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Papa chama à construção de uma economia que faz viver, que inclui e humaniza

  • 11 de dezembro de 2019

Em março de 2020, papa Francisco se reúne com jovens economistas em Assis para construir um pacto global por mudanças econômicas

capa da revista Palabra

Por comunicação | Rede Jubileu Sul Brasil

É possível pensar em “uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da Criação e não a depreda”? Segundo o papa Francisco sim e ele está convidando os jovens economistas do mundo a construir alternativas. O encontro que papa Francisco propõe para tal, será em Assis, na Itália, terra de São Francisco, como diz frei Betto, o pioneiro na crítica ao capitalismo e aliado aos mais pobres.

O grande evento que quer propor um ‘pacto’ para mudar a atual economia e dar alma à economia do amanhã, acontecerá de 26 a 28 de março de 2020, e nomes os prêmios Nobel Muhammad Yunus, conhecido como “o banqueiro dos pobres”, e Amartya Sen, professor de filosofia e economia em Harvard (EUA) e Cambridge (Reino Unido) já confirmaram presença. Por aqui, em terras menos franciscanas, o processo já começou. Em novembro, a Articulação Brasileira da Economia de Francisco realizou um Seminário Nacional Para a Economia de Francisco. Ele aconteceu na PUC-SP e contou coma participação de mais de 500 pessoas.

Sandra Quintela, economista e articuladora nacional da Rede Jubileu Sul Brasil participou do encontro, avaliando-o como positivo. “A primeira mesa foi bem simbólica: um marxista, uma mãe de santo e um negro.  Acho que o esforço de ampliar as concepções, visões de mundo estavam presentes”, disse Sandra, referindo- se ao sociólogo Michael Lowy, diretor de pesquisas do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) da França, a sacerdotisa Mãe Eleonora, do terreiro Ilê Ase Omo Oya Bagan Odé Ibô e Coordenadora do Ponto de Cultura Caminhos, e Dennis de Oliveira, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e da Rede Quilombação.

O esforço de ampliar as concepções e visões de mundo é também motivado pelos dados da desigualdade no Brasil, resultado de um sistema político econômico que está distante das premissas de uma economia a serviço da vida. No Brasil, segundo dados  Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2019, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud),  o 10% mais ricos concentram quase 42% de toda a riqueza na economia brasileira. O 1% mais rico concentra mais de 28% de toda riqueza.

Participantes do Seminário Nacional para a Economia de Francisco, nos dias 18 e 19 de novembro, na PUC, em São Paulo | Foto Articulação Brasileira da Economia de Francisco

“O mundo que enfrentamos se caracteriza por crescente e dramática desigualdade, com 1% detendo mais riqueza do que os 99% seguintes, e 26 famílias com mais do que a metade mais pobre da população, 3,8 bilhões de pessoas. No Brasil 6 famílias acumularam mais riqueza do que os 105 milhões na base da pirâmide. A desigualdade atingiu níveis eticamente, politicamente e economicamente insustentáveis”, escreveu o economista Ladislau Lowbor, membro da Articulação Brasileira da Economia de Francisco.

Lowbor participa de uma videoconferência com o economista Joseph Stiglitz, amanhã, 12, sobre mudança curricular no ensino de Economia nas Universidades. Stiglitz é um dos economistas convidados pelo papa Francisco a estruturar o evento de Assis. Ele foi assessor do governo Bill Clinton, liderou o Banco Mundial em meados e fins dos anos 1990 e ganhou um Prêmio Nobel em 2001.

“Fiquei preocupada com a influência de Joseph Stiglitz nesse processo. A regulação da economia no seu estágio atual é insuficiente para enfrentar as desigualdades e violência crescentes. Regular para matar menos gente de fome? De guerra? Não acho que seja a saída“, destaca Sandra. Para ela, tanto Lowbor quanto Stiglitz defendem a reforma dos sistemas através de mais regulação, impostos, taxas, controle de fluxo de capitais. Saídas não suficientes.

Para a economista da Rede Jubileu Sul Brasil é preciso construir políticas mais radicais de combate à desigualdade enfrentando o tema da dívida pública, o não pagamento da dívida, fazendo a redistribuição da riqueza de maneira mais profunda.

