Militantes da comunicação compartilham experiências de resistência pela mídia independente na América Latina e Caribe

Projetos sem amarras com patrocinadores dão voz àquelas e aqueles que não são prioridades nos grupos dos grandes conglomerados de mídia comercial.

Representantes das organizações membro e parceiros da Rede Jubileu Sul/Américas e Jubileu Sul Brasil concluíram em 8 de julho a Formação de Multiplicadores – Direitos Humanos e Comunicação Estratégica. A iniciativa contou com mais de 80 pessoas inscritas da América Latina e Caribe, para formação ao longo de cinco aulas semanais, sempre às quintas-feiras, desde 10 de junho.

Na abertura da quinta e última aula, participantes e formadores refletiram sobre os temas tratados nas quatro aulas anteriores: O que são Direitos Humanos; Cultura, valores e costumes na concepção dos Direitos Humanos; O papel da comunicação; A resistência na comunicação.
Depois, comunicadores e militantes convidados compartilharam suas experiências de atuação em direitos humanos e comunicação nos países da região.

O fotojornalista Ivan Castañera

O primeiro foi o fotojornalista Ivan Castañera, da Acción Ecológica (Equador), que se dedica às mídias independentes, onde consegue acompanhar o trabalho de ativistas e ações de resistência. Entre os trabalhos que Ivan compartilhou estava o projeto “Geografia da dor”, feito de 2008 até 2014, dando destaque aos parentes de pessoas desaparecidas no México. A ação era uma forma de denúncia dos abusos de autoridade, muitas vezes invisibilizados.

“O trabalho visava criar fotografias, provas de delitos que foram cometidos e que eram inviabilizados. A razão mais importante é a memória, para que, com o trabalho de direitos humanos, para que no futuro haja um arquivo que as pessoas possam saber o que aconteceu”, explicou.

Karla Lara falou sobre a experiência das rádios comunitárias no Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH). Para ela, as rádios deram a palavra a povos silenciados há muitos anos, sendo extremamente importantes visto que as mídias tradicionais são dominadas por homens brancos, que criam um imaginário do país a partir dos próprios olhos.

Comunicação popular

A experiência no COPINH também foi comentada por Maria José, que trabalhou no caso do assassinato de Berta Cáceres, fundadora do Conselho. Ela ressaltou a importância da comunicação popular para difundir o caso, lutar pelo julgamento e andamento do processo até à condenação dos culpados, um trabalho diário em busca desmontar as narrativas criadas pela mídia tradicional hondurenha.

Karla Lara e o trabalho da COPINH por verdade e justiça por Berta Cáceres

Outra forma de comunicação de resistência são as revistas e periódicos, como é o caso da La Garganta Poderosa, revista lançada em 2021 na Argentina. Julio Aguilar Benítez, um dos responsáveis pelo seu lançamento, enalteceu a proposta da comunicação popular, e comentou sobre as dificuldades das crises neoliberais pelas quais o seu país vem passando.

Segundo Benítez, a organização da revista, de forma comunitária e independente, leva a voz das periferias a alcances inimagináveis, conseguindo visibilidade dos bairros e fomentando novas formas de economia local que antes eram mais limitados.

Olmedo Carrasquilla, do Coletivo Vozes Ecológicas (COVEC), Panamá, compartilhou suas experiências de luta das causas ecológicas. Ele lembra o tratado de livre comércio e a maneira como o jornalismo mencionava as atrocidades que acometiam os povos originários por conta da ideia do desenvolvimento baseada na exploração dos bens naturais e dos povos.

Foi desse apagamento que se apresentou a necessidade de registrar os ocorridos, através de boletins quinzenais para rádios digitais. Segundo Olmedo além do conteúdo em áudio, os vídeos foram de extrema importância na denúncia dos crimes sistêmicos que ocorriam no Panamá.

Assim, diversas pautas, que antes eram invisibilizadas pelas mídias tradicionais, passaram a chegar ao público. Ele ressaltou que para as mídias independentes competição não é prioridade, pois a ideia é visibilizar as violações dos direitos humanos, e o importante “é o compromisso com o povo mesmo sem recursos, pois é preciso dar ao povo a informação”, concluiu.

As aulas sincrônicas terminaram, mas o processo de formação segue. Até 30 de julho, os participantes vão elaborar uma proposta de plano de comunicação ou de projeto de multiplicação do curso que possam ser colocados em prática nos próprios territórios. O objetivo é multiplicar e ampliar todo o conhecimento construído ao longo da formação, reafirmando a relevância dos direitos humanos e da comunicação estratégica como ferramenta de resistência e luta.

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