Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Argentina | Fernández toma posse e se inspira em Lula contra a pobreza

  • 10 de dezembro de 2019

Por Victo Ohana | Carta Capital

Novo presidente e vice Cristina Kirchner herdam crise socioeconômica de Macri

Alberto Fernández, o novo presidente da Argentina | Foto Fotos Públicas

Vencedores das eleições presidenciais na Argentina em 27 de outubro, Alberto Fernández e Cristina Kirchner tomam posse nesta terça-feira, 10, com o desafio de reverter a grave crise socioeconômica sob a qual vive o país vizinho. Até agora, os peronistas já indicaram que o combate à pobreza deve ser prioridade, mas restam dúvidas sobre qual êxito a nova gestão vai apresentar durante o percurso.

A herança do governo de Maurício Macri é alarmante. Em setembro, o Instituto de Estatística e Censos (Indec) informou que o país bateu recorde no índice de argentinos em estado de pobreza. Em 2019, o número chegou a 35,4%, o equivalente a mais de 15 milhões de pessoas nessa situação, entre os cerca de 45 milhões que vivem no território.

Segundo a Universidade Católica Argentina (UCA), Macri encerra o governo com 40,8% de argentinos abaixo da linha da pobreza, segundo dados divulgados em 5 de dezembro. Em 2018, o número era de 33,6%. É o valor mais alto da década, dez pontos a mais que o índice deixado por Cristina Kirchner em 2015.

Na sexta-feira 6, Fernández apresentou um corpo ministerial com 20 integrantes e afirmou que a redução da pobreza será seu foco de governo. Uma das medidas anunciadas, por exemplo, é o programa “Argentina Sem Fome”, inspirado no “Fome Zero”, carro-chefe dos governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No entanto, para a economista do Instituto Jubileu Sul, Sandra Quintela, as medidas concretas ainda não estão claras para superar a crise.

O que se pode perceber até agora é que o perfil dos ministros do governo Fernández é heterodoxo, corrente econômica contrária à abordagem ortodoxa, ligada às medidas neoliberais e de austeridade. O ministro da Economia, por exemplo, é o jovem Martín Guzmán, de 37 anos, pesquisador que colaborou com o economista Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel.

Para a especialista, a tendência é de ampliação da participação do Estado na economia. Um dos anúncios que ela ressalta é o da criação do Ministério de Desenvolvimento Produtivo, que deve se voltar, segundo ela, para o estímulo de pequenas e médias empresas, contrariando a política do governo anterior em privilegiar lideranças vindas de grandes corporações.

Ainda assim, destaca Sandra, Fernández anda cuidadoso no tema. “Ele está bastante cauteloso. Vamos esperar. O quadro está muito forte de instabilidade”, avalia.

O “bode na sala” é o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A Argentina tem uma dívida de 101 bilhões de dólares com credores internacionais. Dentro desse valor, 56 bilhões de dólares formam a dívida só com o FMI. A quantia foi acertada em 2018, pelo governo Macri, e configurou a maior linha de crédito de todos os tempos oferecida pelo banco.

O dinheiro ainda não foi totalmente entregue pelo FMI. Até agora, o Fundo emprestou 44 bilhões de dólares ao país e, portanto, falta uma parcela de 11 bilhões. Fernández já declarou que não quer receber essa fatia. “Tenho um problemão e vou pedir outros 11 bilhões?”, afirmou em uma entrevista. Seus novos ministros da área econômica defendem reestruturar a dívida, mas o sucesso da negociação não é uma certeza.

A articulação econômica na América Latina também é um mistério. Diante das intensas adversidades com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o futuro do Mercosul é incerto. O bloco é formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – a Venezuela está suspensa e Fernández se encontra isolado ideologicamente entre três presidentes à direita.

O ministro Ernesto Araújo afirmou, na semana passada, no Rio Grande do Sul, que está disposto a tentar uma aproximação quando Fernández se alinhar com os interesses dos países parceiros, mas este cenário ainda é imprevisível.

A própria parceria bilateral entre Brasil e Argentina é uma incógnita. A Argentina foi o 4º país que mais comprou do Brasil entre janeiro e outubro de 2019 e o 3º que mais vendeu, uma parceria estratégica para ambos.

No entanto, Sandra considera que o país vizinho possa realinhar suas parcerias, devido à rivalidade com o presidente brasileiro. A China, vendedora de uma série de produtos que o Brasil também comercializa, já estaria em “sobreaviso”.

