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32º Grito dos Excluídos e Excluídas articula denúncias contra o feminicídio, déficit de moradia e soberania

  • 11 de junho de 2026

Pôster do 32º Grito dos Excluídos e Excluídas, de 2026. A imagem central é uma mulher negra sorridente levantando uma bandeira verde enquanto segura uma criança no colo que segura uma borboleta. Ao fundo, uma multidão com cartazes. O texto principal destaca: "Vida em primeiro lugar!", "Na defesa da terra, da paz e da moradia" e "Erguemos a voz: mulheres vivas e soberania".

Já se ouve o eco do 32° Grito dos Excluídos e Excluídas. Este ano, o movimento ecoa sob o lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”, mantendo hasteada a sua bandeira permanente: “Vida em Primeiro Lugar!”. A tradicional manifestação popular de 7 de setembro reverbera, nas ruas, as dores e as denúncias contra o feminicídio — a violência extrema que ceifa vidas femininas pelo fato de serem mulheres. Mais do que um ato de indignação, a mobilização deste ano conecta as lutas comunitárias brasileiras a um cenário de forte tensionamento geopolítico global, clamando por paz, reforma agrária e pelo fim do déficit habitacional.

O movimento estrutura suas prioridades em cinco eixos fundamentais que alicerçam os protestos: terra, paz, moradia, mulheres e soberania/democracia.

É uma construção contínua. Um dos clamores da edição de 2025, por exemplo, ainda reverbera nos corredores do Congresso Nacional: a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6x1, recentemente aprovada na Câmara dos Deputados e que agora tramita no Senado Federal. Em 2026, o movimento nacional centraliza o debate nas populações em situação de maior vulnerabilidade, lançando um olhar contundente sobre a escalada da violência e as violações de direitos.

Três mulheres em protesto, com destaque para a central que segura cartaz em português: "Homicídios: responsáveis por quase 40% das mortes de jovens no Brasil. E justo isso?"

Em sintonia com as lutas comunitárias, a edição de 2026 conecta o combate à violência de gênero, déficit habitacional e o complexo cenário geopolítico em defesa da soberania. Foto: Luciney Martins

A chaga do feminicídio e a defesa da Vida

Os números dão forma à urgência. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontaram mais de 350 registros de feminicídio no Brasil apenas entre janeiro e março de 2026. A estatística assustadora desenha uma média de quatro mulheres mortas por dia no período — o que significa que, a cada seis horas, uma vida feminina é ceifada no país.

“Não podemos seguir com esse ódio, com essa forma de ver a vida e o corpo das mulheres como algo insignificante”

A escolha do lema, por si só, denuncia esse cenário alarmante. Em 2025, o país já havia registrado mais de 1.500 feminicídios. A pauta dialoga diretamente com a conjuntura política e econômica atual, caminhando em sintonia com a Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e com as demandas históricas dos movimentos sociais por direitos básicos.

Essa preocupação com a dignidade e a sobrevivência das mulheres ecoa também a nível mundial. Recentemente, em sua viagem apostólica à Espanha, o Papa Leão XIV vivenciou um momento marcante de diálogo com a juventude. Após escutar o testemunho comovente de uma jovem que narrou sua trágica infância, marcada por uma tentativa de feminicídio dentro da própria família, o Pontífice foi categórico ao abordar essa ferida aberta. Quanto à chaga do feminicídio, o Papa afirmou: “Se a violência existe, se o egoísmo triunfa, se até o amor entre familiares se transforma em ódio, devemos nos questionar sobre a dinâmica da nossa sociedade, a cultura do individualismo, a tentação da violência, e não sobre Deus.”

Essa preocupação com a dignidade e a sobrevivência das mulheres ecoa também a nível mundial. Recentemente, em sua viagem apostólica à Espanha, o Papa Leão XIV vivenciou um momento marcante de diálogo com a juventude. Após escutar o testemunho comovente de uma jovem que narrou sua trágica infância, marcada por uma tentativa de feminicídio dentro da própria família, o Pontífice foi categórico ao abordar essa ferida aberta. Quanto à chaga do feminicídio, o Papa afirmou:

“Se a violência existe, se o egoísmo triunfa, se até o amor entre familiares se transforma em ódio, devemos nos questionar sobre a dinâmica da nossa sociedade, a cultura do individualismo, a tentação da violência, e não sobre Deus.”

escreva o texto alternativo curto da imagem 3:55 PM Manifestação LGBTQI+ com pessoas marchando e carregando bandeiras. Destaque para pessoa com faixa colorida que diz "JUSTIÇA" em português, em protesto ou celebração.

