George Floyd e o racismo eclesiástico: quando o chicote estala na batina

(Quando um padre negro não consegue respirar)

Por Padre Gegê

Este texto é a narrativa de um padre negro numa Igreja estruturalmente branca e racista. Papa Francisco ao se posicionar diante do estrangulamento de George Floyd pelo policial branco afirma: “não se pode fechar os olhos ou tolerar o RACISMO”. As palavras do bispo de Roma fundamentam minha fala, o meu protesto antirracista.  Ouvindo e seguindo o Papa pode-se dizer que, diante do RACISMO, a Lei suprema é: “não fechar os olhos ou tolerar”. Esse posicionamento exige, em especial de cada católico, o assumir, em nome do Evangelho libertador, a bandeira antirracista. Conforme adverte Angela Davis, “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Agora, como ser antirracista numa Igreja racista? Mas, a Igreja católica é racista? Respondo sem evasiva: SIM! E, historicamente no Brasil, foi no passado e é no presente amálgama de todo processo colonizador escravocrata. A obra O que é racismo estrutural? de Silvio de Almeida oferece fundamental instrumento de compreensão e análise do racismo para além dos casos isolados ou interpessoais. Para o autor “todo racismo é estrutural”. Dessa feita, o racismo é o modus operandi da sociedade. E a Igreja não foge a essa lógica. A filósofa Djamila Ribeiro na indispensável obra Pequeno manual antirracista sublinha que “falar sobre racismo no Brasil é, sobretudo, fazer um debate estrutural”.

É a partir dessa compreensão que falo em “racismo eclesiástico”, isto é, o racismo que é gestado e estruturado na ambiência hierárquica da Igreja – “racismo institucional”.

No dia 18 deste mês de junho completo 26 anos de padre. Assumo, diante do corpo negro de George Floyd e dos sem número de corpos negros tombados pelo racismo no Brasil (Ágatha, João Pedro, Miguel, Marielle…), o compromisso de falar do racismo eclesiástico a partir do meu corpo negro. A propósito, louvo o histórico programa Em Pauta do canal GloboNews (03/06), que no contexto do assassinato de George Floyd, abordou o racismo no Brasil a partir das trajetórias das jornalistas, isto é, a partir de seus corpos em movências insubmissas. Por que a Igreja não segue esse exemplo e coloca com sinceridade o racismo em pauta?

Da minha parte, começo a falar, a partir das marcas de meu corpo. Meu corpo é o lugar do discurso. Falo, pois, do racismo da e na Igreja sob cujo joelho branco eclesiástico impede padre preto de respirar.

A primeira partilha que faço desse “estrangulamento” sistêmico-eclesial refere-se ao âmbito educacional. Desde que entrei no caminho de formação para o sacerdócio até o presente momento, ingressei em 8 espaços acadêmicos de orientação católica: (01) Faculdade Eclesiástica de Filosofia, (02) Instituto Superior de Teologia João Paulo II, (03) PUC-RJ – Mestrado em Teologia, (04) Universidade Santa Úrsula (início do curso de psicologia), (05)  PUC-RJ – Psicologia, (06) IJOPA – Convalidação/Licenciatura em Filosofia, (07) Universidade Católica de Brasília (Virtual) – Pós em Filosofia (TCC inconcluso) e  (08) PUC- SP – Doutorado.

Em nenhum desses 8 espaços supracitados tive uma professora ou professor negro. Repito, nenhum sequer. E nem vou considerar agora a ocultação das temáticas sobre o negro e o racismo nas grades curriculares. Em geral, todo o meu processo de (de)formação acadêmica se deu sob a batuta do supremacismo branco e suas epistemologias colonialistas. No que se refere especificamente à formação para o sacerdócio no Seminário Arquidiocesano São José, sem dúvida, fui (de)formado por bispos brancos, reitores brancos, diretores espirituais brancos, professoras e professores brancos, livros e autores brancos; tudo branco para forjar uma Igreja branca à serviço de um mundo branco.

Por que não nos é apresentada, por exemplo, a potente obra Teologia Negra de Ronilso Pacheco? O que há de negro na formação presbiteral?

Por minha conta e risco, transgressoramente, cursei pós-graduação em História da África e do Negro no Brasil na Universidade Cândido Mendes. Foi um oásis no deserto da branquitude colonial esclesiástica. A propósito, qualquer diocese do Brasil, como a do Rio de Janeiro, erigida em território que contou com grande ingresso da população negra escravizada que não abraçou (e nem abraça) a Lei 10.639 – que faz obrigatório o ensino sobre a história da África e do Negro no Brasil – deixa escancarado, ipso facto, o racismo que promove. Não deveria ser a Igreja, em virtude de seu passado colonial escravocrata, a primeira a abraçar a Lei 10.639? Levando à sério as palavras de Papa Francisco, como “fechar os olhos ou tolerar” essa situação de racismo mascarado?

O processo de formação para a vida clerical (bispo, padre e diácono) implica, sob variadas formas, assumir a branquitude como paradigma. O clero é branco. A Igreja é branca!

Assumir a negritude, no contexto esclesiástico, é remar contra a maré e não raro, como no meu caso, transitar/capoeirar por entre arames farpados. Meu pai Jerônymo (falecido este ano) e meu irmão mais velho, Lázaro (falecido ano passado), certamente, morreram achando que como padre minha vida estivesse mais livre do racismo. Ledo engano! Quero, pois, que meus sobrinhos adolescentes, Mariana e José Augusto, saibam que o racismo esclesiástico me conduziu ao adoecimento.

O racismo adoece e mata em qualquer lugar. Sou, pois, um sobrevivente do racismo estrutural que constrói a sociedade e também o sistema eclesiástico. A partir do meu corpo ferido pelos arames farpados digo sem evasiva: para o sistema eclesiástico de brancura vidas negras não importam.

