, que relata diversos casos de lesbocídio em detalhes, mulheres lésbicas não-feminilizadas sofrem um preconceito ainda maior nos ambientes públicos, e representaram 54% do número de mortes em 2017.
Edição: Diego Sartorato
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