257 pessoas da comunidade LGBTQIA+ foram vítimas de mortes violentas em 2025. Foto: Claudia Pereira

Essa linha de defesa abarca, de forma interseccional, a população LGBTQIAPN+. Há 14 anos o Brasil permanece no topo do ranking mundial de violência contra pessoas trans. Em 2025, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) registrou 77 assassinatos de travestis e mulheres trans, enquanto o Grupo Gay da Bahia contabilizou 257 mortes violentas na comunidade em geral.

“Não podemos seguir com esse ódio, com essa forma de ver a vida e o corpo das mulheres como algo insignificante”, ressalta a socióloga e secretária executiva da Rede Jubileu Sul Brasil, Rosilene Wansetto. Em entrevista à Cepast, ela pontuou que o eixo deste ano busca sensibilizar a opinião pública sobre a urgência de salvar vidas, mostrando que a violência de gênero atravessa diretamente as lutas por teto, terra e trabalho.

“Vivemos uma epidemia de misoginia, de feminicídios, de violência de gênero que afeta o cotidiano das mulheres. O Grito busca fortalecer a denúncia para sensibilizar a sociedade perante essa realidade. É urgente e necessário defender a vida das mulheres”, enfatizou a socióloga.

Para Rosilene, um dos pilares do Grito dos Excluídos neste ano é o fortalecimento de políticas públicas voltadas aos direitos femininos e ao combate à violência em todas as suas formas, desde a violência obstétrica até a garantia de condições dignas de existência.

“Necessidade de pensar políticas públicas para as mulheres, feitas a partir delas e com elas"

A socióloga destacou a centralidade socioeconômica da mulher no país. "Mais de 50% da população brasileira é feminina. Essas mulheres são chefes de família, responsáveis pelo sustento, pelo cuidado com a casa e com os filhos", pontuou. Diante disso, o movimento conecta a luta pela sobrevivência e pela segurança alimentar ao tema da Campanha da Fraternidade, que debate o direito à habitação sob o lema 'Ele veio morar entre nós'. "Que esse Deus, Pai e Mãe, nos fortaleça na defesa da vida das mulheres", expressou.

Como ação externa à Igreja, o Grito visa mobilizar a opinião pública e pressionar gestores — prefeitos, governadores e parlamentares — a adotarem medidas imediatas. "Precisamos sensibilizar os tomadores de decisão sobre a necessidade de pensar políticas públicas para as mulheres, feitas a partir delas e com elas", concluiu. As prioridades passam pela segurança no trajeto para o trabalho, direito à moradia e infraestrutura de apoio familiar, como a ampliação de vagas em creches próximas de casa.

“O Brasil tem um peso imenso na geopolítica e na economia, abrigando a maior reserva de terras raras do mundo depois da China, além de abundantes recursos de água doce e petróleo"

Manifestação na Avenida Paulista com grande faixa colorida estendida no asfalto, pessoas carregando bandeiras e placas em evento coletivo urbano.

Manifestação na cidade de São Paulo em defesa da democracia. Foto: Luciney Martins

Soberania, democracia e geopolítica

Desde o seu nascimento, o Grito levanta a bandeira contra o imperialismo. Diante da política externa dos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump, o movimento classifica como grave a intervenção norte-americana na América Latina, a exemplo das tensões recentes a Venezuela.

A relação entre soberania e democracia constitui outro eixo fundamental da 32ª edição. O debate ganha urgência diante das novas estratégias de interferência na política interna brasileira, que utilizam o pretexto do combate ao crime organizado para monitorar mecanismos financeiros nacionais, como o Pix, e classificar facções locais como organizações terroristas, uma engrenagem que se soma à ascensão do neofascismo na América Latina.

