
Por
BBC Brasil
Em discurso em uma praça central na capital mexicana para celebrar sua vitória, Andres Manuel Lopez Obrador (
AMLO) disse a correligionários que sua prioridade será combater a
corrupção e a impunidade. "Seja quem for, (o corrupto) será punido. Mesmo se for companheiro de luta, funcionário, amigo ou familiar."
AMLO disse ainda que sintetiza sua visão de governo em uma frase: "Pelo bem de todos, primeiro os
pobres". "As mudanças serão profundas, mas serão realizadas dentro da ordem estabelecida. Haverá
liberdade empresarial,
de expressão,
de associação e
de crenças".
O ex-prefeito da
Cidade do México (2000-2006) é eleito presidente em sua terceira tentativa e com uma plataforma centrada no combate à
corrupção, no fim de "regalias" a políticos e empresários, na melhora na qualidade de vida dos mais
pobres e de revisão de privatizações realizadas no
setor petrolífero. "Vamos purificar a
vida pública do
México", afirmou em comício recente.
Nascido em 1953 no Estado sulista de
Tabasco,
AMLO é filho de comerciantes e estudou Ciências Políticas e Administração Pública na
Universidade Nacional Autônoma de México (
UNAM). É conhecido por despertar tanto lealdade quanto rechaço incondicionais, característica que já o levou a ser comparado a outros líderes do continente: o venezuelano
Hugo Chávez, o brasileiro
Luiz Inácio Lula da Silva e, curiosamente, até mesmo o americano
Donald Trump.
Violência, reformas e mercado
López Obrador assumirá um país com níveis historicamente altos de
violência, em plena guerra entre
cartéis do narcotráfico e
forças de segurança. O país registrou um recorde de mais de 25 mil
homicídios no ano passado, cifra que tende a aumentar neste ano, segundo previsões de especialistas.
A
violência respingou também na
campanha eleitoral, durante a qual foram assassinados mais de 120 políticos.
O cenário, somado a escândalos de
corrupção, impactou negativamente a popularidade do atual presidente,
Enrique Peña Nieto, do
PRI (
Partido Revolucionário Institucional), que deixa o cargo com menos de 20% de aprovação. Em 2012, quando tomou posse, chegou a superar os 60% de aprovação.
E foi também com críticas à
política tradicional e às
condições macroeconômicasque
López Obrador conquistou grande parte de seu eleitorado.
"As
políticas que temos aplicado nos últimos 30 anos não funcionaram. Sequer tivemos
crescimento econômico", afirmou ele em seu último comício, na quarta-feira. "O que cresceu foi a
corrupção, a
pobreza, o
crime e a
violência. Por isso, vamos mandar essas políticas à lixeira da história."
AMLO já havia tentado a Presidência duas vezes antes pelo
Partido da Revolução Democrática (em 2006 e 2012, quando perdeu para
Peña Nieto), sem sucesso. Agora, postulou-se pelo
Movimento de Regeneração Nacional (
Morena), que fundou há quatro anos e hoje tenta se firmar como a segunda principal força política do país.
É visto com ceticismo pelo mercado financeiro e pela
comunidade empresarial mexicana, por suas críticas de longa data ao
neoliberalismo e sua promessa de reverter alguns pontos da reforma do setor energético, no que diz respeito à exploração privada das
reservas petrolíferas do
México.
Tais características já o fizeram ser comparado a
Lula, que também enfrentou resistência do mercado quando eleito pela primeira vez, em 2002.
Partidários de
AMLO afirmam que o novo presidente já não é mais tão radical quanto no passado e lembram que ele recrutou assessores próximos ao
mercado financeiro, como um aceno conciliatório.
História
López Obrador também enfrentará a descrença de parte considerável da
classe média mexicana, que o vê como um radical messiânico e que teme que o país encampe
políticas socialistas e
nacionalistas semelhantes às venezuelanas, iniciadas por
Hugo Chávez.
Em pleitos passados,
AMLO chegou a ser chamado de "um perigo para o
México", crítica que qualifica de "guerra suja" eleitoral.
Ele despontou na
política nos anos 1980 como militante do
PRI no sul do país e, na década seguinte, no ativismo em defesa de
causas indigenistas. Em seu Estado natal,
Tabasco, chegou a liderar dezenas de
protestos indígenas contra
danos ecológicoscausados pela exploração de
petróleo nas comunidades.
Na prefeitura da
Cidade do México, criou sistemas de aposentadoria municipais e distribuiu material escolar gratuitamente aos estudantes de
educação básica. Já nessa época era conhecido por seu discurso de
austeridade e
anticorrupção, o que o levou a criar uma legião de "seguidores fervorosos", explicam analistas políticos.
Para parte do eleitorado, "ele se converteu em um mito e disso vem seu êxito na
política nacional", dizem os historiadores
Saray Curiel e
Alfonso Argote, autores de uma biografia de
AMLO.
Eles concluíram que o candidato cultiva entre seus seguidores a ideia de que o
Méxicoprecisa de um "salvador que o resgate", algo que críticos também usam para traçar paralelos com o
chavismo.
Já defensores afirmam que seu discurso de tolerância zero à
corrupção e atenção aos mais
pobres lhe rendeu apoio entre profissionais liberais e entre o eleitorado mais jovem.
No que diz respeito ao
combate à violência, suas promessas até agora foram consideradas vagas, em geral centradas a uma anistia aos traficantes de menor porte e uma visão "mais inteligente" de enfrentamento ao crime.
Relações com os EUA - e Trump
Ao mesmo tempo, o novo presidente assume em um momento de relações especialmente espinhosas com seu principal vizinho, os
EUA, por conta das políticas contrárias à
imigração e por uma
guerra comercial.
AMLO foi um forte crítico de
Trump durante a campanha eleitoral, pedindo "respeito aos mexicanos", prometendo colocar o presidente americano "em seu lugar" e rejeitando a
política migratória do vizinho.
O curioso é que seu histórico de declarações fortes e de tom populista, suas críticas ao livre comércio e sua popularidade ao se apresentar como alternativa aos políticos tradicionais também lhe renderam comparações com o presidente americano, em um momento de rejeição recorde ao status quo partidário em ambos os países.
"Ele (
López Obrador) acabou sendo o candidato certo para o momento atual, o candidato antissistema", disse à
AFP o fundador da empresa de pesquisas
Parametría Francisco Abundis.
Mas uma diferença crucial em relação ao bilionário
Trump é que
AMLO cultiva um estilo de vida simples e prometeu "governar pelo exemplo, com austeridade". Afirmou que vai cortar o próprio salário, continuar a morar em sua casa de classe média na
Cidade do México e transformar o palácio presidencial em um centro cultural.
"Nem
chavismo, nem
trumpismo (...), sim ao
mexicanismo", declarou
AMLO pelo
Twitter, do qual também é usuário frequente.