Por
André Shalders, da BBC Brasil
Se comparados com os vencimentos de
juízes em outros países, porém, os contracheques do
Judiciário brasileiro estão longe de ser modestos. Um estudo de 2016 da
Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça (
Cepej, na sigla em francês) mostra que, em 2014, um juiz da
Suprema Corte dos países do bloco ganhava 4,5 vezes mais que a
renda média de um trabalhador europeu. No
Brasil, o salário-base de R$ 33,7 mil do
Supremo Tribunal Federal corresponde a 16 vezes a renda média de um trabalhador do país (que era de R$ 2.154 no fim de 2017).
Em 2014, um magistrado da
Suprema Corte de um país da
União Europeia recebia, em média, 65,7 mil euros por ano. Ao câmbio de hoje, o valor equivaleria a cerca de R$ 287 mil - ou R$ 23,9 mil mensais.
Segundo a última edição do relatório
Justiça em Números, produzido pelo
Conselho Nacional de Justiça (
CNJ), o
Brasil tem hoje cerca de 18 mil magistrados (juízes, desembargadores, ministros). Eles custam cada um, em média, R$ 47,7 mil por mês - incluindo salários, benefícios e auxílios. O custo de um magistrado é portanto quase 20 vezes a
renda média do
trabalhador brasileiro.
Se os salários no
STF forem reajustados para R$ 39,3 mil, passarão a ser 39 vezes maiores que o
salário mínimo previsto para 2019 - de R$ 998.
Os ganhos dos demais magistrados em todo o país estão vinculados aos rendimentos dos ministros do
STF. Só no
Judiciário, o impacto total será de cerca de R$ 717 milhões no ano que vem (sendo R$ 2,7 milhões no STF). No caso da magistratura, o aumento é automático - o reajuste para os ministros é repassado para todos os demais.
Além disso, os
salários dos ministros também estabelecem o chamado
Teto Constitucional, que é o valor máximo que pode ser recebido pelos servidores dos três poderes (Judiciário, Legislativo e Executivo). Se o valor do teto sobe, há a possibilidade de outras carreiras, fora do judiciário, pedirem aumento também. Mas, neste caso, o aumento não é automático.
"O efeito é chamado vinculativo, porque a
Constituição determina que que o subsídio dos ministros dos tribunais superiores (
STM,
STF,
STJ,
TSE etc) seja de 95% do subsídio do
STF, e o mesmo ocorre com outras categorias. Este aumento é automático, e é a isto que se chama de 'efeito cascata'. Há uma hierarquia clara", diz a advogada constitucionalista
Vera Chemim.
Nos
Tribunais de Justiça dos Estados, o vencimento dos desembargadores é, teoricamente, de 90,2% daquele dos ministros do
STF, ou R$ 30,4 mil. Em alguns Estados, o aumento é automático. Em outros, depende de autorização em lei local.
Há ainda uma outra forma pela qual o reajuste do
STF impacta as
contas públicas: em várias carreiras, há servidores que ganham mais que o teto constitucional. Seus salários sofrem o chamado "abate teto". Se o teto aumentar, os salários também sobem.
O que acontece agora?
A proposta orçamentária do
Supremo Tribunal Federal será enviada pelo tribunal ao
Ministério do Planejamento (
MPOG), a quem cabe reunir os estudos enviados pelos diversos órgãos. No dia 30 de agosto, o Planejamento enviará o projeto para a
Comissão Mista de Orçamento (
CMO) do
Congresso Nacional, que analisará o tema e o levará a votação. Se aprovado, os
ministros do STF poderão se conceder o aumento em 2019.
A reunião desta quarta-feira aconteceu no gabinete da ministra
Cármen Lúcia. Ela própria era contrária à inclusão do
reajuste, e votou contra o aumento. Também ficaram contra os ministros
Celso de Mello,
Rosa Weber e
Edson Fachin. Ficaram favoráveis ao aumento os ministros
Ricardo Lewandowski,
Gilmar Mendes,
Dias Toffoli,
Marco Aurélio,
Luiz Fux e
Alexandre de Moraes.
O
orçamento de 2019 será feito segundo a regra estabelecida pela chamada
PEC do Teto - ou seja, as despesas não podem crescer mais que a inflação do ano anterior. No caso do
STF, estima-se que os R$ 2,7 milhões a mais gastos com salários poderão ser cortados de outras áreas - como a
TV Justiça, por exemplo. Mas ninguém sabe se o mesmo poderá ser feito nos demais tribunais.
"Para várias carreiras, o teto virou quase que o piso. Haverá efeito cascata no judiciário estadual, em carreiras do
Executivo, e tudo isso deverá ser levado em consideração na peça orçamentária. Há que se lembrar que o país está acumulando déficits e aumentando sua dívida há cinco anos", diz à
BBC News Brasil deputado
Rogério Marinho(
PSDB-RN), que será o relator da área de Judiciário no
Orçamento de 2019.
O professor da UnB e especialista em administração pública
José Matias-Pereira lembra que não há mágica no
Orçamento. "Para conceder aumentos ou
reajustes de salários, é preciso encontrar recursos para garantir esse reajuste. E na verdade há dois caminhos (se não houver como remanejar dentro do próprio órgão): ou retira-se dinheiro dos investimentos e de outras áreas, ou aumenta-se imposto", diz ele.
"O que causa preocupação é que estamos em ano eleitoral. O próximo presidente vai encontrar um cenário fiscal difícil, que exigirá num primeiro momento
medidas de austeridade. Veremos o governo, ao mesmo em que exige que a sociedade aperte o cinto de um lado, concedendo reajuste para servidores do outro", diz ele.
No
STF, porém, prevaleceu a argumentação de que os magistrados estão sem reajuste há quatro anos - o último reajuste foi em 2014, quando o teto constitucional passou de R$ 29,4 mil para os R$ 33,7 mil atuais.
Em fevereiro deste ano, várias entidades representativas como a
Associação dos Juízes Federais (
Ajufe) e a
Associação dos Magistrados Brasileiros (
AMB) formularam uma carta à presidente do STF,
Cármen Lúcia, pedindo o reajuste. A argumentação era de que a inflação acumulada desde o último reajuste é de cerca de 40% - o que estaria corroendo os salários dos profissionais.
Brasil gasta mais com Judiciário que países ricos
Os dados mais recentes da
Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça(
Cepej) mostram que o
Brasil não só paga a seus juízes mais que países europeus, mas o
poder judiciário brasileiro também é mais caro que o destes países, considerando o tamanho das nossas economias. De acordo com um levantamento de 2017 da entidade, em nenhum país europeu o gasto com o judiciário ultrapassou 0,7% do
Produto Interno Bruto (
PIB), em 2015.
No
Brasil, o relatório
Justiça em Números informa que, em 2016, o
Judiciárioconsumiu o equivalente a 1,4% do PIB do país - ou R$ 84,8 bilhões, em valores da época.
Desses R$ 84 bilhões, quase tudo (89%) foram gastos com pessoal, inclusive pensões e aposentadorias. Em termos de custo por pessoa, os magistrados mais caros são os da
Justiça Federal, com um custo de R$ 50,8 mil por ano.