Para Daiane Hohn, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e integrante da coordenação Nacional do Grito, o interesse internacional no processo eleitoral do país é estratégico. "O imperialismo norte-americano entrou com força nas eleições brasileiras para tentar conter o declínio de sua hegemonia na região. O Brasil tem um peso imenso na geopolítica e na economia, abrigando a maior reserva de terras raras do mundo depois da China, além de abundantes recursos de água doce e petróleo", explicou. De acordo com a dirigente, a conjuntura impõe uma divisão clara entre "os defensores da nação e os inimigos da pátria".

Diante dessa complexidade, Daiane defende que o papel das organizações populares, sindicatos e organismos da Igreja vinculados ao Grito deve ser o de conscientizar a população. "Saber contra quem lutamos é o primeiro passo. Nossa tarefa é apontar esses culpados por meio de debates, encontros e seminários, construindo um projeto onde o povo de fato decida os rumos do país", afirmou.

Como estratégia prática para o período eleitoral, a coordenadora destacou o fortalecimento do trabalho de base e a criação de Brigadas de Agitação e Propaganda para dialogar diretamente com a sociedade nas ruas. "Precisamos reconstruir a confiança e apontar soluções juntos. Esse novo horizonte civilizatório é necessário para que a esperança seja nossa outra vez. Pátria livre, venceremos", concluiu.

Além das denúncias sobre a violência de gênero e a soberania, a edição deste ano trará outros temas urgentes ao debate:

Déficit habitacional e gentrificação

Os organizadores reforçam que a moradia é a porta de entrada para os demais direitos. Dados cruzados do Censo 2022 do IBGE revelam que o Brasil possui 11,4 milhões de domicílios vagos (cerca de 13% do total), um número quase duas vezes maior que o próprio déficit habitacional do país, estimado em 6 milhões de moradias. A crise afeta majoritariamente as mulheres (que chefiam 51% dos lares nacionais), a população preta e parda (66,3% dos atingidos) e famílias com renda de até dois salários-mínimos (74,5%).

Conflitos no campo e meio ambiente

Embora os registros gerais de conflitos no campo tenham caído 28% em 2025 (somando 1.593 ocorrências), o número de assassinatos agrários dobrou, subindo de 13 para 26 casos, com forte concentração na Região Norte. A expansão predatória do agronegócio e da mineração sobre territórios indígenas e quilombolas é apontada como motor de desmatamento e contaminação hídrica, agravada por desastres climáticos recentes. Além disso, ações de fiscalização resgataram 1.991 pessoas em situação de trabalho escravo rural em 2025, enquanto o trabalho escravo urbano saltou 60%, totalizando 1.007 resgates.

Romaria em Aparecida e mobilização nacional

Paralelamente às manifestações nas capitais e periferias, o dia 7 de setembro acolherá a 39ª Romaria das Trabalhadoras e Trabalhadores no Santuário Nacional de Aparecida (SP). Sob o lema “Com a Mãe Aparecida, a classe trabalhadora reza e luta por vida digna, com Justiça, Trabalho e Moradia”, o evento — organizado pela Pastoral Operária e pelo Serviço Pastoral dos Migrantes — deve reunir milhares de fiéis vindos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.

Olhando também para os fluxos migratórios, o movimento lembra que o Brasil abriga hoje cerca de 2 milhões de imigrantes internacionais, com destaque para a comunidade de 680 mil venezuelanos residentes, segundo dados divulgados no final de abril.

Construção coletiva

Diferente de um ato isolado, o Grito é um processo de construção coletiva que ocorre ao longo de todo o ano. A definição das diretrizes é fruto de debates descentralizados promovidos por uma rede de articuladores em todas as regiões do país.

Para a edição de 2026, já foram realizados dois encontros nacionais em formato virtual. O cronograma oficial de preparação prevê novas reuniões para as seguintes datas:

4 de julho
1º de agosto
31 de outubro (etapa voltada para a avaliação dos resultados e planejamento da próxima edição)

A caminhada histórica do Grito dos Excluídos e Excluídas

Nascido em 1994 a partir da 2ª Semana Social Brasileira da CNBB, o Grito dos Excluídos realizou sua primeira manifestação nacional no dia 7 de setembro de 1995. A escolha do Dia da Pátria foi intencional: criar um contraponto ao Grito da Independência oficial.