Fora do campo econômico, Fernández já mostrou entusiasmado em enfrentar debates sobre a desigualdade de gênero. Em novembro, durante entrevista ao jornal Página 12, o novo presidente adiantou que enviará um projeto de lei ao Parlamento com a proposta de legalizar o aborto.

Os parlamentares argentinos discutiram a questão em 2018. Sob protestos de movimentos feministas, Macri permitira a análise de um projeto que descriminalizava o aborto até a 14ª semana de gestação, mas o Senado rejeitou a iniciativa.

Fernández também anunciou a criação do Ministério da Mulher, da Igualdade e da Diversidade.

“Estou convocando muitas mulheres, algumas estarão na primeira linha e outras na segunda. Definitivamente, acredito que temos que acabar com a discriminação contra a mulher”, disse.

A propósito, a participação de Cristina Kirchner nas decisões do governo é outro enigma. A ex-presidente optou por se distanciar dos holofotes e escolheu Fernández para liderar a chapa, mas a pergunta é qual será seu papel no governo de fato.

O diálogo com o Parlamento também cria expectativas. No Senado, a coalizão é favorável. Por outro lado, dos 257 assentos na Câmara dos Deputados, os kirchneristas obtiveram 120 postos, menos que a maioria. Os desejos e desafios são grandes, mas a Casa Rosada vai precisar de habilidade para negociar.

Últimas notícias

Cartografia Social no Jardim Pantanal sistematiza demandas e debate dívida pública

A Rede Jubileu Sul Brasil realizou, no Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo, mais uma etapa do ciclo de formação com cartografia social,…
Ler mais...

Projetos em avanço acelerado ameaçam direitos e territórios, alerta advogada Magnólia Said

O Congresso Nacional tem dado andamento acelerado a uma série de projetos de lei que representam retrocessos para a democracia, os direitos territoriais, o meio…
Ler mais...

Encontro "Na corda bamba" debate economia para além do capital e alternativas ao neoliberalismo

A Rede Jubileu Sul Brasil realiza entre os dias 3 e 5 de novembro de 2026, na cidade de São Paulo, o encontro "Na corda…
Ler mais...

Argentina | Fernández toma posse e se inspira em Lula contra a pobreza

  • 10 de dezembro de 2019

Por Victo Ohana | Carta Capital

Novo presidente e vice Cristina Kirchner herdam crise socioeconômica de Macri

Alberto Fernández, o novo presidente da Argentina | Foto Fotos Públicas

Vencedores das eleições presidenciais na Argentina em 27 de outubro, Alberto Fernández e Cristina Kirchner tomam posse nesta terça-feira, 10, com o desafio de reverter a grave crise socioeconômica sob a qual vive o país vizinho. Até agora, os peronistas já indicaram que o combate à pobreza deve ser prioridade, mas restam dúvidas sobre qual êxito a nova gestão vai apresentar durante o percurso.

A herança do governo de Maurício Macri é alarmante. Em setembro, o Instituto de Estatística e Censos (Indec) informou que o país bateu recorde no índice de argentinos em estado de pobreza. Em 2019, o número chegou a 35,4%, o equivalente a mais de 15 milhões de pessoas nessa situação, entre os cerca de 45 milhões que vivem no território.

Segundo a Universidade Católica Argentina (UCA), Macri encerra o governo com 40,8% de argentinos abaixo da linha da pobreza, segundo dados divulgados em 5 de dezembro. Em 2018, o número era de 33,6%. É o valor mais alto da década, dez pontos a mais que o índice deixado por Cristina Kirchner em 2015.

Na sexta-feira 6, Fernández apresentou um corpo ministerial com 20 integrantes e afirmou que a redução da pobreza será seu foco de governo. Uma das medidas anunciadas, por exemplo, é o programa “Argentina Sem Fome”, inspirado no “Fome Zero”, carro-chefe dos governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No entanto, para a economista do Instituto Jubileu Sul, Sandra Quintela, as medidas concretas ainda não estão claras para superar a crise.

O que se pode perceber até agora é que o perfil dos ministros do governo Fernández é heterodoxo, corrente econômica contrária à abordagem ortodoxa, ligada às medidas neoliberais e de austeridade. O ministro da Economia, por exemplo, é o jovem Martín Guzmán, de 37 anos, pesquisador que colaborou com o economista Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel.