Enrique Palmeyro, diretor mundial do Programa Pontifício Scholas Occurrentes, da Argentina, e enviado do papa ao encontro também esteve no encontro em São Paulo. “Sua participação se deu em mostrar a cronologia desse processo e de outro que está correndo em paralelo que trata o esforço no trato da educação, que segundo o papa precisa ser da mente, do coração e das mãos. Esse triângulo forma os processos educativos que estão sendo tocados pelo papa”.

Economia centrada na vida

O economista Marcos Arruda integrante da Rede Jubileu Sul Brasil e Instituto Pacs – Políticas Alternativas para o Cone Sul  também esteve no encontro em São Paulo, e repetiu ali, um pouco do que há décadas vem propagando em sua vida de economista militante. Sempre discutindo uma outra economia, a solidária, o que Sandra Quintela também sentiu falta no Seminário Nacional Para a Economia de Francisco. “Acho que ficou faltando também um resgate histórico desse debate no Brasil. Há mais de 25 anos esse debate é feito em torno da economia solidária”.

https://www.institutocpfl.org.br/2017/09/25/marcos-arruda-fala-sobre-uma-economia-centrada-na-vida-2/

No vídeo a seguir, Marcos Arruda, fala da economia e do amor, de como são possíveis as práticas de uma economia solidária, justa, com moedas complementares, com a partilha equitativa dos ganhos da produtividade, e uma educação para a cooperação entre outros. Ideias que podem florescer em um pacto global, em março de 2020, em Assis, na terra de São Francisco.

Temas debatidos - Seminário Nacional Para a Economia de Francisco novembro PUC-SP

1)         Democracia econômica: trata-se de resgatar a governança corporativa, sistemas transparentes de informação, e de gerar maior equilíbrio entre o Estado, as corporações e as organizações da sociedade civil. Não haverá democracia política sem democracia econômica.

2)         Democracia participativa: os processos decisórios sobre como definimos as nossas opções, como priorizamos o uso dos nossos recursos, não podem depender apenas de um voto a cada dois ou a cada quatro anos. Com sistemas adequados de informação, gestão descentralizada e ampla participação da sociedade civil organizada precisamos alcançar um outro nível de racionalidade na organização econômica e social. As novas tecnologias abrem imensos potenciais que se trata de explorar.

3)         Taxação dos fluxos financeiros: essencial para assegurar a informação sobre os capitais especulativos, e para que os recursos financeiros sirvam para financiar tanto a redução da desigualdade como para estimular processos produtivos sustentáveis.

4)         Renda básica universal: no quadro de uma visão geral de que algumas coisas não podem faltar a ninguém, uma forma simples e direta, em particular com as técnicas modernas de transferência, é assegurar um mínimo para cada família. Não se trata de custos, pois a dinamização do consumo simples na base da sociedade dinamiza a economia.

5)         Políticas sociais de acesso universal, público e gratuito: o acesso à saúde, educação, cultura, segurança, habitação e outros itens básicos de sobrevivência devem fazer parte das prioridades absolutas. Não se trata de custos, e sim de investimentos nas pessoas, que dinamizam a produtividade e liberam recursos das famílias para outras formas de consumo.

6)         Desenvolvimento local integrado: somos populações hoje essencialmente urbanizadas, e o essencial das políticas que asseguram o bem-estar da comunidade e o manejo sustentável dos recursos naturais devem ter raízes em cada município, construindo assim o equilíbrio econômico, social e ambiental na própria base da sociedade.

7)         Sistemas financeiros como serviço público: o dinheiro que manejam os sistemas financeiros tem origem nas nossas poupanças e impostos, constituem recursos do público, e neste sentido devem responder às necessidades do desenvolvimento sustentável. Bancos públicos, bancos comunitários, cooperativas de crédito e outras soluções, como moedas virtuais diversificadas, são essenciais para que as nossas opções tenham os recursos correspondentes.

8)         Economia do conhecimento: o conhecimento hoje constitui o principal fator de produção. Sendo imaterial, e indefinidamente reproduzível, podemos gerar uma sociedade não só devidamente informada, mas com acesso universal e gratuito aos avanços tecnológicos mais avançados. Temos de rever o conjunto das políticas de patentes, copyrights, royalties de diversos tipos que travam desnecessariamente o acesso aos avanços. O conhecimento é um fator de produção cujo uso, contrariamente aos bens materiais, não reduzem o estoque.  