O objetivo histórico do movimento é propor a superação de um patriotismo passivo em prol de uma cidadania ativa, transformando a data festiva em um espaço de consciência política, reflexão e reivindicação por justiça social e soberania nacional. Em 1996, a iniciativa foi oficialmente integrada às ações da CNBB durante sua Assembleia Geral.

Atualmente, a Coordenação Nacional do Grito é composta por um amplo espectro de organizações ecumênicas e sindicais, incluindo pastorais sociais da Igreja Católica (como a Pastoral do Povo de Rua, Pastoral da Terra e Pastoral Operária), além de movimentos populares de relevância nacional, como o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST), a Central dos Movimentos Populares (CMP) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

Serviço:
Os materiais de divulgação — como cartaz, jornal, roteiro de celebração, hino do Grito e camisetas — podem ser solicitados à Secretaria Nacional do Grito pelo e-mail: gritonacional@gmail.com ou pelo telefone/WhatsApp: (11) 94761-4232.

Site do Grito: www.gritodosexcluidos.com
Perfil do Instagram: @grito.dos.excluidos

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Já se ouve o eco do 32° Grito dos Excluídos e Excluídas. Este ano, o movimento ecoa sob o lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”, mantendo hasteada a sua bandeira permanente: “Vida em Primeiro Lugar!”. A tradicional manifestação popular de 7 de setembro reverbera, nas ruas, as dores e as denúncias contra o feminicídio — a violência extrema que ceifa vidas femininas pelo fato de serem mulheres. Mais do que um ato de indignação, a mobilização deste ano conecta as lutas comunitárias brasileiras a um cenário de forte tensionamento geopolítico global, clamando por paz, reforma agrária e pelo fim do déficit habitacional.

O movimento estrutura suas prioridades em cinco eixos fundamentais que alicerçam os protestos: terra, paz, moradia, mulheres e soberania/democracia.

É uma construção contínua. Um dos clamores da edição de 2025, por exemplo, ainda reverbera nos corredores do Congresso Nacional: a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6x1, recentemente aprovada na Câmara dos Deputados e que agora tramita no Senado Federal. Em 2026, o movimento nacional centraliza o debate nas populações em situação de maior vulnerabilidade, lançando um olhar contundente sobre a escalada da violência e as violações de direitos.

Três mulheres em protesto, com destaque para a central que segura cartaz em português: "Homicídios: responsáveis por quase 40% das mortes de jovens no Brasil. E justo isso?"

Em sintonia com as lutas comunitárias, a edição de 2026 conecta o combate à violência de gênero, déficit habitacional e o complexo cenário geopolítico em defesa da soberania. Foto: Luciney Martins

A chaga do feminicídio e a defesa da Vida

Os números dão forma à urgência. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontaram mais de 350 registros de feminicídio no Brasil apenas entre janeiro e março de 2026. A estatística assustadora desenha uma média de quatro mulheres mortas por dia no período — o que significa que, a cada seis horas, uma vida feminina é ceifada no país.

“Não podemos seguir com esse ódio, com essa forma de ver a vida e o corpo das mulheres como algo insignificante”

A escolha do lema, por si só, denuncia esse cenário alarmante. Em 2025, o país já havia registrado mais de 1.500 feminicídios. A pauta dialoga diretamente com a conjuntura política e econômica atual, caminhando em sintonia com a Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e com as demandas históricas dos movimentos sociais por direitos básicos.

Essa preocupação com a dignidade e a sobrevivência das mulheres ecoa também a nível mundial. Recentemente, em sua viagem apostólica à Espanha, o Papa Leão XIV vivenciou um momento marcante de diálogo com a juventude. Após escutar o testemunho comovente de uma jovem que narrou sua trágica infância, marcada por uma tentativa de feminicídio dentro da própria família, o Pontífice foi categórico ao abordar essa ferida aberta. Quanto à chaga do feminicídio, o Papa afirmou: “Se a violência existe, se o egoísmo triunfa, se até o amor entre familiares se transforma em ódio, devemos nos questionar sobre a dinâmica da nossa sociedade, a cultura do individualismo, a tentação da violência, e não sobre Deus.”

