Campanha destaca resistência e experiências nos territórios do Jubileu Sul na luta contra o endividamento

A Rede Jubileu Sul Brasil lançou em 27 de julho a primeira etapa da campanha A vida acima da dívida, que tem o objetivo de alertar para o impacto destrutivo do acúmulo e do pagamento da dívida pública ilegal na vida dos povos e da natureza.

Engajando todas as organizações membro da Rede na América Latina e Caribe, a campanha também busca fortalecer coletivamente a reivindicação pela anulação total da dívida financeira nos países da região, e ainda divulgar as consequências do pagamento da dívida no atual cenário de crise social, sanitária e ambiental.

Para marcar o lançamento, o Jubileu Sul e suas organizações realizaram uma coletiva de imprensa (confira o vídeo) e promoveram uma série de seminários virtuais transmitidos nas redes sociais, debatendo a questão do endividamento a partir das perspectivas, enfrentamentos e desafios específicos de cada região (assista no final da matéria).

O seminário “A dívida é com os povos e a natureza”, realizado pela Região Andina, abriu a série no dia 28 de julho. No dia seguinte, a Região Mesoamérica discutiu “O impacto da dívida sobre os corpos e territórios”, e no dia 29 a Região Caribe debateu “A dívida, autodeterminação, anticolonialismo”. A Região Cone Sul fechou a primeira semana de atividades com o seminário “Dívida e a soberania dos povos”, em 31 de julho. 

As ações prosseguem até dezembro e nesta entrevista Vladimir Lima, articulador do Cone Sul na Rede Jubileu Sul/Américas, fala das próximas etapas, do papel da campanha no cenário atual e comenta como a iniciativa de hoje dialoga com o plebiscito da dívida realizado há 20 anos pelo Jubileu Sul Brasil.

Como você avalia o conjunto de debates realizados nas quatro regiões nessa primeira etapa com o lançamento da campanha da dívida? 

Lançamos com muito entusiasmo esta campanha. Todas as quatro regiões estão bastante afinadas de como trazer com força questões atualizadas sobre as várias formas de endividamento nos dias atuais. Ouvimos experiências de resistência desde os territórios e, sobretudo, estamos fazendo uma importante análise do que estamos vivendo, como a COVID-19, a exploração dos povos, o racismo, a homofobia, e tratando com muita seriedade a questão do patriarcado e do machismo em nossas sociedades. Nesse sentido, relacionamos às denúncias, às reflexões, à nossa história, na verdade, à toda essa problemática da dívida. Assim, com esta campanha queremos fortalecer coletivamente nossa demanda pelo cancelamento total da dívida financeira, e fazer deste momento um tempo para aprofundar o debate sobre o porquê insistimos no não pagamento e cancelamento ao invés da moratória ou reestruturação dessas dívidas.

Continuar pautando o debate da dívida por meio das organizações que se articulam na rede é reposicionar o peso da dívida e alimentar as populações de informações, gerando opinião pública na agenda política, e cada vez mais relacioná-la com a crise social, econômica e ambiental que vivem os povos de nossa região.

Os seminários realizados durante a semana lançamento da campanha nos apontaram para isso, refletir para que possamos nos posicionar com embasamento em relação às consequências que essas dívidas nos deixam. Ao mesmo tempo, as ações propostas nesta campanha darão a oportunidade de nos deixar mais conectadas e conectados com as lutas diárias de resistência e organização das forças populares, e nos anima nos ajudando a compreender estratégias e atores envolvidos nos processos de dívida de nossos países e região.

Qual a relevância e o papel da campanha diante do cenário atual impactado pela pandemia? 

Tudo está conectado com as mazelas geradas por dívidas que não são contraídas pelos povos, e sim por governos e instituições que através delas só alimentam um sistema, o capitalismo. Nós sabemos que a crise sanitária também vai gerar impactos geopolíticos e devemos ver suas implicações – a mobilidade, a forma de se relacionar, de contatos, a forma de ver o outro. Temos que cada vez mais tomar o cuidado para não gerar mais intolerância e práticas xenofóbicas, que também como rede denunciamos e estamos preocupados e preocupadas. 