9)         Democratização dos meios de comunicação: os recentes avanços do populismo de direita e erosão dos processos democráticos mostram a que ponto o oligopólio dos meios de comunicação gera deformações insustentáveis, climas de acerbamento de divisões e aprofundamento de ódios e preconceitos. Uma sociedade informada é absolutamente essencial para o próprio funcionamento de uma economia a serviço do bem comum.

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capa da revista Palabra

Por comunicação | Rede Jubileu Sul Brasil

É possível pensar em “uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da Criação e não a depreda”? Segundo o papa Francisco sim e ele está convidando os jovens economistas do mundo a construir alternativas. O encontro que papa Francisco propõe para tal, será em Assis, na Itália, terra de São Francisco, como diz frei Betto, o pioneiro na crítica ao capitalismo e aliado aos mais pobres.

O grande evento que quer propor um ‘pacto’ para mudar a atual economia e dar alma à economia do amanhã, acontecerá de 26 a 28 de março de 2020, e nomes os prêmios Nobel Muhammad Yunus, conhecido como “o banqueiro dos pobres”, e Amartya Sen, professor de filosofia e economia em Harvard (EUA) e Cambridge (Reino Unido) já confirmaram presença. Por aqui, em terras menos franciscanas, o processo já começou. Em novembro, a Articulação Brasileira da Economia de Francisco realizou um Seminário Nacional Para a Economia de Francisco. Ele aconteceu na PUC-SP e contou coma participação de mais de 500 pessoas.

Sandra Quintela, economista e articuladora nacional da Rede Jubileu Sul Brasil participou do encontro, avaliando-o como positivo. “A primeira mesa foi bem simbólica: um marxista, uma mãe de santo e um negro.  Acho que o esforço de ampliar as concepções, visões de mundo estavam presentes”, disse Sandra, referindo- se ao sociólogo Michael Lowy, diretor de pesquisas do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) da França, a sacerdotisa Mãe Eleonora, do terreiro Ilê Ase Omo Oya Bagan Odé Ibô e Coordenadora do Ponto de Cultura Caminhos, e Dennis de Oliveira, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e da Rede Quilombação.

O esforço de ampliar as concepções e visões de mundo é também motivado pelos dados da desigualdade no Brasil, resultado de um sistema político econômico que está distante das premissas de uma economia a serviço da vida. No Brasil, segundo dados  Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2019, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud),  o 10% mais ricos concentram quase 42% de toda a riqueza na economia brasileira. O 1% mais rico concentra mais de 28% de toda riqueza.

Participantes do Seminário Nacional para a Economia de Francisco, nos dias 18 e 19 de novembro, na PUC, em São Paulo | Foto Articulação Brasileira da Economia de Francisco

“O mundo que enfrentamos se caracteriza por crescente e dramática desigualdade, com 1% detendo mais riqueza do que os 99% seguintes, e 26 famílias com mais do que a metade mais pobre da população, 3,8 bilhões de pessoas. No Brasil 6 famílias acumularam mais riqueza do que os 105 milhões na base da pirâmide. A desigualdade atingiu níveis eticamente, politicamente e economicamente insustentáveis”, escreveu o economista Ladislau Lowbor, membro da Articulação Brasileira da Economia de Francisco.

Lowbor participa de uma videoconferência com o economista Joseph Stiglitz, amanhã, 12, sobre mudança curricular no ensino de Economia nas Universidades. Stiglitz é um dos economistas convidados pelo papa Francisco a estruturar o evento de Assis. Ele foi assessor do governo Bill Clinton, liderou o Banco Mundial em meados e fins dos anos 1990 e ganhou um Prêmio Nobel em 2001.

“Fiquei preocupada com a influência de Joseph Stiglitz nesse processo. A regulação da economia no seu estágio atual é insuficiente para enfrentar as desigualdades e violência crescentes. Regular para matar menos gente de fome? De guerra? Não acho que seja a saída“, destaca Sandra. Para ela, tanto Lowbor quanto Stiglitz defendem a reforma dos sistemas através de mais regulação, impostos, taxas, controle de fluxo de capitais. Saídas não suficientes.

Para a economista da Rede Jubileu Sul Brasil é preciso construir políticas mais radicais de combate à desigualdade enfrentando o tema da dívida pública, o não pagamento da dívida, fazendo a redistribuição da riqueza de maneira mais profunda.

