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Jubileu Sul Brasil delibera planejamento estratégico 2026-2030 em reunião nacional

  • 19 de março de 2026

A Rede Jubileu Sul Brasil (JSB) realizou, entre os dias 11 e 14 de março de 2026, na Casa de Eventos Sagrada Família, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, a reunião presencial de sua coordenação. O encontro reuniu representantes de diversas entidades membros de todo o país para um processo intenso de avaliação, planejamento e pactuação das ações da rede para os próximos anos.

Com uma programação construída coletivamente, a reunião teve como eixos centrais a elaboração do planejamento estratégico para o período 2026-2030 e a avaliação aprofundada das atividades realizadas em 2025, subsidiando a construção do plano de ação para 2026.

Celebração, memória e solidariedade na reunião nacional de balanço de 2025 e de planejamento estratégico 2026-2030. Fotos: Flaviana Serafim

Memória e homenagens marcam abertura dos trabalhos

A abertura, na tarde do dia 11, contou com mística, momentos de resgate da memória e uma homenagem póstuma a militantes que deixaram um legado de aprendizados e de bom combate. Entre as pessoas homenageadas, o militante e educador popular Célio Maranhão, membro do Jubileu Sul Brasil desde o nascimento da Rede, falecido em agosto de 2025, aos 82 anos, e o Frei Sérgio Antonio Görgen, líder histórico do movimento camponês, falecido em 3 de fevereiro de 2026, aos 70 anos.

O momento de memória também recordou a vereadora Marielle Franco e a líder indígena hondurenha Berta Cáceres - ambas perderam a vida num mês de março, respectivamente em 2018 e 2016, assassinadas por denunciarem crimes e defender seu povo.

Crise capitalista e lutas sociais: análise de conjuntura aponta desafios para 2026

O encontro prosseguiu com uma análise de conjuntura provocada pelo economista Helder Gomes, do grupo de trabalho sobre a dívida pública na Rede JSB, e representantes das entidades membros e parceiras: a secretária adjunta do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Ivanilda Torres dos Santos, e o jornalista Francisco Kelvim, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), seguida de amplo debate.

O economista Helder Gomes abriu a análise afirmando que "o mito do Brasil potência é revisitado no ano eleitoral", apontando que a situação global é consequência de uma crise estrutural do capitalismo em sua "fase senil". Segundo ele, apesar de melhorias sociais, o Brasil mantém uma "posição geopolítica estratégica de subalternidade" na economia mundial.

Ele criticou o Plano Real (1993-1994) como um divisor de águas que aprofundou a "desnacionalização do Parque Produtivo Brasileiro", transferindo patrimônio e centros de decisão para o exterior. Em sua análise sobre a crise do capitalismo, isso inviabiliza qualquer tese sobre uma "revolução burguesa" no país: "Para mim, não tem nem burguesia e muito menos revolução. Por simples ausência de necessidade de ter".

Marco temporal: violência e confusão jurídica nos territórios indígenas

Ivanilda detalhou a situação da Lei 14.701 do marco temporal das terras indígenas. Mesmo com o Supremo Tribunal Federal (STF) declarando a tese inconstitucional em setembro de 2023, o Senado aprovou a legislação em dezembro de 2025 e enviou o texto para votação na Câmara dos Deputados, medida que abriu territórios para exploração econômica. A lei, em vigor entre 2024 e 2025, paralisou demarcações e intensificou a violência.

Em dezembro de 2025, o STF julgou e declarou novamente o marco temporal inconstitucional. Porém, Ivanilda destaca que o voto do ministro Gilmar Mendes foi considerado danoso, pois incorporou propostas da negociação, como a indenização pela "terra nua" e o "direito de retenção", criando uma confusão jurídica.

“Permanece a questão de abrir os territórios para explorações. Tem um dano muito maior ainda, que é a questão do pagamento das indenizações pelo valor da terra, que se chama pagamento pela terra nua. Além disso, também o direito à retenção, em que os ocupantes só vão poder sair do território depois que eles receberem tudo que tiverem de receber, seja pelo valor da terra, seja pelo valor das benfeitorias”, explica a dirigente do Cimi.

Ivanilda alerta que a violência continua nos territórios, muitos processos continuam paralisados e, em ano eleitoral, há muita dificuldade dos indígenas conseguirem acesso aos órgãos públicos envolvidos, mas “a luta vai continuar pela revogação da lei 14.701 e pelos direitos dos povos, que seja garantido conforme esteja na Constituição Federal”.

Mundo multipolar, poder militar e a nova cara do trabalho

Representando o MAB, Francisco Kelvim argumentou que a humanidade vive uma "mudança de tempo histórico", com a transição de um mundo unipolar para um cenário multipolar. No entanto, fez um alerta crucial em meio à análise de conjuntura internacional: "A nossa grande questão é que o poder militar permanece e ele é usado quando necessário", citando a "plena derrocada histórica" dos pilares do controle imperialista, mas sem que isso signifique o fim da violência como instrumento de poder.

