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Desde as chacinas da Candelária e Vigário geral, mais de meio milhão de jovens foram assassinados

  • 25 de julho de 2018
Por Eliane Alves Cruz, do The Intercept No dia 23 de julho de 1993, eu estava na Candelária com um grupo de amigos por volta das 22h. Deixamos o prédio de um curso que funcionava no lado direito da avenida Presidente Vargas – no sentido de quem vai para Central do Brasil – e atravessamos correndo para a calçada próxima ao Centro Cultural Banco do Brasil, passando em frente à igreja. E foi uma correria mesmo, um passo mais do que apressado rumo ao metrô, pois àquela hora o centro da cidade já estava deserto e perigoso. Mas havia alguma coisa no ar além do risco costumeiro de assaltos. Era o silêncio que vem antes da tempestade. Passamos com nossa corrida ruidosa e amedrontada em frente aos meninos que perderiam a vida duas horas depois. Cerca de 50 crianças e jovens dormiam em frente à Candelária e nos arredores, no centro do Rio, quando um carro pilotado por PMs passou e abriu fogo. O saldo foram oito mortos. O assassinato teria sido uma vingança depois de uma confusão com alguns adolescentes. Um dos acusados pela chacina, chefe de um grupo de extermínio, foi executado. A pena dos três condenados foi extinta. O principal personagem do massacre estava há 18 anos preso e faltavam mais 12 quando recebeu um indulto, suspenso em 2013. Desde então, ele está foragido. O ano de 2018 marca as bodas de sangue das chacinas da Candelária e de outra matança ocorrida um mês depois, a de Vigário Geral. Nestes 25 anos, o Brasil retrocedeu em quase tudo, especialmente na violência. O país tem números de guerras. Assim mesmo, no plural. A comparação com apenas uma batalha não dá conta do total de jovens assassinados no Brasil por ano, quanto mais em duas décadas e meia. Visitando a página do Mapa da Violência, o leitor que tiver a paciência de navegar pelas várias tabelas e gráficos chegará conservadoramente ao estarrecedor número de mais de meio milhão de jovens entre 15 e 24 anos assassinados no país entre 1994 e 2016. Números são gelados. Por mais zeros à direita que tenham, não movem os corações e mentes da mesma forma que a visão do sangue real e quente escorrendo pelas quebradas Brasil a fora. Muitas vezes nem é necessário ver o sangue, o corpo, o filme de terror. Basta sentir o cheiro da sua proximidade, como eu senti naquele distante mês de julho de 1993. O ar que pairava na noite de julho de 1993 no centro do Rio era o mormaço de um país lutando com uma instabilidade econômica, desemprego e violência galopante. Qualquer semelhança com 2018 não será mera coincidência: também fazem bodas sangrentas de prata neste ano a fundação da organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC, a morte de 30 índios ianomâmis (entre eles 10 crianças) por 600 garimpeiros, e outra chacina histórica, a de Vigário Geral.