Enrique Palmeyro, diretor mundial do Programa Pontifício Scholas Occurrentes, da Argentina, e enviado do papa ao encontro também esteve no encontro em São Paulo. “Sua participação se deu em mostrar a cronologia desse processo e de outro que está correndo em paralelo que trata o esforço no trato da educação, que segundo o papa precisa ser da mente, do coração e das mãos. Esse triângulo forma os processos educativos que estão sendo tocados pelo papa”.

Economia centrada na vida

O economista Marcos Arruda integrante da Rede Jubileu Sul Brasil e Instituto Pacs – Políticas Alternativas para o Cone Sul  também esteve no encontro em São Paulo, e repetiu ali, um pouco do que há décadas vem propagando em sua vida de economista militante. Sempre discutindo uma outra economia, a solidária, o que Sandra Quintela também sentiu falta no Seminário Nacional Para a Economia de Francisco. “Acho que ficou faltando também um resgate histórico desse debate no Brasil. Há mais de 25 anos esse debate é feito em torno da economia solidária”.

https://www.institutocpfl.org.br/2017/09/25/marcos-arruda-fala-sobre-uma-economia-centrada-na-vida-2/

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1)         Democracia econômica: trata-se de resgatar a governança corporativa, sistemas transparentes de informação, e de gerar maior equilíbrio entre o Estado, as corporações e as organizações da sociedade civil. Não haverá democracia política sem democracia econômica.

2)         Democracia participativa: os processos decisórios sobre como definimos as nossas opções, como priorizamos o uso dos nossos recursos, não podem depender apenas de um voto a cada dois ou a cada quatro anos. Com sistemas adequados de informação, gestão descentralizada e ampla participação da sociedade civil organizada precisamos alcançar um outro nível de racionalidade na organização econômica e social. As novas tecnologias abrem imensos potenciais que se trata de explorar.

3)         Taxação dos fluxos financeiros: essencial para assegurar a informação sobre os capitais especulativos, e para que os recursos financeiros sirvam para financiar tanto a redução da desigualdade como para estimular processos produtivos sustentáveis.

4)         Renda básica universal: no quadro de uma visão geral de que algumas coisas não podem faltar a ninguém, uma forma simples e direta, em particular com as técnicas modernas de transferência, é assegurar um mínimo para cada família. Não se trata de custos, pois a dinamização do consumo simples na base da sociedade dinamiza a economia.

5)         Políticas sociais de acesso universal, público e gratuito: o acesso à saúde, educação, cultura, segurança, habitação e outros itens básicos de sobrevivência devem fazer parte das prioridades absolutas. Não se trata de custos, e sim de investimentos nas pessoas, que dinamizam a produtividade e liberam recursos das famílias para outras formas de consumo.

6)         Desenvolvimento local integrado: somos populações hoje essencialmente urbanizadas, e o essencial das políticas que asseguram o bem-estar da comunidade e o manejo sustentável dos recursos naturais devem ter raízes em cada município, construindo assim o equilíbrio econômico, social e ambiental na própria base da sociedade.

7)         Sistemas financeiros como serviço público: o dinheiro que manejam os sistemas financeiros tem origem nas nossas poupanças e impostos, constituem recursos do público, e neste sentido devem responder às necessidades do desenvolvimento sustentável. Bancos públicos, bancos comunitários, cooperativas de crédito e outras soluções, como moedas virtuais diversificadas, são essenciais para que as nossas opções tenham os recursos correspondentes.

8)         Economia do conhecimento: o conhecimento hoje constitui o principal fator de produção. Sendo imaterial, e indefinidamente reproduzível, podemos gerar uma sociedade não só devidamente informada, mas com acesso universal e gratuito aos avanços tecnológicos mais avançados. Temos de rever o conjunto das políticas de patentes, copyrights, royalties de diversos tipos que travam desnecessariamente o acesso aos avanços. O conhecimento é um fator de produção cujo uso, contrariamente aos bens materiais, não reduzem o estoque.  

9)         Democratização dos meios de comunicação: os recentes avanços do populismo de direita e erosão dos processos democráticos mostram a que ponto o oligopólio dos meios de comunicação gera deformações insustentáveis, climas de acerbamento de divisões e aprofundamento de ódios e preconceitos. Uma sociedade informada é absolutamente essencial para o próprio funcionamento de uma economia a serviço do bem comum.

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