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A resistência, o movimento e o grito

  • 5 de março de 2018

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma, 02 de fevereiro de 2018

O globo terrestre comporta uma gigantesca floresta de pontos de interrogação. Cada ser humano é, por si só, um ponto de interrogação ambulante. Semelhante interrogação compõe-se de inúmeras perguntas, as quais mergulham suas raízes no contexto histórico de realidades tristes e alegres, trágicas ou cheias de esperança. Nascem do medo às vezes selvagem e desconhecido, oculto no mais íntimo da alma humana; crescem no vórtice de dúvidas e inquietudes que viram do avesso “verdades e certezas” que pareciam inexpugnáveis; e amadurecem na ruptura de relações outrora sólidos e que, improvisamente, de derretem como cera exposta ao fogo da frenética velocidade contemporânea.

As perguntas se erguem mais teimosas e estridentes, todavia, a partir de um sistema político e econômico marcado pela assimetria que divide continentes, países e regiões; a partir de um cotidiano de injustiças e desigualdades que abrem um abismo entre pobreza e riqueza; a partir de um solo onde a violência e a guerra banham de sangue a terra natal. Assimetria, pobreza e violência deslocam multidões de migrantes, prófugos, refugiados: gente sem pátria, batida de todos lados pelo vento furioso do rechaço e das adversidades. Perguntas estampadas a ferro e fogo no rosto assustado de crianças inocentes, no olhar apagado de jovens em fuga, nos passos e incertos de homens e mulheres que perderam o horizonte. Enfim, perguntas que, em coro ou solitariamente, sobem a um céu aparentemente sombrio, nebuloso, distante, surdo e indiferente ao destino dos “vermes” que rastejam sobre a face da terra. Mas que, simultaneamente, no solo deserto e infértil de crises prolongadas, abrem sulcos inovadores para experimentos históricos alternativos.

O medo e a dúvida, a inquietude e a interrogação existencial, a consciência dos desequilíbrios sociais, se e quando combinadas e entrelaçadas, representam o primeiro passo para fertilizar o solo ressequido de toda e qualquer forma de crise. Desde o momento que a pergunta se ergue em meio à devastação, à fuga e aos escombros, é sinal que, embora de maneira inconsciente, já existem vislumbres de uma resposta. Toda pergunta, implícita ou explicitamente, extrai sua razão de ser dos fragmentos de uma resposta imperceptível, ainda em fase de fermentação. Seria absurdo pensar em uma pergunta suspensa no vazio total e absoluto. Em meio aos “sinais dos tempos”, uma profunda intuição é capaz de engendrar e dar à luz os vislumbres de resposta. Raios ainda tênues e imprecisos, mas que preanunciam uma nova aurora que faz enxugar as lágrimas, levantar a cabeça e, com passos titubeantes, caminhar  em direção à encruzilhada. Esta última constitui o lado positivo da crise. Primeiro vem o pranto negativo que tudo obscurece e cega, fazendo dobrar a espinha dorsal. Depois toma-lhe o lugar um riso tíbio e tímido, sem dúvida, mas que, como a protagonista da obra E o vento levou, da escritora norte-amerticana Margaret Mitchell, noz faz dizer com redobrada esperança: “amanhã é um outro dia”!

Nisso fundamenta-se o dinamismo e a dialética da resistência, da organização, do grito e do movimento. De fato a crise – pessoal, institucional, cultural ou civilizatória – esconde e gesta a semente viva que contém já a árvore em sua totalidade: raízes, tronco e ramos, folhas, flores e frutos. Nenhum projeto social inicia sua trajetória histórica a partir de uma tabula rasa. Na passagem de uma margem à outra das mudanças sociais paradigmáticas, ruptura e continuidade constituem duas faces da mesma moeda. Na montanha de escombros, ruínas e cinzas do projeto anterior é possível garimpar os fragmentos que serivirão de tijolos ao novo edifício. E este último levanta seus alicerces e sua construção com as pedras espalhadas pelo solo do prédio que acabou de ruir. Daí a importância da memória como antídoto da indiferença, por uma parte, e da arrogância, por outra. Resgatar as linhas sinuosas e contraditórias da história é a melhor forma de não repetir seus erros, bem como para aprender suas lições.

Assim marcham os verdadeiros profetas e protagonistas do amanhã. Com o olhar no retrovisor da história e, ao mesmo tempo, com o pé no acelerador das potencialidades organizativas. Somente essas forças vivas, canalizadas contemporaneamente pela fé e pela ação pastoral-social-política, serão capazes de encontrar respostas às perguntas e aos clamores que brotam do chão em forma de perguntas.

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As perguntas se erguem mais teimosas e estridentes, todavia, a partir de um sistema político e econômico marcado pela assimetria que divide continentes, países e regiões; a partir de um cotidiano de injustiças e desigualdades que abrem um abismo entre pobreza e riqueza; a partir de um solo onde a violência e a guerra banham de sangue a terra natal. Assimetria, pobreza e violência deslocam multidões de migrantes, prófugos, refugiados: gente sem pátria, batida de todos lados pelo vento furioso do rechaço e das adversidades. Perguntas estampadas a ferro e fogo no rosto assustado de crianças inocentes, no olhar apagado de jovens em fuga, nos passos e incertos de homens e mulheres que perderam o horizonte. Enfim, perguntas que, em coro ou solitariamente, sobem a um céu aparentemente sombrio, nebuloso, distante, surdo e indiferente ao destino dos “vermes” que rastejam sobre a face da terra. Mas que, simultaneamente, no solo deserto e infértil de crises prolongadas, abrem sulcos inovadores para experimentos históricos alternativos.

O medo e a dúvida, a inquietude e a interrogação existencial, a consciência dos desequilíbrios sociais, se e quando combinadas e entrelaçadas, representam o primeiro passo para fertilizar o solo ressequido de toda e qualquer forma de crise. Desde o momento que a pergunta se ergue em meio à devastação, à fuga e aos escombros, é sinal que, embora de maneira inconsciente, já existem vislumbres de uma resposta. Toda pergunta, implícita ou explicitamente, extrai sua razão de ser dos fragmentos de uma resposta imperceptível, ainda em fase de fermentação. Seria absurdo pensar em uma pergunta suspensa no vazio total e absoluto. Em meio aos “sinais dos tempos”, uma profunda intuição é capaz de engendrar e dar à luz os vislumbres de resposta. Raios ainda tênues e imprecisos, mas que preanunciam uma nova aurora que faz enxugar as lágrimas, levantar a cabeça e, com passos titubeantes, caminhar  em direção à encruzilhada. Esta última constitui o lado positivo da crise. Primeiro vem o pranto negativo que tudo obscurece e cega, fazendo dobrar a espinha dorsal. Depois toma-lhe o lugar um riso tíbio e tímido, sem dúvida, mas que, como a protagonista da obra E o vento levou, da escritora norte-amerticana Margaret Mitchell, noz faz dizer com redobrada esperança: “amanhã é um outro dia”!

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