Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Enfrentar ideia de que desertificação é algo ‘natural’ é fundamental para garantia da biodiversidade e da justiça socioambiental

  • 22 de maio de 2021
Foto: Welington Pedro de Oliveira/FotosPúblicas

Por Paulo Victor Melo | Especial para o JSB

Em 22 de maio é celebrado o Dia Internacional da Biodiversidade. Um dos temas fundamentais na perspectiva de preservação da biodiversidade e de garantia da justiça socioambiental diz respeito à desertificação.

Estimativas recentes do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens e Satélites, da Universidade Federal de Alagoas, apontam que quase 13% do semiárido brasileiro enfrenta o processo de desertificação.

Este cenário é ainda mais preocupante quando observados números do Ministério do Meio Ambiente que demonstram que as áreas “suscetíveis à desertificação” representam 16% do território brasileiro, distribuídas nos nove estados do Nordeste, além do Espírito Santo e Minas Gerais, atingindo 85% das pessoas mais pobres do país.

Para compreendermos a relação entre desertificação, biodiversidade e justiça socioambiental, apresentamos dois questionamentos a um especialista no tema, o cientista social Ivo Poletto, que é integrante do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS).

Quais os principais desafios do Brasil nesse tema da desertificação no sentido de preservação da biodiversidade e garantia da justiça socioambiental?

Muitos e complexos desafios. Limitar-me-ei aos que considero mais significativos.

O primeiro, e talvez o maior, é a naturalização dos processos de desertificação. Considera-se natural que haja desgaste dos solos, aceito como custo inevitável do progresso nas formas de produzir o que se imagina necessário para a alimentação humana.

A propaganda feita pelos proprietários e os aliados do agronegócio reforça essa visão. A produção em imensas monoculturas, com uso de máquinas e produtos químicos, ganha status de algo moderno, superior à agricultura tradicional pelo uso de tecnologias, e necessário pela quantidade da sua produção. A agressiva e delicada propaganda do “agro é tudo”, veiculada na Globo, cumpre com eficácia o objetivo de apresentar como iguais os alimentos do cultivo agroecológico e os da agricultura química e industrial. Torna-se voz corrente a afirmação de que já não haveria condição de produzir alimentos na quantidade exigida sem o uso liberado de agroquímicos e sem a derrubada de mais florestas, aumentando a quantidade de terra para a pecuária e a agricultura de exportação.

Quem seria responsável, então, pelo aumento de áreas em processo de desertificação? A resposta corrente é de que seria a própria natureza e a quantidade crescente de bocas para alimentar, no país e no mundo. Os seres humanos não entrariam ou entram superficialmente na conta dessa responsabilidade.

Essa não é, contudo, a verdade da história da desertificação. Ela foi e continua sendo provocada por práticas humanas. Nada é natural. Por exemplo, o sistema de produção agroindustrial foi formulado por grupos de interesse, em que participaram indústrias que desejavam a continuidade de aproveitamento das tecnologias que haviam desenvolvido para as duas grandes guerras do século XX, e não havia desconhecimento das consequências de despejar sobre os solos produtos químicos cada vez mais agressivos à vida, e nem dos efeitos na saúde de quem se alimentasse com os grãos resultantes do processo produtivo. E os investimentos na denominada “melhoria” e, depois, na modificação genética das sementes, tinham tudo a ver com o desejo de monopolização do negócio de grãos em todo o planeta por poucos grupos econômicos e países.

Uma vez tornado hegemônico esse modelo, a ocupação de novas áreas se deu numa velocidade incrível. A derrubada da floresta e retirada da cobertura vegetal do Cerrado, por exemplo, aconteceu praticamente em 30 anos. E é o mesmo movimento que está avançando no desmatamento e ocupação da Amazônia – processos muito mais rápidos do que a derrubada da Mata Atlântica, em que sobra 7% da cobertura vegetal original, e mesmo da Caatinga, que tem tudo a ver com a situação de região semiárida que conhecemos hoje.

E como avançar num projeto de país em que a justiça socioambiental seja garantida e em que a preservação da biodiversidade seja uma prioridade?

Vou destacar apenas três caminhos.

O primeiro é desenvolver uma consciência e uma cultura de convivência com cada um dos sete biomas existentes no Brasil, nas áreas rurais e urbanas. Cada bioma é um berço vivo e fonte de vida. A existência da biodiversidade criada pela Terra, em sua longa história, se dá de forma diferente em cada bioma, já que o clima, o regime de chuvas, os solos, a cobertura vegetal, as águas na superfície e no subsolo, os seres vivos das águas, do solo e dos ecossistemas locais, são característicos daquele bioma. E os próprios povos que neles vivem desenvolvem conhecimentos, modos de ser e de agir, hábitos culturais e espirituais influenciados pelas condições de vida que o berço criado pela Mãe Terra apresenta.

