Diversidade e igualdade de gênero para outro modelo de desenvolvimento

Um desenvolvimento com autogestão e empoderamento das mulheres: este é o modelo de desenvolvimento defendido pela organização porto-riquenha Comuna Caribe, membro da Rede Jubileu Sul que realiza diferentes ações voltadas à diversidade de gênero e ao enfrentamento de diversas formas de opressão, como o racismo e patriarcado.

Militante feminista e liderança da Comuna Caribe, Hilda Guerrero afirma que as mulheres, ao reconhecerem o próprio valor, elas se inserem em ações socioeconômicas e políticas que surgem de seus interesses e necessidades e, assim, vão respeitar, exigir e defender seus espaços em todos os níveis da sociedade.

“Uma das características mais importantes do processo de marginalização das mulheres é a perda da autoestima, a submissão da vontade aos desígnios da sociedade machista e a aceitação de papéis subordinados pelas mulheres”, explica Hilda, pontuando que, frente a esse contexto, a organização atua num processo contínuo de educação sobre inclusão, tais como linguagem inclusiva e respeito à perspectiva de gênero no cotidiano.

Por isso, a Comuna Caribe é um espaço de promoção da diversidade, aberto a pessoas de diferentes sexos e faixas etárias, inclusive as crianças que também compartilham experiências e recebem formação.

Mulheres negras, discriminação e xenofobia

Outra frente de luta é o combate a qualquer forma de opressão, o que inclui o racismo e a xenofobia e, nesse embate, a Comuna Caribe atua em parceria com outras organizações que compartilham os mesmos princípios de igualdade e justiça social, tendo a questão do racismo como eixo central.

“Trabalhamos contra a xenofobia e a discriminação com populações migrantes, que no caso de Porto Rico está intimamente relacionada ao racismo. Temos um plano de trabalho que continua sendo desenvolvido de forma presencial, com um vídeo educativo usado para treinar advogados que podem apoiar pessoas que migram e orientá-las sobre seus direitos Nesse processo, educamos quanto a ações discriminatórias contra essa população e aprofundamos a conscientização”, afirma a militante.

No caso das mulheres negras, Hilda relata que, como no Brasil, elas fazem parte da população mais pobre e vulnerável, atualmente mais impactadas pela perda de emprego e pela falta de acesso a serviços por conta da pandemia de coronavírus.

“A falta de serviços se tornou visível em certas comunidades, que foram afetadas por não receberem alimentos e estavam passando fome. No caso de mulheres migrantes sem documentos regularizados, essa situação foi dramática porque o medo de sair prevaleceu. A presença policial e militar nas ruas aumentou no país e, assim, aumenta o medo da prisão. Sem ter documentos regularizados, elas não tiveram acesso à ajuda financeira pelo Estado”.

Assim, a atuação de organizações não governamentais tem sido fundamental para apoiar esses setores, e a Comuna Caribe tem atuado na distribuição de alimentos e máscaras de proteção. Mesmo com os impactos da pandemia de coronavírus na região, outros projetos continuam sendo realizados, com adaptações para a nova realidade enfrentada.

Um deles é o Luna Caribe, que distribui gratuitamente toalhas reutilizáveis e ecológicas às mulheres que menstruam ou às que sofrem incontinência urinária, visando à saúde da mulher e da Mãe Terra e também como uma resposta ao consumo pelo capitalismo. Além de Porto Rico, as toalhas doadas chegaram a países como Haiti, Cuba, Guatemala, Nicarágua, Venezuela e a um abrigo para mulheres migrantes em El Paso, no Texas.

O projeto também é um espaço para que as mulheres troquem ideias e compartilhem ações de solidariedade, e as toalhas são confeccionadas por mulheres numa oficina da própria Comuna. Devido à pandemia, elas passaram a confeccionar máscaras para distribuir à população vulnerável. A oficina foi transferida emergencialmente para outro local, cedido por uma organização parceira, para garantir o distanciamento necessário contra a COVID-19.

Máscaras confeccionadas e distribuídas gratuitamente pelas mulheres da Comuna Caribe

Outro é o Mulheres que abraçam o mar, que surgiu em 2007, no qual as mulheres se reúnem fazendo da praia um espaço de cura e solidariedade, com encontros duas vezes por semana para práticas de exercícios para o corpo, a mente e espírito, numa perspectiva orgânica e integral. O local é La Pocita de Piñones, uma comunidade de afrodescendentes no município de Loíza.

Gênero e políticas públicas

Hilda conta que em Porto Rico têm surgido diferentes iniciativas para promover a participação das mulheres na construção de políticas públicas, tais como ampliar a participação em cargos públicos e na política partidária, entre outras frentes.

“Há um forte ativismo dos setores organizados das mulheres que influenciam através da participação em audiências públicas e promovendo discussão de políticas públicas. Há a incidência da rua, com manifestações públicas de denúncia e divulgação de perspectivas que estão sendo amplamente apoiadas no nível popular”.

Entre as iniciativas estão ações educativas com oficinas, conferências para ampliar a conscientização e estimular a participação das mulheres.

“Há ações diárias de solidariedade por meio de espaços de encontro que, enquanto produzem ações concretas, servem para atender individualmente às necessidades e ao fortalecimento pessoal e espiritual das mulheres” – é aqui que a Comuna Caribe se insere especificamente, finaliza a militante:

“Somos promotoras da justiça social e da igualdade de gênero e em todas as dimensões humanas que respeitam a dignidade de todes”.

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