A pandemia só revelou o que já se vive há anos, há décadas. Toda a problemática da falta de valorização do SUS, por exemplo, traz à tona o não investimento na saúde pública. Por isso é que falamos sempre que queremos que haja mais responsabilidades dos governos, para que seja garantido o acesso ao sistema público de saúde. Sem investimento, vamos vivenciar mais ainda um caos. Nesse sentido questionamos por que não investir nas necessidades básicas ao invés de pagar essas dívidas?

Considerando os territórios e a dívida histórica do país com o povo negro e indígena, por exemplo, quais reparações você considera mais urgentes para os povos da região? 

Queremos mostrar o impacto que o pagamento da dívida tem na vida das pessoas e evidenciar as conexões entre o impacto da dívida sobre os direitos dos povos e da natureza. Nesse sentido, é exigir, por meio de ações coordenadas e posicionamento, o cancelamento da dívida externa. Tendo este contexto da COVID-19, precisamos saber e denunciar os impactos das políticas da dívida neste cenário.

A partir de agora, como a campanha prossegue? Quais os próximos passos e ações? 

Vamos continuar com os processos de mobilização nos níveis nacional, regionais e locais, com ações conjuntas em debates, fóruns. Como dito antes, temos bons materiais que tratam do tema, então iremos continuar distribuindo. Sem dúvida fortaleceremos as lutas locais nos territórios. 

Estamos divulgando amplamente nosso material de comunicação sobre os processos de dívida e suas conexões com os direitos dos povos e da natureza (saúde, alimentação, soberania, autodeterminação, espaços coletivos de convivência) e da natureza. E junto com outras organizações e redes, estamos realizando um acompanhamento, um monitoramento de ações quanto às propostas de implementação (nacional) das políticas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (BM), tendo como relevância o contexto agravado pela COVID-19. Também algumas pesquisas estão sendo organizadas, como um estudo sobre experiências de autogestão na América Latina e no Caribe, e esperamos poder logo mais realizar uma Conferência de Soberania Financeira, assim que a mobilidade for possível.

Como as pessoas podem se engajar e participar da campanha? 

Participando dos nossos debates, seminários e encontros, acessar nossos materiais disponíveis nos sites e redes sociais do Jubileu Sul, e nas plataformas virtuais que oferecemos como ferramenta de informação e formação. Nossa rede tem um vasto material produzido nestes 20 anos, onde esclarecemos toda essa questão das dívidas.

Na sua visão, de que forma a campanha atual dialoga com a campanha do plebiscito da dívida realizado há 20 anos?

Continuamos de forma organizada e articulada, junto com organizações, com comunidades, sindicatos e movimentos sociais dizendo que não devemos pagar por essas dívidas. São 20 anos de muita insistência denunciando toda a perversidade gerada por ela. Não aceitamos que a fome só aumente, não aceitamos que vidas sejam massacradas contidamente por um sistema. Dialoga nesse sentido, de continuar denunciando acordos de governos com o FMI, com Banco Mundial e outras instituições financeiras.

O que temos dito é que o ponto de partida é a nossa história, recriando à luz do que temos hoje. Partimos da história de luta construída nesta direção e levamos em consideração documentos relacionados às reuniões do BM e do FMI como base política para a campainha de várias demandas que foram feitas politicamente desde lá.

E uma oportunidade também de juntar cada vez mais nossas forças, de estarmos mais juntas e juntos nos fortalecendo como rede, como organizações, como movimento social e popular. Queremos nos animar e criar, celebrar formas de resistências. É muita luta e a campanha nos ajuda para isso, para sentir, para ver que, enquanto for necessário, lutaremos, denunciaremos, não vamos nos cansar. Penso que estamos aprendendo muito, temos aprendido na verdade. Seguimos em luta, em marcha, de forma que os povos sejam realmente livres, soberanos e que consigamos juntas, juntos, formar uma corrente de apoio, de solidariedade. Que consigamos a justiça, a igualdade. O Jubileu é isso, vem sendo isso desde seu nascimento, uma rede que tem se alimentado de muita esperança e de muitas lutas por meio da sua história.

Confira os vídeos dos seminários:

Cone Sul

Região Andina

Caribe


Mesomérica

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