Isso é impossível de ser alcançado com o regime de propriedade sem limites e defendida como algo sagrado na legislação. O sistema de produção agroindustrial manteve e agravou o sistema de latifúndios implantado desde o início da colonização europeia. Será necessária a mudança não apenas na legislação, e sim na democratização do acesso à terra. Com isso, haverá condições de ser tornar hegemônica a forma agroecológica de cultivar os solos, em áreas individuais ou coletivas cuidadas com carinho, com diálogo entre florestas e áreas cultivadas, valorizando a diversidade e não as monoculturas.

Por fim, é absolutamente necessário desenvolver um processo reeducativo das relações dos seres humanos com a Mãe Terra. Isso demanda um processo de crítica da cultura ocidental dominante entre nós, que tem como um de seus fundamentos a separação entre a razão humana e a natureza, vista apenas matéria, a ser dominada e colocado a serviço dos seres humanos com o uso da ciência. Essa separação, instrumentalizada e radicalizada pelo capitalismo, nos levou à destruição das condições de vida em que nos encontramos. Essa reeducação deverá religar as pessoas, comunidades e povos com seus biomas, dialogando e convivendo com toda a diversidade de seres vivos. Ela nos levará a evitar a adaptação ao que foi destruído, e nos levará a recriar florestas, a recuperar nascentes, a cuidar de córregos e rios, a produzir energia através de relações locais com o sol, os ventos, a biomassa.

Últimas notícias

Jardim Pantanal dá início à construção de cartografia social em parceria com Jubileu Sul e MLB

A Rede Jubileu Sul Brasil (JSB), em parceria com o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) , realizou uma roda de conversa…
Ler mais...

Mulheres da Pequena África marcam casas contra despejo e denunciam PLC 93 em ação de rua no Rio

O grito de alerta ecoou no centro do Rio de Janeiro na última sexta-feira, 22 de maio. Mulheres da Pequena África foram às ruas para…
Ler mais...

Moradia na Vila Dique: conquista para 71 famílias, mas luta continua para que ninguém fique para trás

O último sábado (16) foi de emoções contraditórias na Vila Dique, comunidade da zona norte de Porto Alegre (RS) duramente afetada pelas enchentes de maio…
Ler mais...

Enfrentar ideia de que desertificação é algo ‘natural’ é fundamental para garantia da biodiversidade e da justiça socioambiental

  • 22 de maio de 2021
Foto: Welington Pedro de Oliveira/FotosPúblicas

Por Paulo Victor Melo | Especial para o JSB

Em 22 de maio é celebrado o Dia Internacional da Biodiversidade. Um dos temas fundamentais na perspectiva de preservação da biodiversidade e de garantia da justiça socioambiental diz respeito à desertificação.

Estimativas recentes do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens e Satélites, da Universidade Federal de Alagoas, apontam que quase 13% do semiárido brasileiro enfrenta o processo de desertificação.

Este cenário é ainda mais preocupante quando observados números do Ministério do Meio Ambiente que demonstram que as áreas “suscetíveis à desertificação” representam 16% do território brasileiro, distribuídas nos nove estados do Nordeste, além do Espírito Santo e Minas Gerais, atingindo 85% das pessoas mais pobres do país.

Para compreendermos a relação entre desertificação, biodiversidade e justiça socioambiental, apresentamos dois questionamentos a um especialista no tema, o cientista social Ivo Poletto, que é integrante do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS).

Quais os principais desafios do Brasil nesse tema da desertificação no sentido de preservação da biodiversidade e garantia da justiça socioambiental?

Muitos e complexos desafios. Limitar-me-ei aos que considero mais significativos.

O primeiro, e talvez o maior, é a naturalização dos processos de desertificação. Considera-se natural que haja desgaste dos solos, aceito como custo inevitável do progresso nas formas de produzir o que se imagina necessário para a alimentação humana.

A propaganda feita pelos proprietários e os aliados do agronegócio reforça essa visão. A produção em imensas monoculturas, com uso de máquinas e produtos químicos, ganha status de algo moderno, superior à agricultura tradicional pelo uso de tecnologias, e necessário pela quantidade da sua produção. A agressiva e delicada propaganda do “agro é tudo”, veiculada na Globo, cumpre com eficácia o objetivo de apresentar como iguais os alimentos do cultivo agroecológico e os da agricultura química e industrial. Torna-se voz corrente a afirmação de que já não haveria condição de produzir alimentos na quantidade exigida sem o uso liberado de agroquímicos e sem a derrubada de mais florestas, aumentando a quantidade de terra para a pecuária e a agricultura de exportação.