Duas matanças, um único preso

Os corpos da Candelária mal esfriaram e, um mês depois, 36 encapuzados arrombaram casas na favela em Vigário Geral, na zona norte do Rio, e mataram 21 moradores. Parte do grupo, chamado de Cavalos Corredores, bombardeou um bar e atirou a esmo contra moradores. Inicialmente, sete pessoas foram condenadas pelo massacre. Hoje, apenas um está preso. Três foram absolvidos em segundo julgamento; um, executado; um teve a pena extinta; e o último condenado está em liberdade condicional desde 2013. O desconcertante ponto de intersecção entre as duas matanças está nos autores: policiais. Antes que alguém se adiante a dizer que este texto pretende demonizar as corporações, digo que ele pretende mesmo é falar do câncer com muitas metástases que é, como disse a filósofa Hannah Arendt, a banalização do mal. Ele perpassa todas as camadas da nossa sociedade. Segundo consta nas investigações e nos julgamentos, a matança em Vigário foi represália pela morte de quatro policiais por traficantes, embora nenhuma das vítimas da chacina tivesse envolvimento com o tráfico. Vinte e cinco anos depois quase ninguém foi punido por ter tirado a vida de tanto corpo e feito tanta gente infeliz para sempre. Vinte e cinco anos depois centenas de chacinas iguais acontecem quase todos os dias sem chocar, sem comover. Muitos anos depois daquela noite na Candelária e da manhã em que despertei chocada com as notícias dos assassinatos, fui morar em frente ao Maracanã. Na época, o entorno do estádio ainda não era tão iluminado quanto agora e acordei no meio da madrugada com as vozes que pareciam de garotos. Quando abri a cortina, um espanto: uma fila de meninos ajoelhados com policiais apontando armas para o grupo. Entrei em desespero achando que presenciaria algo terrível mas, depois de várias humilhações, dispensaram as crianças. Fico a me perguntar se ainda estão vivos e, caso não estejam, quem realmente se importa. É o mal que se tornou banal. Chegamos aqui, com a violência mais que triplicada mostrando que nenhuma solução de extermínio surtiu efeito, ao contrário. A impunidade segue a mesma. No entanto, algumas coisas mudaram e, uma delas, é o acesso à tecnologia. Em 1993, não existiam redes sociais. O excesso de conexão ao mesmo tempo em que faz a informação circular em velocidade vertiginosa, deixa nuas nossas mazelas e fraquezas de forma inequívoca. A sede de vingança, em vez de justiça, de uma parcela significativa da população, é uma delas. Surfando nesta onda do “olho por olho, dente por dente”, estão candidatos que pregam sem nenhuma cerimônia a chacina como política pública. O exercício que precisamos fazer é imaginar o futuro para os próximos 25 anos. Como estará o Brasil em 2043? Estarão para sempre presentes… Vítimas da chacina da Candelária Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos “Gambazinho”, 17 anos Leandro Santos da Conceição, 17 anos Paulo José da Silva, 18 anos Marcos Antônio Alves da Silva, 19 anos Vítimas da chacina Vigário Geral Fábio Pinheiro Lau , 17 anos Hélio de Souza Santos, 38 anos Joacir Medeiros, 69 anos Guaracy Rodrigues, 33 anos José dos Santos, 47 anos Paulo Roberto Ferreira, 44 anos Adalberto Souza, 40 anos Cláudio Feliciano, 28 anos Paulo César Soares, 35 anos Cleber Alves, 23 anos Clodoaldo Pereira, 21 anos Amarildo Baiense, 31 anos Edmilson Costa, 23 anos Gilberto Cardoso dos Santos, 61 anos Jane dos Santos, 58 anos Luciano dos Santos, 23 anos Lucinéia dos Santos, 23 anos Lucia dos Santos, 33 anos Luciene dos Santos, 15 anos Lucinete dos Santos, de 27 anos Rúbia dos Santos, 18 anos

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  • 25 de julho de 2018
Por Eliane Alves Cruz, do The Intercept No dia 23 de julho de 1993, eu estava na Candelária com um grupo de amigos por volta das 22h. Deixamos o prédio de um curso que funcionava no lado direito da avenida Presidente Vargas – no sentido de quem vai para Central do Brasil – e atravessamos correndo para a calçada próxima ao Centro Cultural Banco do Brasil, passando em frente à igreja. E foi uma correria mesmo, um passo mais do que apressado rumo ao metrô, pois àquela hora o centro da cidade já estava deserto e perigoso. Mas havia alguma coisa no ar além do risco costumeiro de assaltos. Era o silêncio que vem antes da tempestade. Passamos com nossa corrida ruidosa e amedrontada em frente aos meninos que perderiam a vida duas horas depois. Cerca de 50 crianças e jovens dormiam em frente à Candelária e nos arredores, no centro do Rio, quando um carro pilotado por PMs passou e abriu fogo. O saldo foram oito mortos. O assassinato teria sido uma vingança depois de uma confusão com alguns adolescentes. Um dos acusados pela chacina, chefe de um grupo de extermínio, foi executado. A pena dos três condenados foi extinta. O principal personagem do massacre estava há 18 anos preso e faltavam mais 12 quando recebeu um indulto, suspenso em 2013. Desde então, ele está foragido. O ano de 2018 marca as bodas de sangue das chacinas da Candelária e de outra matança ocorrida um mês depois, a de Vigário Geral. Nestes 25 anos, o Brasil retrocedeu em quase tudo, especialmente na violência. O país tem números de guerras. Assim mesmo, no plural. A comparação com apenas uma batalha não dá conta do total de jovens assassinados no Brasil por ano, quanto mais em duas décadas e meia. Visitando a página do Mapa da Violência, o leitor que tiver a paciência de navegar pelas várias tabelas e gráficos chegará conservadoramente ao estarrecedor número de mais de meio milhão de jovens entre 15 e 24 anos assassinados no país entre 1994 e 2016. Números são gelados. Por mais zeros à direita que tenham, não movem os corações e mentes da mesma forma que a visão do sangue real e quente escorrendo pelas quebradas Brasil a fora. Muitas vezes nem é necessário ver o sangue, o corpo, o filme de terror. Basta sentir o cheiro da sua proximidade, como eu senti naquele distante mês de julho de 1993. O ar que pairava na noite de julho de 1993 no centro do Rio era o mormaço de um país lutando com uma instabilidade econômica, desemprego e violência galopante. Qualquer semelhança com 2018 não será mera coincidência: também fazem bodas sangrentas de prata neste ano a fundação da organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC, a morte de 30 índios ianomâmis (entre eles 10 crianças) por 600 garimpeiros, e outra chacina histórica, a de Vigário Geral.

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