Para a especialista, a tendência é de ampliação da participação do Estado na economia. Um dos anúncios que ela ressalta é o da criação do Ministério de Desenvolvimento Produtivo, que deve se voltar, segundo ela, para o estímulo de pequenas e médias empresas, contrariando a política do governo anterior em privilegiar lideranças vindas de grandes corporações.

Ainda assim, destaca Sandra, Fernández anda cuidadoso no tema. “Ele está bastante cauteloso. Vamos esperar. O quadro está muito forte de instabilidade”, avalia.

O “bode na sala” é o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A Argentina tem uma dívida de 101 bilhões de dólares com credores internacionais. Dentro desse valor, 56 bilhões de dólares formam a dívida só com o FMI. A quantia foi acertada em 2018, pelo governo Macri, e configurou a maior linha de crédito de todos os tempos oferecida pelo banco.

O dinheiro ainda não foi totalmente entregue pelo FMI. Até agora, o Fundo emprestou 44 bilhões de dólares ao país e, portanto, falta uma parcela de 11 bilhões. Fernández já declarou que não quer receber essa fatia. “Tenho um problemão e vou pedir outros 11 bilhões?”, afirmou em uma entrevista. Seus novos ministros da área econômica defendem reestruturar a dívida, mas o sucesso da negociação não é uma certeza.

A articulação econômica na América Latina também é um mistério. Diante das intensas adversidades com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o futuro do Mercosul é incerto. O bloco é formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – a Venezuela está suspensa e Fernández se encontra isolado ideologicamente entre três presidentes à direita.

O ministro Ernesto Araújo afirmou, na semana passada, no Rio Grande do Sul, que está disposto a tentar uma aproximação quando Fernández se alinhar com os interesses dos países parceiros, mas este cenário ainda é imprevisível.

A própria parceria bilateral entre Brasil e Argentina é uma incógnita. A Argentina foi o 4º país que mais comprou do Brasil entre janeiro e outubro de 2019 e o 3º que mais vendeu, uma parceria estratégica para ambos.

No entanto, Sandra considera que o país vizinho possa realinhar suas parcerias, devido à rivalidade com o presidente brasileiro. A China, vendedora de uma série de produtos que o Brasil também comercializa, já estaria em “sobreaviso”.

Fora do campo econômico, Fernández já mostrou entusiasmado em enfrentar debates sobre a desigualdade de gênero. Em novembro, durante entrevista ao jornal Página 12, o novo presidente adiantou que enviará um projeto de lei ao Parlamento com a proposta de legalizar o aborto.

Os parlamentares argentinos discutiram a questão em 2018. Sob protestos de movimentos feministas, Macri permitira a análise de um projeto que descriminalizava o aborto até a 14ª semana de gestação, mas o Senado rejeitou a iniciativa.

Fernández também anunciou a criação do Ministério da Mulher, da Igualdade e da Diversidade.

“Estou convocando muitas mulheres, algumas estarão na primeira linha e outras na segunda. Definitivamente, acredito que temos que acabar com a discriminação contra a mulher”, disse.

A propósito, a participação de Cristina Kirchner nas decisões do governo é outro enigma. A ex-presidente optou por se distanciar dos holofotes e escolheu Fernández para liderar a chapa, mas a pergunta é qual será seu papel no governo de fato.

O diálogo com o Parlamento também cria expectativas. No Senado, a coalizão é favorável. Por outro lado, dos 257 assentos na Câmara dos Deputados, os kirchneristas obtiveram 120 postos, menos que a maioria. Os desejos e desafios são grandes, mas a Casa Rosada vai precisar de habilidade para negociar.

Últimas notícias

Cartografia Social no Jardim Pantanal sistematiza demandas e debate dívida pública

A Rede Jubileu Sul Brasil realizou, no Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo, mais uma etapa do ciclo de formação com cartografia social,…
Ler mais...

Projetos em avanço acelerado ameaçam direitos e territórios, alerta advogada Magnólia Said

O Congresso Nacional tem dado andamento acelerado a uma série de projetos de lei que representam retrocessos para a democracia, os direitos territoriais, o meio…
Ler mais...

Encontro "Na corda bamba" debate economia para além do capital e alternativas ao neoliberalismo

A Rede Jubileu Sul Brasil realiza entre os dias 3 e 5 de novembro de 2026, na cidade de São Paulo, o encontro "Na corda…
Ler mais...