Quem seria responsável, então, pelo aumento de áreas em processo de desertificação? A resposta corrente é de que seria a própria natureza e a quantidade crescente de bocas para alimentar, no país e no mundo. Os seres humanos não entrariam ou entram superficialmente na conta dessa responsabilidade.

Essa não é, contudo, a verdade da história da desertificação. Ela foi e continua sendo provocada por práticas humanas. Nada é natural. Por exemplo, o sistema de produção agroindustrial foi formulado por grupos de interesse, em que participaram indústrias que desejavam a continuidade de aproveitamento das tecnologias que haviam desenvolvido para as duas grandes guerras do século XX, e não havia desconhecimento das consequências de despejar sobre os solos produtos químicos cada vez mais agressivos à vida, e nem dos efeitos na saúde de quem se alimentasse com os grãos resultantes do processo produtivo. E os investimentos na denominada “melhoria” e, depois, na modificação genética das sementes, tinham tudo a ver com o desejo de monopolização do negócio de grãos em todo o planeta por poucos grupos econômicos e países.

Uma vez tornado hegemônico esse modelo, a ocupação de novas áreas se deu numa velocidade incrível. A derrubada da floresta e retirada da cobertura vegetal do Cerrado, por exemplo, aconteceu praticamente em 30 anos. E é o mesmo movimento que está avançando no desmatamento e ocupação da Amazônia – processos muito mais rápidos do que a derrubada da Mata Atlântica, em que sobra 7% da cobertura vegetal original, e mesmo da Caatinga, que tem tudo a ver com a situação de região semiárida que conhecemos hoje.

E como avançar num projeto de país em que a justiça socioambiental seja garantida e em que a preservação da biodiversidade seja uma prioridade?

Vou destacar apenas três caminhos.

O primeiro é desenvolver uma consciência e uma cultura de convivência com cada um dos sete biomas existentes no Brasil, nas áreas rurais e urbanas. Cada bioma é um berço vivo e fonte de vida. A existência da biodiversidade criada pela Terra, em sua longa história, se dá de forma diferente em cada bioma, já que o clima, o regime de chuvas, os solos, a cobertura vegetal, as águas na superfície e no subsolo, os seres vivos das águas, do solo e dos ecossistemas locais, são característicos daquele bioma. E os próprios povos que neles vivem desenvolvem conhecimentos, modos de ser e de agir, hábitos culturais e espirituais influenciados pelas condições de vida que o berço criado pela Mãe Terra apresenta.

Isso é impossível de ser alcançado com o regime de propriedade sem limites e defendida como algo sagrado na legislação. O sistema de produção agroindustrial manteve e agravou o sistema de latifúndios implantado desde o início da colonização europeia. Será necessária a mudança não apenas na legislação, e sim na democratização do acesso à terra. Com isso, haverá condições de ser tornar hegemônica a forma agroecológica de cultivar os solos, em áreas individuais ou coletivas cuidadas com carinho, com diálogo entre florestas e áreas cultivadas, valorizando a diversidade e não as monoculturas.

Por fim, é absolutamente necessário desenvolver um processo reeducativo das relações dos seres humanos com a Mãe Terra. Isso demanda um processo de crítica da cultura ocidental dominante entre nós, que tem como um de seus fundamentos a separação entre a razão humana e a natureza, vista apenas matéria, a ser dominada e colocado a serviço dos seres humanos com o uso da ciência. Essa separação, instrumentalizada e radicalizada pelo capitalismo, nos levou à destruição das condições de vida em que nos encontramos. Essa reeducação deverá religar as pessoas, comunidades e povos com seus biomas, dialogando e convivendo com toda a diversidade de seres vivos. Ela nos levará a evitar a adaptação ao que foi destruído, e nos levará a recriar florestas, a recuperar nascentes, a cuidar de córregos e rios, a produzir energia através de relações locais com o sol, os ventos, a biomassa.

Últimas notícias

Jardim Pantanal dá início à construção de cartografia social em parceria com Jubileu Sul e MLB

A Rede Jubileu Sul Brasil (JSB), em parceria com o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) , realizou uma roda de conversa…
Ler mais...

Mulheres da Pequena África marcam casas contra despejo e denunciam PLC 93 em ação de rua no Rio

O grito de alerta ecoou no centro do Rio de Janeiro na última sexta-feira, 22 de maio. Mulheres da Pequena África foram às ruas para…
Ler mais...

Moradia na Vila Dique: conquista para 71 famílias, mas luta continua para que ninguém fique para trás

O último sábado (16) foi de emoções contraditórias na Vila Dique, comunidade da zona norte de Porto Alegre (RS) duramente afetada pelas enchentes de maio…
Ler mais...