No próximo escrito vou tratar sobre os 10 anos que estive à frente da paróquia Nossa Senhora de Fátima (Paciência/RJ) sem obter o título de pároco. Ser pároco é ocupar um lugar de poder no sistema eclesial. Só me tornei pároco, na paróquia que hoje lidero, porque reivindiquei a função junto ao então arcebispo metropolitano, Dom Euzébio. Tive que “brigar” para obter o que meus irmãos de ofício, mormente, obtém naturalmente e num tempo reduzido de vida sacerdotal. Como ler essa ferida que sangra em meu corpo desconsiderando o arame farpado do racismo social e eclesiástico?

Estou em isolamento porque fui infectado pelo novo coronavírus. Pelo que tudo indica, não morrerei de Covid, graças a Deus; mas nada, nem na sociedade e nem na Igreja, me garante que não morrerei de racismo – vírus, quase sempre “invisível”, disseminado em toda sociedade e também na Igreja.

O racismo Mata George Floyd, mata Ágatha, João Pedro, Miguel, Marielle e a lista segue ad infinitum. Eu já morri várias vezes… Meu pai e meu irmão morreram muitas vezes antes da morte derradeira. Adverte Conceição Evaristo, a mater Generosa das Letras Pretas: “A terra está coberta de valas e a qualquer descuido da vida a morte é certa. A bala não erra o alvo…”.  E lembra ainda Conceição:  “A certidão de óbito, os antigos sabem, veio lavrada desde os negreiros”. E isso é triste, isso é trágico; mas isso é fato!

Transitar como homem negro em 8 espaços acadêmicos de orientação católica sem poder me reconhecer em nenhum professor ou professora é sim joelho branco em meu pescoço preto e chicotada colonial na pupila dos meus olhos. A invisibilidade do negro é uma das facetas mais cruéis do racismo brasileiro. E essa ocultação sistemática a Igreja também promove sem constrangimento ou culpa.

Quantos párocos negros tem as paróquias da zona sul ou da Barra da Tijuca? O chicote que estala na batina, estala na pupila.

Em outra partilha, no contexto da celebração dos meus 26 anos de padre, vou tratar da violência mais racista inscrita em meu corpo na ambiência eclesiástica. Um bispo branco ajoelhou-se em meu pescoço e, seguindo o protocolo escravocrata, impediu-me de ingressar no corpo docente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É como se dissesse: lugar de negro é limpando o banheiro da faculdade ou servindo café.

Desde que nasci em 1967 (e não era tempo de pandemia) luto contra o isolamento social; desde de que pisei no seminário até o presente momento, luto contra o isolamento eclesial.

Vidas negras importam?

Embora o sistema eclesiástico, na prédica, sustente que todos somos iguais em Cristo, na prática constrói esquemas de castas segundo os quais uns são tratados como mais humanos que outros. Esse é um legado colonial.

Há clérigos que vivem no “paraíso eclesiástico” e gozam de todas as benesses e privilégios que o mundo branco escravocrata pode ofertar a um mortal. Há outros que vivem no “purgatório” e movidos pela lei do carreirismo lutam, despudoradamente, pela seleção eclesial das espécies. Outros há que vivem no “inferno eclesiástico”. Esse é o meu lugar! E é desse lugar-senzala que nasce minha “escrevivência”. E, no rastro de Conceição Evaristo, minha escrita preta enseja, confessadamente, “acordar a casa grande de seus sonos injustos”. O racismo esclesiástico promove um contingente presbiteral vulnerabilizado; o racismo esclesiástico produz asfixia.

Escreve com sensibilidade engajada a teóloga Maria Clara Bingemer (PUC-RJ):  “A forma como Floyd foi assassinado é reflexo direto de uma segregação branca, que mergulha suas raízes na escravidão (…). A frieza com que o policial branco fincou seu joelho sobre o pescoço da vítima, com as mãos no bolso, demarca a posição da supremacia branca…esmagando a função mais vital do outro enquanto ser humano: sua possibilidade de respirar”.

E Nelson Rodrigues, oportunamente, reflete em posição antirracista: “Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite”. E diz ainda Nelson Rodrigues: “Acho o branco brasileiro um dos mais racistas do mundo”.

E é pela violência fria e inclemente desse racismo mascarado brasileiro, como incansavelmente denunciou Abdias Nascimento, que o chicote também estala na batina do padre negro. Com ou sem remorso, o poder eclesiástico, tal como meu corpo o vivencia e narra, é, física e/ou simbolicamente, joelhos brancos em pescoço negro. Por isso, meu corpo assumidamente preto grita no interior de uma Igreja estruturalmente branca: “Eu não consigo respirar”!

Mas a história do povo negro não termina aí. É preciso fazer justiça ao legado de resistência, enfrentamento e insurgência de nossos antepassados. Nossa história, desde Áfricas, passando pelos tumbeiros e os mais diversificados processos de escravização, jamais foi a história de corpos passivos estrangulados silenciosamente no chão colonial. Nenhum sistema escravocrata, inclusive o eclesiástico, bem como nenhum joelho de policial branco ou de qualquer poder genocida do Estado, jamais vai compreender que mesmo com o pescoço esfolado sempre restará algo de insurgente na boca preta.

Em Crítica da razão negra, Achille Mbembe nos ajuda saber que em cada negra ou negro transformado em “farrapo humano” pela colonialidade jamais restará somente os órgãos esticados no chão. Diz Mbembe: “resta também a fala, último sopro de uma humanidade devastada, mas que, até às portas da morte, se recusará a ser reduzida a um monte de carne… mesmo cortado em dois, o supliciado continua a proferir uma recusa. Não para de repetir a mesma frase: “‘Não quero morrer desta morte'”.

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