Relato de intercâmbio de experiências entre povos tradicionais: Comunidade Maravilha (RO) e Baía de Sepetiba (RJ)

Por Miguel Borba de Sá | PACS e Jubileu Sul Brasil

Entre os dias 10 e 11 de setembro de 2016, a rede Jubileu Sul Brasil promoveu, em parceria com a ONG Arirambas, uma oficina na comunidade ribeirinha “Maravilha”, que fica na margem esquerda do rio Madeira, à cerca de 8km da cidade de Porto Velho, Rondônia. A oficina chamou-se “A resistência das comunidades ribeirinhas e de pescadores aos grandes projetos” e serviu a dois grandes propósitos: (i) fortalecer a comunidade ribeirinha em seu próprio espaço de r-existência; e (ii) trocar experiências de luta popular entre populações tradicionais a partir da visita de uma liderança dos pescadores de Pedra de Guaratiba (RJ), que enfrentam a degradação causada na Baía de Sepetiba pelos mega-empreendimentos industriais e portuários.

Confira o vídeo realizado sobre a oficina:

O encontro foi considerado bem-sucedido pelos participantes, que além da comunidade local, também teve a presença de ribeirinhos e artesãos de áreas próximas, do pescador do Rio de Janeiro convidado (Ivo Siqueira), pesquisadores e alunos da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), de movimentos urbanos pelo direito à cidade, pastorais sociais e de um representante da rede Jubileu Sul.

O primeiro dia iniciou-se com uma roda de apresentação e troca de relatos sobre os impactos sofridos por ambas comunidades tradicionais. No caso da comunidade Maravilha, as principais ameaças decorrem da instalação das duas grandes usinas hidrelétricas do rio Madeira, Jirau e Santo Antônio, que agravaram sobremaneira os efeitos já sentidos das mudanças climáticas, além da pressão exercida pela grilagem de terras, queimadas, especulação imobiliária e pelo garimpo predatório. Em suma, pelo avanço da sociedade de mercado capitalista sobre seus territórios, vidas e saberes.

img-20160913-wa0004A maior liderança da comunidade, Jayro, cuja família luta para se manter no local, sofreu um atentado (foi golpeado e jogado no rio) dias antes da realização da oficina, quando voltava para casa com os materiais da atividade. Felizmente sobreviveu aos ferimentos (e a uma queda de cerca de 30 metros na forte correnteza), mas o episódio foi uma amostra da pressão a que estão submetidas as comunidades que tentam resistir na região. Na roda de conversa, os mais velhos falaram mais, contando como era seu viver antes dos projetos chegarem. Os moradores e vizinhos relataram que estão perdendo seus modos de vida tradicionais e que é a cada dia mais difícil mobilizar os jovens para a luta. Reclamaram que muitas vezes as organizações que vêm de fora não mantém um apoio firme e sustentado após reuniões como aquela. O relato de Ivo Siqueira foi ouvido com atenção e muitas perguntas foram feitas sobre a situação enfrentada no Rio de Janeiro.

Após o almoço (peixes locais assados na brasa e mandioca plantada no local) assistimos ao filme “Treliça”, que conta a partir do relato dos próprios atingidos a realidade de luta pela Baía de Sepetiba no Rio de Janeiro, em especial por conta dos impactos causados pela siderúrgica TKCSA. O filme emocionou as pessoas presentes e no debate que se seguiu muitas falas apontaram as similaridades entre os modelos de apropriação do território por grandes interesses empresariais, com apoio político, institucional e financeiro dos governos. Quando perguntados sobre as diferenças, a maioria não conseguiu encontrar alguma que fosse significativa. A única que sobressaiu foi que as chances de vitória popular parecem maiores em Rondônia do que no Rio de Janeiro. Esta avaliação aumentou o ânimo de luta dos presentes que, ao fim, realizaram uma atividade em grupo na qual prestaram solidariedade aos atingidos pela TKCSA a partir da desconstrução da propaganda da empresa em seus materiais de “responsabilidade social”. Ao se colocarem no lugar de outras resistências, acabaram sentindo-se mais entusiasmados para seguir com a sua própria, percebendo-se mais fortes do que acreditavam ser antes da oficina começar.

O segundo dia começou com uma trilha pedagógica pela floresta recuperada pela ONG Arirambas na própria comunidade Maravilha. A caminhada pela mata serviu como experimento para um futuro projeto de valorização dos saberes locais. Assistimos impressionados à habilidade de Jayro ao subir no açaizeiro, assim como nos assustamos com os relatos da “grande cheia de 2014”, da qual pudemos ter uma ideia ao encontrar uma canoa encalhada em plena mata! Foi explicada a função e possibilidades de manejo sustentável de vários resíduos florestais, tanto para a fabricação de artesanato (eco-joias, bio-joias) quanto para outros fins.

20160911_112959A troca de saberes entre um biólogo da UNIR e os habitantes locais foi proveitosa para ambos, apontado caminhos para a maior integração de projetos de extensão universitária com a defesa do patrimônio popular e ecológico local. Após o almoço, tivemos a última sessão de conversa para fazer balanços e tirar encaminhamentos concretos. Os principais foram: troca de contatos para seguir apoiando-se mutuamente; escrever um documento político sobre o encontro realizado; apostar no envolvimento da juventude local, atraindo-os com oficinas sobre tecnologias, como autoprodução de vídeos; seguir apoiando a ONG Arirambas (nome de um pássaro típico da região) em seu trabalho de apoio à outras comunidades ribeirinhas assediadas pelo avanço do capital; fazer uma cartografia social daquela região do Madeira; estabelecer programas permanentes de visitas universitárias e escolares, tornando a comunidade Maravilha um espaço de aprendizagem constante; integração das lutas urbanas com a luta ribeirinha; realização de sessões de cinema no local para que as comunidades vejam filmes sobre si mesmas.

O dia terminou com uma oficina prática conduzida pelos artesãos e artistas locais sobre o manuseio e confecção de eco-joias/bio-jóias, que – vale ressaltar – não são encaradas como uma atividade que deve gerar renda para substituir os modos de vida locais mas, ao contrário, garantir uma entrada mínima e necessária de recursos financeiros que ajudem a manter a comunidade vivendo de sua relação ancestral com seu território. Foi bonito, e gerou esperança, observar a  meninada se envolvendo e se interessando por sua própria cultura. Nos próximos três sábados haverá oficinas de atração e capacitação em artesanato.

Nós, da rede Jubileu Sul, desejamos muita sorte e sucesso nesta empreitada, da qual nos sentimos parte a partir de agora. Um novo encontro após estas oficinas, antes do ano acabar, seria estratégico para manter o projeto com força e os espíritos acesos para a resistência. Por fim, acreditamos que o intercâmbio ficará completo quando um representante da comunidade Maravilha puder vir à Baía de Sepetiba ou algum espaço de formação nacional apoiado pelo Jubileu Sul Brasil, a fim de contribuir para a formação política e manutenção dos vínculos de solidariedade e luta pelo bem-viver, os bens comuns e pelas reparações da dívida social, histórica e ecológica que o Brasil tem com seus povos tradicionais.

  1. Parabéns aos grupos. Fico muito feliz de ver, ainda que localizadas, Figueirinha de resistência. O importante è que não deixemos que se apaguem. Essa é uma responsabilidade coletiva.

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