Ao olhar para o Brasil, Kelvim destacou a "estagnação sistemática da economia e do trabalho". A constatação mais forte é o retrato da nova configuração da classe trabalhadora, um ponto central para entender as lutas sociais em 2026: "Metade da classe trabalhadora está na informalidade e 10 milhões são trabalhadores de plataforma".

Para ele, essa realidade fragmentada impõe uma enorme dificuldade para a organização e a resistência sindical tradicional diante do avanço da precarização. “Tem uma mudança muito grande que a gente precisa compreender para pensar como organizar essa classe que ainda está em transformação, porque a mudança demora também para se consolidar”, completa.

Avaliando a caminhada coletiva e traçando o futuro

Ainda no primeiro dia, a coordenação se dedicou à apresentação do balanço de ações e à avaliação do trabalho da rede em 2025 para identificar avanços, desafios e aprendizados.

Os dias 12 e 13 foram marcados por uma imersão no planejamento estratégico 2026-2030, facilitado pelas consultoras Luciana Pinto e Jonia Rodrigues, com momentos de trabalho coletivo para desenhar os passos seguintes da caminhada.

Houve amplo debate sobre a atualização da missão e a visão da Rede JSB, e as linhas de ação prioritárias redesenhadas para: dívidas, financeirização e reparação; mulheres e territórios; articulação; fortalecimento institucional e comunicação.

Grupo de ativistas reunidos em evento presencial, segurando faixas do "Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental" e "Rede Jubileu Sul Brasil - A vida acima da dívida", em ambiente colaborativo para discussão de justiça socioambiental.

O encerramento do encontro foi dedicado à apresentação do balanço financeiro de 2025 e das perspectivas para 2026, além da mobilização de recursos.

A metodologia participativa e os momentos de articulação entre as entidades marcaram todo o encontro, que reforçou o compromisso da Rede Jubileu Sul Brasil com a luta por justiça social, socioambiental e econômica no país.

Por Flaviana Serafim - Comunicação Jubileu Sul Brasil

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O encontro prosseguiu com uma análise de conjuntura provocada pelo economista Helder Gomes, do grupo de trabalho sobre a dívida pública na Rede JSB, e representantes das entidades membros e parceiras: a secretária adjunta do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Ivanilda Torres dos Santos, e o jornalista Francisco Kelvim, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), seguida de amplo debate.

O economista Helder Gomes abriu a análise afirmando que "o mito do Brasil potência é revisitado no ano eleitoral", apontando que a situação global é consequência de uma crise estrutural do capitalismo em sua "fase senil". Segundo ele, apesar de melhorias sociais, o Brasil mantém uma "posição geopolítica estratégica de subalternidade" na economia mundial.

Ele criticou o Plano Real (1993-1994) como um divisor de águas que aprofundou a "desnacionalização do Parque Produtivo Brasileiro", transferindo patrimônio e centros de decisão para o exterior. Em sua análise sobre a crise do capitalismo, isso inviabiliza qualquer tese sobre uma "revolução burguesa" no país: "Para mim, não tem nem burguesia e muito menos revolução. Por simples ausência de necessidade de ter".

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Ivanilda detalhou a situação da Lei 14.701 do marco temporal das terras indígenas. Mesmo com o Supremo Tribunal Federal (STF) declarando a tese inconstitucional em setembro de 2023, o Senado aprovou a legislação em dezembro de 2025 e enviou o texto para votação na Câmara dos Deputados, medida que abriu territórios para exploração econômica. A lei, em vigor entre 2024 e 2025, paralisou demarcações e intensificou a violência.

Em dezembro de 2025, o STF julgou e declarou novamente o marco temporal inconstitucional. Porém, Ivanilda destaca que o voto do ministro Gilmar Mendes foi considerado danoso, pois incorporou propostas da negociação, como a indenização pela "terra nua" e o "direito de retenção", criando uma confusão jurídica.

“Permanece a questão de abrir os territórios para explorações. Tem um dano muito maior ainda, que é a questão do pagamento das indenizações pelo valor da terra, que se chama pagamento pela terra nua. Além disso, também o direito à retenção, em que os ocupantes só vão poder sair do território depois que eles receberem tudo que tiverem de receber, seja pelo valor da terra, seja pelo valor das benfeitorias”, explica a dirigente do Cimi.

Ivanilda alerta que a violência continua nos territórios, muitos processos continuam paralisados e, em ano eleitoral, há muita dificuldade dos indígenas conseguirem acesso aos órgãos públicos envolvidos, mas “a luta vai continuar pela revogação da lei 14.701 e pelos direitos dos povos, que seja garantido conforme esteja na Constituição Federal”.

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