Essa preocupação com a dignidade e a sobrevivência das mulheres ecoa também a nível mundial. Recentemente, em sua viagem apostólica à Espanha, o Papa Leão XIV vivenciou um momento marcante de diálogo com a juventude. Após escutar o testemunho comovente de uma jovem que narrou sua trágica infância, marcada por uma tentativa de feminicídio dentro da própria família, o Pontífice foi categórico ao abordar essa ferida aberta. Quanto à chaga do feminicídio, o Papa afirmou:

“Se a violência existe, se o egoísmo triunfa, se até o amor entre familiares se transforma em ódio, devemos nos questionar sobre a dinâmica da nossa sociedade, a cultura do individualismo, a tentação da violência, e não sobre Deus.”

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Para Rosilene, um dos pilares do Grito dos Excluídos neste ano é o fortalecimento de políticas públicas voltadas aos direitos femininos e ao combate à violência em todas as suas formas, desde a violência obstétrica até a garantia de condições dignas de existência.

“Necessidade de pensar políticas públicas para as mulheres, feitas a partir delas e com elas"

A socióloga destacou a centralidade socioeconômica da mulher no país. "Mais de 50% da população brasileira é feminina. Essas mulheres são chefes de família, responsáveis pelo sustento, pelo cuidado com a casa e com os filhos", pontuou. Diante disso, o movimento conecta a luta pela sobrevivência e pela segurança alimentar ao tema da Campanha da Fraternidade, que debate o direito à habitação sob o lema 'Ele veio morar entre nós'. "Que esse Deus, Pai e Mãe, nos fortaleça na defesa da vida das mulheres", expressou.

Como ação externa à Igreja, o Grito visa mobilizar a opinião pública e pressionar gestores — prefeitos, governadores e parlamentares — a adotarem medidas imediatas. "Precisamos sensibilizar os tomadores de decisão sobre a necessidade de pensar políticas públicas para as mulheres, feitas a partir delas e com elas", concluiu. As prioridades passam pela segurança no trajeto para o trabalho, direito à moradia e infraestrutura de apoio familiar, como a ampliação de vagas em creches próximas de casa.

“O Brasil tem um peso imenso na geopolítica e na economia, abrigando a maior reserva de terras raras do mundo depois da China, além de abundantes recursos de água doce e petróleo"

Manifestação na Avenida Paulista com grande faixa colorida estendida no asfalto, pessoas carregando bandeiras e placas em evento coletivo urbano.

Manifestação na cidade de São Paulo em defesa da democracia. Foto: Luciney Martins

Soberania, democracia e geopolítica

Desde o seu nascimento, o Grito levanta a bandeira contra o imperialismo. Diante da política externa dos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump, o movimento classifica como grave a intervenção norte-americana na América Latina, a exemplo das tensões recentes a Venezuela.

A relação entre soberania e democracia constitui outro eixo fundamental da 32ª edição. O debate ganha urgência diante das novas estratégias de interferência na política interna brasileira, que utilizam o pretexto do combate ao crime organizado para monitorar mecanismos financeiros nacionais, como o Pix, e classificar facções locais como organizações terroristas, uma engrenagem que se soma à ascensão do neofascismo na América Latina.

Para Daiane Hohn, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e integrante da coordenação Nacional do Grito, o interesse internacional no processo eleitoral do país é estratégico. "O imperialismo norte-americano entrou com força nas eleições brasileiras para tentar conter o declínio de sua hegemonia na região. O Brasil tem um peso imenso na geopolítica e na economia, abrigando a maior reserva de terras raras do mundo depois da China, além de abundantes recursos de água doce e petróleo", explicou. De acordo com a dirigente, a conjuntura impõe uma divisão clara entre "os defensores da nação e os inimigos da pátria".

Diante dessa complexidade, Daiane defende que o papel das organizações populares, sindicatos e organismos da Igreja vinculados ao Grito deve ser o de conscientizar a população. "Saber contra quem lutamos é o primeiro passo. Nossa tarefa é apontar esses culpados por meio de debates, encontros e seminários, construindo um projeto onde o povo de fato decida os rumos do país", afirmou.

Como estratégia prática para o período eleitoral, a coordenadora destacou o fortalecimento do trabalho de base e a criação de Brigadas de Agitação e Propaganda para dialogar diretamente com a sociedade nas ruas. "Precisamos reconstruir a confiança e apontar soluções juntos. Esse novo horizonte civilizatório é necessário para que a esperança seja nossa outra vez. Pátria livre, venceremos", concluiu.

Além das denúncias sobre a violência de gênero e a soberania, a edição deste ano trará outros temas urgentes ao debate:

Déficit habitacional e gentrificação

Os organizadores reforçam que a moradia é a porta de entrada para os demais direitos. Dados cruzados do Censo 2022 do IBGE revelam que o Brasil possui 11,4 milhões de domicílios vagos (cerca de 13% do total), um número quase duas vezes maior que o próprio déficit habitacional do país, estimado em 6 milhões de moradias. A crise afeta majoritariamente as mulheres (que chefiam 51% dos lares nacionais), a população preta e parda (66,3% dos atingidos) e famílias com renda de até dois salários-mínimos (74,5%).

Conflitos no campo e meio ambiente

Embora os registros gerais de conflitos no campo tenham caído 28% em 2025 (somando 1.593 ocorrências), o número de assassinatos agrários dobrou, subindo de 13 para 26 casos, com forte concentração na Região Norte. A expansão predatória do agronegócio e da mineração sobre territórios indígenas e quilombolas é apontada como motor de desmatamento e contaminação hídrica, agravada por desastres climáticos recentes. Além disso, ações de fiscalização resgataram 1.991 pessoas em situação de trabalho escravo rural em 2025, enquanto o trabalho escravo urbano saltou 60%, totalizando 1.007 resgates.

Romaria em Aparecida e mobilização nacional

Paralelamente às manifestações nas capitais e periferias, o dia 7 de setembro acolherá a 39ª Romaria das Trabalhadoras e Trabalhadores no Santuário Nacional de Aparecida (SP). Sob o lema “Com a Mãe Aparecida, a classe trabalhadora reza e luta por vida digna, com Justiça, Trabalho e Moradia”, o evento — organizado pela Pastoral Operária e pelo Serviço Pastoral dos Migrantes — deve reunir milhares de fiéis vindos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.

Olhando também para os fluxos migratórios, o movimento lembra que o Brasil abriga hoje cerca de 2 milhões de imigrantes internacionais, com destaque para a comunidade de 680 mil venezuelanos residentes, segundo dados divulgados no final de abril.

Construção coletiva

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Para a edição de 2026, já foram realizados dois encontros nacionais em formato virtual. O cronograma oficial de preparação prevê novas reuniões para as seguintes datas:

4 de julho
1º de agosto
31 de outubro (etapa voltada para a avaliação dos resultados e planejamento da próxima edição)

A caminhada histórica do Grito dos Excluídos e Excluídas

Nascido em 1994 a partir da 2ª Semana Social Brasileira da CNBB, o Grito dos Excluídos realizou sua primeira manifestação nacional no dia 7 de setembro de 1995. A escolha do Dia da Pátria foi intencional: criar um contraponto ao Grito da Independência oficial.

O objetivo histórico do movimento é propor a superação de um patriotismo passivo em prol de uma cidadania ativa, transformando a data festiva em um espaço de consciência política, reflexão e reivindicação por justiça social e soberania nacional. Em 1996, a iniciativa foi oficialmente integrada às ações da CNBB durante sua Assembleia Geral.

Atualmente, a Coordenação Nacional do Grito é composta por um amplo espectro de organizações ecumênicas e sindicais, incluindo pastorais sociais da Igreja Católica (como a Pastoral do Povo de Rua, Pastoral da Terra e Pastoral Operária), além de movimentos populares de relevância nacional, como o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST), a Central dos Movimentos Populares (CMP) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

Serviço:
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